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Joana Neves: a portuguesa que penteia Miley Cyrus, Lady Gaga e Claudia Schiffer

Vive em Londres, mas passa a vida a percorrer o mundo. Já trabalhou também com Victoria Beckham e Kate Moss. E tem apenas 29 anos.
Aqui com Claudia Schiffer.

Passam poucos minutos das 16h30 de terça-feira, 18 de fevereiro, quando trocamos as primeiras mensagens com Joana Neves através do WhatsApp. Queremos saber a história desta portuguesa a viver em Londres, no Reino Unido, que tem sido a responsável por muitos penteados de celebridades — como Miley Cyrus, Lady Gaga, Claudia Schiffer e Victoria Beckham.

“Estou a trabalhar hoje na Prada. Assim que terminar dão-me o horário de amanhã. Posso confirmar daqui a um bocadinho?”, responde-nos. Acabamos por combinar para o dia seguinte e percebemos que Joana está em plena azáfama da Semana da Moda de Milão, em Itália.

À hora marcada, a jovem de 29 anos nascida em Oliveira do Hospital atende o telemóvel e fala com a NiT durante quase uma hora — primeiro no hotel, depois dentro da carrinha com a equipa de nove pessoas com quem vai a caminho de mais um dia de desfiles.

Se há 15 anos dissessem a Joana que ia ser cabeleireira, ela desmentia. “‘Deus me livre’ era o que eu mais respondia nessa altura. Tinha crescido com a minha mãe [Conceição Neves] a ter essa profissão e ela nunca tinha folgas. A dedicação dela era tão grande que não me via a seguir o mesmo caminho”, conta.

Tanto era assim que quando acabou o secundário inscreveu-se em Comunicação e Relações Públicas, no Politécnico da Guarda. Esteve cerca de três meses a frequentar a licenciatura, mas acabou por desistir — até porque não se adaptou àquela cidade.

A dar formação.

O trabalho que fez num dos fins de semana que foi a casa acabou por ajudar a tomar esta decisão. “Havia uma empresa de cabelos, a Unipinho, na minha região que fazia umas sessões de hair styling ao fim de semana para promover alguns produtos. Eles precisavam de modelos e como eu tinha o cabelo muito comprido, convidaram-me para participar.”

Joana, na altura com 17 anos, acabou por aceitar ser cobaia, tal como algumas amigas. “Adorei aquela sensação de show. Nesse dia cheguei a casa e disse: ‘mãe, afinal quero ser cabeleireira’.” Conceição apoiou-a desde logo, mas deu-lhe uma sugestão: “Disse-me que tinha de procurar uma escola boa fora de Portugal porque no nosso País continuavam a ensinar como há 30 anos”.

Sem grandes conhecimentos na área, a jovem pediu opinião à tal empresa com quem tinha trabalhado e acabou por inscrever-se na La Egipcia Murcia, uma escola de profissionais de beleza em Murcia, Espanha. Tirou um curso de cabeleireira durante dois anos. “Acabava as aulas e ia para um salão até às nove da noite estagiar. Não recebia nada, mas como tinha muita vontade de aprender achei que era uma forma de saber mais”, explica.

Certo dia, foi bater à porta de outro cabeleireiro, que pertencia ao hair stylist Ruan Fran e passou a trabalhar lá aos fins de semana. “Lavava cabeças, nada mais. Não tinha ordenado, mas se recebesse gorjetas podia ficar com esse dinheiro.” 

Entretanto, Joana acabou o curso aos 20 anos e voltou para Oliveira do Hospital. Começou por trabalhar novamente com a Unipinho, a empresa que lhe tinha mostrado a arte dos cabelos, mas o trabalho de escritório não a fascinou. “Estive lá três meses, planeava formações. Mas como tinha aprendido muito em Espanha, achei que estava a perder a prática e a velocidade de trabalho. Não era isso que queria”, conta.

Com a manequim Winnie Harlow.

Determinada a fazer sucesso na sua profissão, a jovem decidiu candidatar-se a um cargo de ajudante de cabeleireira na Elídio Designer, um salão famoso em Coimbra. “Aceitaram logo e perceberam que estava cheia de vontade de aprender.” Joana tinha tanta vontade que, para se motivar, inscreveu-se em várias competições de cabelos através do centro de emprego.

“Ganhei a medalha de ouro regional e depois a nacional, nos Açores. A seguir, participei numa competição na Exponor e voltei a ganhar”. Foi nessa altura que Joana teve conhecimento de uma feira internacional de cabelos que havia em Londres. “Muitas pessoas disseram-me que já tinha alguma bagagem e precisava de ir ver fazerem técnicas diferentes.”

A jovem nunca tinha ido àquela cidade, mas lembra-se que preparou a viagem em pouco tempo. Contudo, havia um grande problema: “Não sabia falar inglês. Nem uma palavra. Então, lembrei-me que a melhor forma de aprender era trabalhar durante alguns dias num salão londrino“.

Joana enviou alguns emails e fez vários contactos, mas apenas um respondeu: o Windle and Noodie. “O meu namorado [João Oliveira] foi comigo à entrevista e foi ele que a traduziu. No final, sem estar à espera, ele disse-me: ‘estão a perguntar quando é que queres começar’. Entrei em choque, mas respondi que para mim era ‘já’.”

A jovem era para ter ido apenas algum tempo a Londres, mas acabou por trabalhar durante três anos naquele espaço. Como o manager do salão era espanhol, a comunicação foi facilitada. Joana começou por varrer cabelos, lavar cabeças e até servir cafés — tarefas das quais já estava farta.

