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Relato do Brasil: praias vazias, favelas sem condições e um presidente em negação

A jornalista Klara Duccini conta à NiT, na primeira pessoa, como se está a desenvolver a situação no país e no Rio de Janeiro.
A praia do Leblon, na sexta-feira, 27 de março.

Klara Duccini é jornalista, brasileira, “carioca de gema” e está a residir no Rio de Janeiro, onde nasceu — enquanto o seu país, tal como o nosso, vive o embate da luta contra o coronavírus. A repórter, que já trabalhou na TV Globo, no Brasil, e na NiT, em Portugal, fez um relato na primeira pessoa da situação no seu país. Obviamente, reflete o que está a viver no seu caso concreto, não necessariamente o que grande parte das pessoas, noutras cidades ou realidades, está a a passar no Brasil.

Numa nação com tantas diferenças sociais, uma coisa é agora certa para muitos: a guerra contra a Covid-19 é, também, uma luta contra um presidente (Jair Bolsonaro), que chama à doença “resfriado”, desvalorizando o surto, e que parece querer travar todas as iniciativas de contenção. 

Rio de Janeiro, 29 de março de 2020. 3.985 infetados em todos os estados, 116 mortos no Brasil.

O avanço do coronavírus no Brasil tornou mais evidente para mim o quão privilegiada sou. E porquê? Porque, se esta crise mundial durar meses, tenho uma casa para morar e dinheiro na conta bancária para sobreviver pelo menos durante este período. Mas o que vai acontecer a quem não tem?

A 17 de março, o governador do Rio de Janeiro, cidade onde moro, pediu que os cidadãos praticassem o isolamento social, ou seja, a partir daquele dia todos deveríamos evitar aglomerações e só poderíamos sair de casa para comprar comida e medicamentos.

Estava no meu apartamento quando assisti na televisão ao anúncio de que o Rio de Janeiro tinha entrado em situação de emergência por causa da doença. Era uma terça-feira, dia da semana em que recebo a ajuda de quem põe a minha casa em ordem. Aproveitei a oportunidade para conversar com ela e avisar que não precisaria de vir até à minha casa durante pelo menos 15 dias, pois também ela devia parar de circular pela cidade.

Vi nos olhos da Ana a preocupação de quem é uma trabalhadora autónoma. Para ela — e para outros 38,8 milhões de brasileiros, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística —, ficar em casa e não trabalhar significa deixar de receber o salário no final do mês e, consequentemente, não pagar as contas e o arrendamento. Da minha parte, garanti que a Ana irá receber os pagamentos da limpeza no meu apartamento mesmo sem vir trabalhar, mas nem todos pensam como eu.

Aqui no Brasil, ainda há pessoas que, assim como o presidente, Jair Bolsonaro, consideram que a Covid-19 é uma simples gripe. Assim que as escolas fecharam e a quarentena ainda era apenas uma recomendação, as praias do Rio de Janeiro ficaram lotadas num dia de sol, como se estivessem todos de férias coletivas.

A praia do Leblon a 15 de março, quando já havia recomendação para ficar em casa.

Com a subida do número de infetados e o decreto de calamidade pública no Rio de Janeiro, a população começou a perceber que precisava de levar o novo vírus a sério. Pouco a pouco, as ruas e as praias ficaram vazias. Moro em frente de uma das mais movimentadas avenidas do bairro da Barra da Tijuca e pela varanda pude ver o volume diário de carros diminuir visivelmente.

Quando fui ao supermercado, um dia depois da decretação obrigatória da quarentena no Rio de Janeiro, não encontrei as prateleiras vazias nem clientes desesperados. Consegui comprar todos os itens da minha lista com exceção do gel desinfetante, já que este virou um artigo de luxo em qualquer lugar da cidade. Na fila para pagar as compras, todos respeitavam a distância mínima de um metro entre os clientes.

Fui para casa com a esperança de que juntos iríamos vencer a pandemia e conseguir achatar a tal curva de progressão da doença no Brasil, mas basta ligar a televisão para nos apercebermos de que esta guerra é muito mais do que uma batalha contra um vírus e que vivo numa bolha de privilegiados.

Aqui, no Brasil, a nossa guerra é também contra um presidente que não quer parar o país e que incentiva as pessoas a saírem de casa. A batalha é ainda contra a extrema desigualdade social e a pobreza.

A população que mora nas favelas sofre com a falta de água em casa. Como vai lavar as mãos várias vezes por dia para evitar a contaminação? Os trabalhadores informais vão ganhar dinheiro como, se quem tem melhores condições de vida não está a sair às ruas e por isso não consome os seus produtos nem utiliza os seus serviços? E os sem-abrigo que recebem comida e ajuda de voluntários? Vão vaguear como zombies até morrerem de fome?

O Leblon, atualmente.

São muitos os problemas que estamos a enfrentar e muitos os que ainda virão pela frente, não duvido. Entretanto, vejo crescer uma imensa rede de solidariedade e chego a ver uma luz ao fim da quarentena, mesmo quando o presidente Jair Bolsonaro continua sucessivamente a menosprezar a pandemia e a chamar o coronavírus de “uma gripezinha”, numa declaração recente para toda a nação.

Por aqui, propagam-se atitudes simples como oferecer para ir ao supermercado em vez do vizinho idoso; preferir comprar frutas e verduras orgânicas do comércio local em vez de comprar nos grandes fornecedores; encomendar ovos da Páscoa confecionados por trabalhadores autónomos; doar produtos de higiene e garrafas de água para quem mora em comunidades mais pobres.

São gestos de solidariedade que nos ajudam a manter a sanidade e a não perder a esperança: de, pelo menos, sairmos desta crise sendo pessoas melhores.