NiTfm live

Moda

Esta portuguesa fez um roupeiro com apenas 26 peças (todas sustentáveis)

Joana Cunha tem 31 anos e é a responsável pelo projeto Fair Bazaar.
Uma inspiração.

Tinha 15 anos e estava inscrita em Estilismo, uma unidade extra-curricular da Escola Alemã, em Lisboa. O curso acabava com uma apresentação da coleção criada pelos alunos. Joana Cunha fazia parte do grupo e era também uma das modelos.

“Lembro-me perfeitamente do que desenhei. Era um crop top e umas calças largas de cintura subida, em rosa claro”, recorda à NiT. Naquela altura,Joana, atualmente com 31 anos, já adorava tudo o que tinha a ver com moda. 

Por isso, depois de concluir a licenciatura em Gestão na Universidade Nova de Lisboa e o mestrado com especialização em Marketing na Universidade Católica, novamente em Lisboa, o seu percurso profissional seguiu naturalmente por essa indústria.

“Trabalhei cerca de dois anos na Gleam, uma plataforma de moda. Entre outras coisas contactava marcas para fazerem parte da aplicação”, conta. Em agosto de 2015, a vida da lisboeta mudou. 

“Despedi-me. Não estava feliz, o trabalho não estava alinhado com os meus valores.” Joana não queria continuar a contribuir para um “consumismo sem consciência”. Precisava de fazer uma pausa, “uma mudança interior” e procurar alternativas para ter uma vida mais sustentável. 

“Nessa altura comecei a fazer ioga e meditação, o que me ajudou muito interiormente. Depois houve um documentário, o “The True Cost” [“O Verdadeiro Custo”], que me mudou para sempre”, explica.

Neste filme, no qual são entrevistadas dezenas de pessoas, percebe-se como funciona a indústria da moda. Da plantação do algodão às passerelles, há imagens que são impressionantes. “Fiquei mesmo incrédula com tanta poluição. Prometi a mim mesma que nunca mais ia compactuar com isso.”

O primeiro passo de Joana foi conhecer a história de marcas sustentáveis, nacionais e internacionais. Conta à NiT que encontrou um mundo incrível, muito mais consciente. “Fascinou-me e percebi que havia muito para explorar. Na altura, entrei mesmo em contacto com elas para saber mais.”

Quando questionada sobre aquela que mais se destacou, relembra várias, cada uma à sua maneira. Houve a NÄZ, por exemplo, com uma história especial. “É de uma jovem super criativa, a Cristiana Costa. Ela ia às fábricas buscar os restos de tecidos que iam para o lixo e transformava-os em roupa”, explica.

Com muitos testemunhos sustentáveis reunidos, Joana Cunha decidiu começar um projeto, o Fair Bazaar. A 24 de abril de 2017, aproveitou a Fashion Revolution Week (uma espécie de Semana da Moda mundial criada para consciencializar essa indústria depois do desabamento de uma fábrica no Bangladesh onde morreram mil pessoas) para apresentá-lo.

“Queria mesmo dar voz a estas pequenas marcas sustentáveis que nem sempre são fáceis de descobrir. Para isso, reuni muitas delas e sentei-as numa mesa redonda nesse evento, em Lisboa, para falarmos sobre a moda sem desperdícios. Aproveitei para mostrar também o tal documentário que mudou a minha vida.”

Sem esperar, Joana juntou 150 pessoas na mesma sala. O sucesso foi tal que em setembro foi convidada para participar no Green Fest (outro evento dedicado à sustentabilidade), no Estoril. Lá, criou uma pop up store com 50 marcas, que venderam os seus produtos.

Voltou tudo a correr tão bem que Joana resolveu abrir uma loja da Fair Bazaar no Príncipe Real, em Lisboa, em novembro de 2017. Só mais tarde, no verão seguinte, criou a loja online. Ao todo, o projeto trabalha com cerca de 40 marcas nacionais e internacionais de moda, beleza e produtos para a casa.

Todas elas são sustentáveis. “Criei oito critérios de sustentabilidade [por exemplo, o facto de as peças serem feitas por artesãos, se são vegans ou recicladas]. São uma espécie de selos definidos por mim.”

Para pertencer à Fair Bazaar, uma marca tem de, pelo menos, seguir dois dos princípios da lista — embora a ideia de Joana seja aumentá-los ao longo do tempo. 

Em abril, com tudo a correr bem com o negócio, a jovem decidiu criar outro projeto: um roupeiro-cápsula só com propostas sustentáveis. “Em média, não usamos 80 por cento da roupa que temos. Senti necessidade de fazer um desapego e por que não ajudar também os outros”, conta à NiT.

Assim, entrou em contacto com as marcas com quem trabalha e juntou peças que, para Joana, são “minimalistas, essenciais e intemporais”. “Não quis nada descartável. As coisas são mais caras, mas têm muita qualidade.”

Ao todo, o roupeiro-cápsula tem 26 artigos — 15 peças de roupa, sete acessórios e quatro pares de sapatos — que podem resultar em 126 combinações. “A ideia é que o cliente tenha looks de verão para todas as ocasiões, desde o dia a dia, para festas ou reuniões. No inverno, voltamos a fazer outro guarda-roupa com propostas mais quentes”, explica.

Da coleção fazem parte, por exemplo, calças paper bag da Rhumaa, óculos de sol da Joplins, blazer de linha da Perto ou umas sapatilhas da Zoori, uma marca portuguesa que faz calçado a partir do lixo encontrado nas praias do Norte de Portugal.

Além deste roupeiro, a Fair Bazaar tem um serviço de styling que ajuda as pessoas a desapegarem-se das roupas que não usam. Por 250€, a stylist vai a casa do cliente durante quatro horas ajudar a criar um armário-cápsula; se preferir pode fazer o aconselhamento na loja, por 150€ durante três horas.

A seguir, carregue na galeria para conhecer algumas das peças que fazem parte deste novo projeto.