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Moda

Karl Lagerfeld, o génio da moda que vivia obcecado com a magreza extrema

Disse que Adele era gorda e criticou o movimento #MeToo. Morreu aos 85 anos após uma vida com tantos sucessos como polémicas.
Tinha 85 anos.

A rotina era sempre a mesma. Antes de se deitar, Karl Lagerfeld penteava o mais cuidadosamente possível o cabelo e vestia os melhores fatos. Assim, no caso de morrer durante a noite, era encontrado “digno”. A descrição foi feita por um dos seus grandes amigos, o realizador Francis Verber, num documentário exibido no canal francês “France 2”.

O criador de 85 anos tinha o ritual estudado. Porém, não pôde cumpri-lo. Morreu esta terça-feira, 19 de fevereiro, no Hospital Americano de Paris, França, depois de ser internado de urgência na segunda-feira, 18. Deixou várias recomendações: não queria um funeral tradicional, mas sim uma cremação. “As cinzas devem ser espalhadas com as da minha mãe e as da Choupette [a gata], se ela morrer antes de mim”, disse em dezembro de 2017 à revista “Voici”.

Estas ideias não são estranhas para quem conhece de perto a vida do até agora diretor criativo da Chanel. Karl Lagerfeld teve sempre um humor sarcástico. Em 2000, quando percebeu que não cabia nas roupas desenhadas pelo seu estilista favorito, Hedi Slimane, na altura responsável pela Dior Homme, o criador alemão decidiu perder 40 dos seus 95 quilos.

“Bem, apareceu esta nova linha só para pessoas magras que eu adorei. Falei com o Slimane e ele disse-me: ‘Queres mesmo voltar a usar estas peças? Então tens de emagrecer’. Foi aí que decidi voltar para os meus lindos e maravilhosos ossos”, escreveu no livro “O Mundo Segundo Karl: A Sagacidade e Sabedoria de Karl Lagerfeld”.

A obsessão pela imagem perfeita e a magreza era idêntica tanto no percurso profissional como no lado pessoal e acompanhou-o até ao fim. 

Num das últimas aparições.

A dieta milagrosa

Foi grande a polémica na altura. Em apenas 13 meses, aquele que era fanático por Coca-Cola — inclusive disse à revista “Harper’s Bazaar”: “Beo desde o minuto em que acordo até ao momento em que me deito” – passou de 95 a 55 quilos e a indústria da moda revoltou-se.

Afinal, como é que um homem que usava camadas de roupa preta para se esconder tinha perdido o peso equivalente a uma criança de 12 anos em tão pouco tempo? Tal como conta o site “Slate”, a imprensa internacional arranjou rapidamente uma justificação.

Karl Lagerfeld estava, supostamente, doente, consumia drogas e tinha feito uma lipoaspiração. O criador, que nunca perdia uma oportunidade de ganhar dinheiro, resolveu responder à polémica em 2004, com o lançamento de “Dieta de Karl Lagerfeld”, um livro que vendeu mais de 200 mil cópias.

Apesar de ter o nome do estilista, a publicação foi escrita pelo médico parisiense Jean-Claude Houdret. Em resumo, falava de uma dieta à base de proteínas e legumes, com baixo teor de carboidratos. A controvérsia estava nas dicas dadas pelo médico. “Não faça exercício físico, pois corre um risco sério de ficar com fome” e “pode beber refrigerantes Diet à vontade” eram duas das indicações.

Lagerfeld, que assinava dezenas de citações e ia contando como se sentia ao longo do regime (confessou, até, que comia catos e carne de cavalo), apoiava totalmente estas diretrizes. Aliás, na introdução, explicou os verdadeiros motivos pelos quais tinha iniciado a dieta.

“Não estava doente nem me sentia obeso [tinha 1 metro e 85 centímetros e pesava 95 quilos]. Queria ter um peso de acordo com a minha personalidade, com a visão que tinha de mim e do mundo. Mudei completamente o meu estilo de vida. Abdiquei da cor preta e das roupas chinesas e comecei a usar skinny jeans. Desfiz-me de tudo o que tinha a ver com a antiga imagem”, escreveu.

Karl Lagerfeld e a sua musa, Cara Delevigne.

A obsessão pelas pessoas magras

Karl Lagerfeld era um homem sem medos. Dizia sempre tudo o que pensava. Das maiores obsessões do “Kaiser”, como era conhecido graças à sua herança alemã (nasceu em Hamburgo em 1933), eram as manequins magras, que tinham presença assídua nos seus desfiles.

“Prefiro a magreza excessiva à obesidade. As grandes marcas precisam de se basear em corpos finos para criarem as propostas. Se eu emagreci para caber na roupa que queria, por que é que elas não podem fazê-lo?”, disse em entrevista ao jornal “Channel 4 News”.

Foi mais longe. “Há menos de um por cento de anoréticas e mais de 30 por cento de mulheres com peso acima da média. É com elas que deveriam preocupar-se. Isso sim é muito mais perigoso para a saúde”, garantiu.

Nas duras críticas, nem as celebridades escapavam. Em 2013, durante uma entrevista a Alina Cho para o programa “Fashion Week: Backstage Pass”, Lagerfeld, além de dizer que Pippa Middleton tinha “cara de borboleta”, fez vários comentários negativos sobre Adele.

Quando a apresentadora disse o nome da cantora britânica, o criador respondeu com “esse é outro problema”. E acrescentou: “Houve uma altura em que disse que ela era gorda. As pessoas não gostaram, mas a frase teve algum efeito. Soube que perdeu sete quilos um tempo depois.”

Também nos castings para os desfiles, Lagerfeld era bastante criterioso. Cindy Crawford, Diane Kruger, Vanessa Paradis, Kate Moss e Cara Delevingne eram as suas maiores musas e todas as manequins Chanel deviam seguir a mesma linha: corpos esguios e altos, como se fossem cabides a mostrar aquilo que mais importava para Lagerfeld, a roupa.