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Vai ser mesmo possível reconstruir a Catedral de Notre-Dame?

"Não importa a destruição, o espírito do que significa ser uma catedral sobrevive a catástrofes".
15 horas de incêndio.

“O fogo foi extinto na sua totalidade. Agora, é a fase dos especialistas”, resumiu Gabriel Plus, o porta-voz dos bombeiros de Paris, numa conferência de imprensa em frente da Catedral de Notre-Dame na manhã desta terça-feira, 16 de abril. Citado pelo “JN“, o responsável das autoridades trazia assim um pouco de alívio a mais de 15 horas de sufoco — as mesmas em que o monumento mais visitado da Europa e um dos mais acarinhados do mundo esteve a arder.

Na manhã do dia seguinte, fica o rescaldo, ou o início do mesmo, já que deverá demorar dias a apenas levantar a dimensão dos estragos e do que se perdeu. Uma das coisas mais importantes, dizem especialistas citados por vários meios internacionais, é perceber o abalo que a estrutura levou. Só a partir daí se poderá planear o futuro.

O fogo começou por volta das 17h50 de segunda-feira 15 de abril, hora de Lisboa. Embora as causas ainda não sejam conhecidas, o incêndio terá tido início no telhado, avançando rapidamente em relação às torres. Como terá começado numa estrutura, ou num andaime, de uma parte do monumento que estava em obras, as autoridades estão a investigar se haverá uma relação com estas. O reitor da catedral, Patrick Chauvet, disse esta terça-feira que o fogo parece ter começado numa rede interna de vigas de madeira, datadas da Idade Média e apelidadas de “a floresta”.

Enquanto a Catedral ainda estava em chamas e se temia o pior — a sua destruição total — , o presidente francês Emmanuel Macron já anunciava que um esforço internacional para levantar fundos para a reconstrução começaria esta terça-feira. “Vamos reconstruir Notre-Dame”, disse ele ao visitar o local na noite de segunda-feira. “Porque é isso que os franceses esperam.”

Os franceses e não só, aparentemente. A UNESCO ofereceu-se imediatamente para ajudar e a bilionária família Pinault, do marido frances da atriz Salma Hayek, já prometeu 100 milhões de euros para esse fundo.

A família de Bernard Arnault, proprietário do grupo de artigos de luxo LVMH Moët Hennessy da Louis Vuitton, vai contribuir com 200 milhões de euros e o ministério da Cultura da Rússia também se ofereceu para investir.

Mas agora? Por onde se começa? Estas são as perguntas que se repetem em todo o mundo. Agora, o rescaldo da estrutura do edifício vai ser crucial para averiguar que tipo de intervenção terá de ser feita. Enquanto se oferece ajuda, especula-se sobre o que haverá ainda para salvar. Além de danificar o edifício em si e derrubar o icónico pináculo, o fogo destruiu o teto da catedral e danificou em parte as suas relíquias e vitrais.

Um dos seus tesouros mais importantes, a coroa de espinhos que dizem ter sido usada por Jesus Cristo durante sua crucificação, foi salva pelos bombeiros — mas o destino de outros itens históricos ainda não é bem claro. O enorme e icónico órgão musical terá sido afetado pela água mas será recuperável, e o altar e a cruz de Cristo também parecem a salvo.

Além disso, as estátuas dos 12 apóstolos e quatro evangelistas que escreveram parte do Novo Testamento foram retiradas da catedral na última quinta-feira, 11 de abril, para sofrerem trabalhos de recuperação noutro local, escapando assim do incêndio.

Ao “The New York Times“, o arquiteto que supervisionou o trabalho na catedral nas décadas de 1980 e 1990 disse que acreditava que grande parte do prédio e seus móveis ainda podem ser salvos. “A abóbada de pedra funcionou como um muro anti-fogo”, disse Bernard Fonquernie. Mas o telhado, um vasto quadro de madeira coberto com folhas de chumbo, parece ter desaparecido, frisou. 

Seja o que houver para recuperar, há claramente vontade política, dinheiro — são esperadas mais doações nas próximas horas e dias — e tempo para o fazer.

“Não importa a destruição, o espírito do que significa ser uma catedral pode sobreviver e sobrevive a catástrofes”, disse Becky Clark, a diretora de catedrais e igrejas da Igreja da Inglaterra, num comunicado citado pela “USA Today“.

A mesma revista lembra várias igrejas inglesas que se levantaram das cinzas: a Torre de Lincoln, que desmoronou em 1500; a Catedral de São Paulo, que ardeu por várias vezes, uma das quais no Grande Incêndio de Londres; e o Coventry, que foi bombardeado na Segunda Guerra Mundial.

“Todos foram construídos, às vezes assumindo novas formas, como lembretes da eternidade e ressurreição, que são a base da fé cristã”, disse ainda Clark. 

A Notre-Dame, situada numa ilha no meio do Rio Sena, a Île de la Cité, é um símbolo de Paris e de França há mais de oito séculos, os mesmos da sua existência. Atualmente, é um dos monumentos históricos mais visitados do mundo, com 12 a 14 milhões de pessoas a observarem por ano o seu interior, as famosas gárgulas e as relíquias históricas. Começou a ser erguida no século XII, em 1163, durante o reinado do rei Luís VII, e iniciou a função religiosa em 1182, embora os trabalhos de construção tenham ido até 1345. É considerada uma joia da arquitetura gótica medieval.

Durante décadas foi a igreja mais importante de França, local onde se casaram o Rei Henrique IV, e o imperador Napoleão foi coroado. Henrique VI foi também ali coroado rei da França, o processo de reabilitação de Joana d’Arc começou em Notre Dame. Romanceada dezenas de vezes, foi Víctor Hugo, com o seu livro “Corcunda de Notre-Dame”, editado em 1831, que levou o monumento a todo o mundo e o elevou a um ícone de culto.

Como a NiT escreveu num artigo enquanto o incêndio de segunda-feira decorria, antes deste trágico incidente a Catedral sobreviveu à brutalidade da Revolução Francesa, no final do século XVII, e às duas guerras mundiais do século XX.

Durante a Revolução, foi constantemente pilhada, atacada, saqueada e vandalizada, chegando a ser utilizada como um armazém, mas viria a reerguer-se. Em setembro e outubro de 1914, durante a Primeira Grande Guerra, pilotos alemães soltaram mais de 50 bombas sobre Paris durante a Primeira Batalha do Marne, chegando a atingir e danificar parte do seu telhado.

Durante a Segunda Guerra sobreviveu a mais bombardeamentos, parecendo escapar sempre miraculosamente, quase incólume, aos ataques. E foram os seus sinos que anunciaram, em 25 de agosto de 1944, a libertação de Paris do nazismo.