“Nem deixavam secar um cabelo. Até que um dia lembrei-me de pedir à minha mãe para me enviar as certificações e fotos dos prémios que tinha ganho em Portugal para provar que conseguia fazer mais. Mostrei a um dos sócios do sítio onde trabalhava e ele disse-me que eu era um talento que estava ali escondido”, relembra.

Num dia normal de trabalho, o outro dono do salão, um estilista de cabelos muito conhecido em Inglaterra, Neil Noodie, disse que queria muito conhecê-la, por isso pediu para a chamarem. “Não percebi logo o objetivo, mas os meus colegas disseram-me que ele devia querer que eu fizesse parte da equipa dele em vários eventos. Eles estavam tão entusiasmados por mim que só podia ser uma coisa boa.”

Foi, realmente. Joana reuniu com Neil e a partir daí a sua vida mudou. “O primeiro trabalho que fiz foi na Semana da Moda de Londres para a Burberry. Era fevereiro de 2012 e Cara Delevingne tinha acabado de aparecer. Eu e os meus colegas ficámos responsáveis pelos cabelos das manequins.”

A maison britânica, tal como conta a hair stylist, tem sempre looks muito simples, por isso, nesse desfile não foi diferente. “Foi tudo muito prático. Lembro-me que tive de secar os cabelos e claro que tirei uma fotografia com a Cara”. 

A partir daí, Joana começou a somar vários trabalhos do género ao seu currículo. “Esta indústria funciona muito como os olheiros no futebol. Estamos sempre a ser observados. No final dos desfiles há sempre alguém que pede o nosso contacto e nem sabemos bem porquê. Depois acabamos por receber propostas de agências. Se tiveres organização consegues trabalhar com várias”, explica.

De repente, a jovem passou a fazer as malas várias vezes por mês. Fez desfiles em Los Angeles ou Miami, nos EUA, e andou pela Ásia e pela Europa. “Quando não somos exclusivos de uma agência temos de pagar os voos, hotel e alimentação e depois recebemos um valor [prefere não dizer qual] por cada trabalho. Já quando ganhamos exclusividade tudo passa a ser diferente.”

É neste último registo que Joana está desde 2015, a trabalhar para o famoso estilista britânico de cabelos Guido Palau. “Agora ele paga tudo e depois recebo o meu ordenado. Neste momento, já sou responsável por selecionar, inclusive, os novos elementos para a minha equipa.

Quando perguntamos a Joana quais foram as celebridades com quem já trabalhou, ela perde a conta. “Bem, costumo fazer os desfiles da Victoria Beckham, por exemplo. As pessoas acham que ela é super arrogante, mas é um amor de pessoa e o marido é igual. Também já fiz um espetáculo da Lady Gaga e lembro-me que ela foi muito afável. Trouxe rosas para quem lhe fez o cabelo e a maquilhagem.”

As histórias não se ficam por aqui. “Cada vez que penteio a Carla Bruni, ela mostra sempre fotografias dos cães e da filha. Também é fácil trabalhar com a Kate Moss. Em dezembro houve um evento em Miami para a Dior e estive com ela uma tarde inteira. Ela tem uma imagem muito própria, mas foi uma querida. Ofereceu-nos chá e vitaminas que estava a tomar para se sentir bem.”

Outro dos momentos que Joana não esquece foi quando partilhou um backstage com Karl Lagerfeld em 2013. “Era um artista nato. Criava tudo para o desfile, desde o cenário, ao palco das modelos, o tema, tudo. Lembro-me que quanto aos cabelos ele enviava um esboço num papel do que queria e nós tínhamos de criar aquilo. Era um bocado frio, mas calmo e acertivo, nada arrogante”, recorda.

A foto possível com Karl Lagerfeld.

A jovem nunca chegou a falar com ele. “Nem pensar. Se queríamos alguma coisa era por intermédio de assistentes. Consegui uma vez tirar uma selfie em que ele aparece e guardo-a com carinho”. 

Quanto a experiências negativas, a jovem assume já ter tido, mas prefere não contá-las. No currículo tem nomes como Versace (maison que lhe deu a conhecer Claudia Shiffer), Alexander McQueen, Chanel, Dior, Ralph Lauren, Kenzo ou Burberry.

Na quarta-feira, 12 de fevereiro, foi responsável pelo penteado de Miley Cyrus, a cantora que encerrou o desfile de Marc Jacobs na Skylight Clarkson, durante a Semana da Moda de Nova Iorque, nos EUA. “Adorei. Ela era muito simpática e estava super nervosa. Disse-me que aquilo parecia pior do que saltar de queda livre de avião. Dizia que estava com medo de ir contra alguém ou não saber fazer tudo com exatidão”, conta.

Joana Neves com Miley Cyrus.

Embora tenha uma vida muito ocupada, Joana faz questão de receber muitas vezes a família em Londres. A mãe, que passou a vida toda a ouvir a filha dizer que não queria ser cabeleireira, é a mais orgulhosa. “Ela fica sempre super feliz, sem ter muito bem a ideia do que faço. Trabalhei vários anos para a Chanel, por exemplo, e ela sabe que isso é ótimo.”

Quem também se juntou à jovem foi João Oliveira, o namorado. “Acabou a licenciatura em Portugal e há dois anos veio viver comigo. Entretanto tornei-me numa das embaixadoras do mundo da Schwarzkopf e ele passou a ser meu agente. Trata das marcações e dessas coisas”, explica à NiT.

Embora esteja a fazer um percurso de sonho na sua área, Joana pensa um dia voltar para Portugal. “Vou ter sempre uma ligação com Londres, mas gostava de um dia morar em Lisboa. Quero muito investir no meu País na parte da educação. É urgente os cabeleireiros portugueses terem noção que a grande falha começa nas escolas. Não há sítios capacitados para ensinar de uma forma atual e eu gostava de mudar isso”.