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Lojas e marcas

Sabia que as funcionárias da Zara são obrigadas a usar batom vermelho?

A NiT falou com seis antigas ou atuais funcionárias das lojas da fast fashion. As declarações são surpreendentes.
Carteira da moda.

Joana (nome fictício) trabalhava há meio ano na loja da Zara, do shopping Alegro, em Alfragide, quando recebeu uma ordem dos escritórios do grupo Inditex em Portugal a informá-la de que as funcionárias teriam de passar a usar sempre batom vermelho. “Foi há seis anos. Penso que o anúncio tenha sido geral para todas as lojas. A partir daí começaram a avisar as miúdas nas entrevistas de emprego, mas nada disso vem escrito no contrato”, conta à NiT.

Essa obrigação é informal mas bem real. E não vem, de facto, no contrato de trabalho. A confirmação é feita por outra antiga funcionária da Zara. Durante três anos, Sofia (nome fictício) passou pelas lojas dos centros comerciais Colombo e Vasco da Gama e da Baixa de Lisboa. “[O batom vermelho] é considerado parte da farda. Se não estiveres a usar, a responsável de loja pede-te para subires aos balneários e pores”.

As regras de maquilhagem nas lojas de Amancio Ortega já vem de longe, embora tenha começado de forma muito soft. Tânia Reis, de 36 anos, trabalhou no espaço da fast fashion do Centro Vasco da Gama em 2000.

“Nessa altura, apenas tínhamos de estar apresentáveis.” E acrescenta: “Podíamos ter apenas rímel ou lápis nos olhos. Gostei muito de lá trabalhar. Acho bem as responsáveis pedirem para as pessoas se arranjarem. Até porque estão a atender ao público. Se calhar agora é em excesso.”

É precisamente desse excesso que nos fala Cláudia Palma, 28 anos, funcionária da Zara do Almada Forum, em Almada, entre 2010 e 2012. “Éramos obrigadas a estar maquilhadas. E muito maquilhadas. Não bastava a base, tínhamos de ter sombra, blush, rímel e obrigatoriamente batom.”

Naquele altura, o batom não precisavam de ter um tom garrido. “No entanto, punha sempre vermelho e as minhas colegas também, porque era o que realçava mais na nossa pele e na farda que era e é toda preta.”

Mas, atenção, havia regras: “Se o batom era nude, os olhos tinham de estar com uma cor mais carregada. Se não estivéssemos bem maquilhadas, não podíamos entrar sequer no trabalho.”

Nesta loja da Margem Sul, as regras iam até mais longe. “Havia batons disponíveis para o caso de alguém aparecer por lá sem os lábios pintados. Tínhamos de partilhar o mesmo batom.” 

Com o tempo, as regras tornaram-se mais rígidas. Mafalda (nome fictício) começou a trabalhar na Zara do Alegro, de Setúbal, em 2014. No contrato que assinou com a empresa não vinha nenhuma referência à maquilhagem. Porém, nos primeiros dias de casa foi logo chamada à atenção.

“Levei outras cores, tipo bordeaux ou rosa, mas [as responsáveis de loja] reclamavam. Tinha de ser nos tons vermelhos, mais escuro ou mais claro, mas sempre vermelho”, conta à NiT.

Esta versão é confirmada por uma responsável de loja da fast fashion entre 2012 e 2018, que prefere não dar o nome porque ainda trabalha no grupo Inditex.

“Sim, é obrigatório usar batom vermelho. A cor foi uma escolha deles. Trabalhei seis anos na Zara e desde o primeiro dia que me foi dito que a maquilhagem devia ser leve e o batom vermelho.”

A pressão sobre as funcionárias pode ser sufocante

Segundo Andreia (atual funcionária da Zara que prefere não referir o nome verdadeiro com medo de sofrer represálias), diz que a pressão sobre as mulheres que trabalham nas lojas chega a ser sufocante.

“Logo na entrevista de emprego foi-me pedido e ‘ordenado’ que usasse sempre batom vermelho. Nunca me disseram nada porque vou sempre maquilhada, mas já vi colegas serem chamadas à atenção por não usarem batom ou ainda por ser uma cor diferente daquela que é suposto. É ridículo. Se o tom foge ao que elas querem, somos logo repreendidas.” 

Andreia vai mais longe. “Esta obrigação tem mesmo coisas más. É muito giro, sim. Mas, muitas vezes, ao dobrarmos a roupa, tocamos com os lábios e a peça fica suja. Passam-me muitos artigos pelas mãos com vestígios de batom vermelho. Nunca sabemos se são meus, de uma colega ou de clientes”, explica à NiT.

A mesma fonte continua: “Às vezes tenho de ir retocar o batom. Os meus lábios secam imenso e é desconfortável.”

Esta obrigação informal da Zara é legal?

“Não é legal. A única coisa que a Zara pode pedir é que as funcionárias estejam apresentáveis, mas nada tem a ver com a maquilhagem, isso não é aceitável”, explica à NiT a advogada Rita Garcia Pereira.

“A marca não pode impor sequer que a pessoa vá maquilhada. Como eles [grupo Inditex] conhecem bem a lei, sabem que nem podem pôr essa informação no contrato.”

E o que acontece se uma funcionária for despedida por se recusar a usar batom vermelho?

A advogada especialista em direito do trabalho responde: “A empresa só pode despedir alguém por justa causa. E este conceito de justa causa é muito apertado. Só pode ser usado em incumprimentos graves, como faltas ou desvios de dinheiro. Se uma pessoa for despedida por não usar batom tem de mover um processo contra a Zara e ir para tribunal discutir o conceito de justa causa. Nesse caso, a empresa percebe que não tem razão”.

A NiT contactou o grupo Inditex para perceber se o uso do batom vermelho é mesmo uma obrigação em todas as lojas, mas até ao momento ainda não obteve resposta.