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Moda

O casal português que transforma plástico dos oceanos em sapatilhas cool

Depois de venderem uma loja online de roupa de luxo, André e Andreia decidiram dedicar-se a um negócio sustentável: a iRcycle.
Uma desgraça.

Quando naquela tarde de outubro de 2018, André Facote se sentou no sofá para ver o documentário “A Plastic Ocean”, da Netflix, jamais pensou que dali a uns meses iria ter uma marca de sapatilhas feitas de plástico retirado do mar.

“O filme mostra como estão os nossos oceanos. Há mais de 150 milhões de toneladas de lixo. Também faço surf na Fonte da Telha e vejo o estado em que está o mar lá. É impressionante”, conta à NiT.

André ficou super sensibilizado com esta e outras estatísticas do documentário. “Fez-se o click. Eu e a minha mulher, Andreia Coutinho, tínhamos sido escolhidos para ir à Web Summit, em novembro, e faltava-nos levar uma ideia. Então lembrei-me ‘por que não criar uma marca de calçado vegan?'”.

Para compreender melhor a história é preciso retroceder até ao início de 2018. O casal, que começou a namorar há 15 anos e que é dono de uma empresa de condomínios, decidiu criar a Luxulo, uma loja online de artigos de luxo. 

“Uma espécie de concorrente à Farfetch. Vendíamos Gucci, Versace e Armani, por exemplo. Tínhamos um contrato com um armazém de Itália que enviava os produtos diretamente ao cliente e nós ganhávamos uma percentagem”, explica.

A meio do ano passado, a Web Summit entrou em contacto com André e convidou-o para estar presente na edição de novembro, que aconteceu no Parque das Nações, em Lisboa. Era a oportunidade perfeita a apresentar o projeto online.

O casal na Web Summit.

Mas em setembro, o casal recebeu uma proposta para vender a tal ideia da loja online e acabou por aceitar. “O valor pela qual vendi? Posso dizer que não foi mais do que os quatro dígitos”.

O gestor de empresas despediu-se assim do projeto. Mas ficou com o problema da Web Summit — a organização continuava à espera que André e Andreia levassem a tal ideia para uma loja de luxo.

“Liguei para eles e contei-lhes a verdade. Disseram-me que não tinha problema nenhum. O convite mantinha-se, pediram apenas para levar uma nova ideia.”

Nos dias seguintes o gestor viu o tal documentário e lembrou-se de que o próximo projeto poderia ser sobre sapatilhas feitas com plástico retirado do mar.

“Foi preciso uma pesquisa muito intensa para perceber se isto fazia sentido. Encontrei uma fábrica em Barcelona [prefere não dizer qual] que tem uma parceria com os pescadores do Mar Mediterrâneo. Eles apanham o lixo e vendem à fábrica, que depois transforma tudo em fibra”, explica à NiT.

De Espanha, a fibra é enviada diretamente para uma fábrica em Guimarães. É lá que o material é transformado em tecido têxtil. Com duas etapas acordadas, faltava encontrar um sítio que fizesse as sapatilhas.

“Durante a Web Summit, um dos administradores da Monte Campo [marca centenária de mochilas] veio falar connosco. Em conversa, percebemos que conhecia uma fábrica em São João da Madeira que era capaz de aceitar o projeto. Entrei em contacto com eles e fechei negócio.”

Faltava, agora, escolher os modelos de sapatilhas, que foram desenhados pelo casal. Ao todo, são três pares, que vão ser postos à venda em várias fases deste ano. Os primeiros, que se chamam Ocean, são uma espécie de Stan Smith, da Adidas. Pode comprá-los a partir de 15 de março, no site da iRcycle, o nome da marca.

Os segundos, os SEA, ainda em fase de protótipo. Parecem os Air Max, da Nike, e vão estar à venda em abril. No mês seguinte chegam ao mercado as sapatilhas bota SCUBA, um calçado mais clássico. Os preços ainda não estão definidos mas vão custar entre os 100€ e os 140€.

Todos os modelos são personalizáveis. “No site, o cliente pode escolher a cor da língua [pala das sapatilhas], das laterais, sola [feita com borracha sustentável] e atacadores [de algodão orgânico]. “Quanto à parte têxtil, pode ser feita com plástico – “vale tudo, até restos de redes”, conta André – ou de uma fibra de ananás. 

Carregue na galeria para conhecer as sapatilhas feitas a partir do plástico retirado dos oceanos.