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“Após a primeira volta ao mundo, senti que ser despedido foi das melhores coisas”

Viajou 14 meses e nunca mais parou. Filipe Morato Gomes, do blogue "Alma de Viajante", fala de destinos e da nova associação.
Filipe no Alhambra, em Granada.

Escreve o mais antigo (e dos mais premiados) espaço pessoal de viagens em Portugal, fundou a Hotelandia, uma plataforma com os melhores hotéis de Portugal, e ajudou agora a criar a ABVP: a primeira Associação de Bloggers de Viagem Portugueses.

Filipe Morato Gomes tem 48 anos, nasceu no Porto mas mora em Matosinhos e já viajou pelo mundo: mais de 100 países são os que já terá visitado, mas, confessa à NiT, já lhes perdeu a conta.

Em 2001, ainda os blogues não eram uma realidade, Filipe fotografava e escrevia artigos de viagens para várias publicações. Começou a fazer diários e registos mais pessoais das suas aventuras e a relatar tudo o que via e sentia. Pouco tempo depois nascia o “Alma de Viajante”, o site e blogue de viagens mais antigo do País e vencedor de vários prémios: Melhor Blogue de Viagens da BTL em 2017, Melhor Blogue dos momondo Open World Awards 2017 e 2018 e Blogue Mais Popular do FITUR 2018.

No último ano, dedicou-se com dois amigos a workshops sobre escrita de viagens e também a criar a associação que reúne quem escreve sobre o tema. O objetivo? Apoiar e ajudar o desenvolvimento profissional daqueles que atuam no segmento do turismo, potenciar as suas plataformas, aconselhar.

A propósito da agência lançada no início desde ano, a NiT falou com Filipe Morato Gomes sobre o chamamento das viagens, os melhores e piores destinos, as recomendações para este ano, a tendência das viagens a solo, os riscos e deceções que teve e a fórmula, se é que existe, do enorme sucesso do seu espaço de partilha.

Como e quando surgiu este chamamento das viagens?
Comecei a viajar com os meus pais. Os destinos eram sempre muito próximos e o orçamento muito reduzido. Mas íamos. E era bom. Lembro as férias de campismo selvagem na Serra do Soajo, semanas de descoberta em que, com a ajuda de um tio escuteiro, criávamos acampamentos luxuosos; lembro as intermináveis jornadas de VW Carocha para o Algarve sem gente; e lembro, já adolescente, as férias na Zambujeira do Mar, quando a aldeia era apenas isso, uma aldeia. Era um “viajar” à medida da época, quase sempre dentro de portas. Além disso, lembro-me de, durante anos a fio, ouvir histórias de viagem da boca do meu avô, episódios originários do transiberiano, das estepes mongóis, da Amazónia brasileira, enfim, dos quatro cantos do mundo. Julgo que foi assim que o desejo de viajar foi aparecendo.

Lembra-se de qual foi o seu primeiro destino?
Fora de Portugal, julgo que foi uma viagem de carro por Espanha e sul de França, de tenda às costas, com os meus pais. Quanto ao primeiro destino em que fiz algo profissionalmente com a viagem, que resultou numa publicação, foi um reportagem sobre as Maurícias.

Quantos países já terá visitado?
Não sei o número exato, mas deve estar a chegar aos 100.

Como surgiu o blogue “Alma de Viajante”?
O “Alma de Viajante” nasceu em 2001 de forma muito tímida, ainda que não no formato blogue (não existiam blogues nessa altura!). Nos tempos livres fui usando as minhas competências profissionais na área de multimédia para construir um site a que chamei “Alma de Viajante”. Peguei nas minhas fotos, em alguns textos publicados em revistas (a primeira reportagem que publiquei numa revista de viagens foi sobre as ilhas Maurícias com o título “Maurícias, aguarela no Índico”), fiz o design (muito básico), programei, fiz tudo. Ainda nem se falava de blogues quando nasceu o “Alma de Viajante”; era um site, como se dizia na altura.

Em 2003 perdi o emprego e foi quando o “Alma de Viajante” começou verdadeiramente a tomar forma (por isso costumo assumir 2003 como o ano da criação do blogue). Paralelamente, decidi ir viajar de forma prolongada. Juntei dinheiro e, em julho de 2004, parti para a minha primeira volta ao mundo, uma viagem que haveria de me mudar completamente. Foram os 14 meses que mais impacto tiveram naquilo que sou hoje. No regresso, sentia já que ser despedido tinha sido uma das melhores coisas que me acontecera na vida. Comecei a dedicar 14, 15, 16 ou mais horas por dia ao “Alma de Viajante” e, aos poucos, os resultados começaram a aparecer.

Como explica e descreve o seu sucesso e prémios?
Eu acredito que, colocando empenho, paixão, ética e honestidade naquilo que se faz, aos poucos vai-se ganhando credibilidade e, com ela, tudo o resto aparece por acréscimo. Não há milagres, apenas muito trabalho, dedicação e seriedade. E é muito gratificante ver o trabalho reconhecido.

Quantos seguidores regulares tem?
Os números de seguidores nas redes sociais hoje em dia pouco valem. Os 13 mil seguidores que tenho do Instagram são provavelmente mais importantes do que os 215 mil do Facebook. Mais relevante do que tudo isso, são as dezenas de mensagens que troco diariamente com os meus leitores, inspirando-os a irem atrás dos sonhos e a serem mais felizes, ajudando-os com dicas concretas para viajarem mais e melhor, incentivando-os a saírem de casa e ganharem mundo.

Quando à audiência do blogue, espero em 2019 mais de quatro milhões de visitantes únicos. São mais de dez mil leitores por dia, o que é extraordinário para um blogue de viagens escrito unicamente em português e feito por uma única pessoa. Estou muito grato a cada uma dessas pessoas que aprecia e respeita o meu trabalho.

Agora fala-se muito nas viagens a solo, costuma viajar sozinho ou acompanhado?
Já experimentei viajar com amigos, a dois e em família mas, sem qualquer dúvida, viajar sozinho é muito especial. É a forma mais rica de viajar, aquela em que o viajante está disponível para o outro, está constantemente a tomar decisões (e a enfrentar as consequências dessas decisões), e em que adquire um auto-conhecimento único. Não menos importante, é viajando sozinho que se conhece mais gente — e só isso é razão suficiente para o fazer.

Qual o destino que mais o impressionou ou marcou pela positiva?
O Irão, pelas pessoas. Acho que toda a gente deveria dar-se a oportunidade de verificar o quão errados podem ser os preconceitos que todos temos sobre o Irão. Já fui mais de 20 vezes ao Irão e nunca me canso, precisamente por causa da hospitalidade iraniana — um dia, escrevi até, com ironia, que era “o país mais perigoso do mundo”.

Em termos de beleza natural, tenho também duas grandes paixões: a Nova Zelândia, no hemisfério Sul, e a Islândia, no hemisfério Norte. Para quem gosta de atividades ao ar livre, são dois dos destinos mais incríveis que já tive oportunidade de conhecer. Falta-me a Patagónia, que seguramente entrará nesta lista de preferências logo que tenha oportunidade de conhecer.

E pela negativa?
Só houve um país onde me cansei de viajar, mas a culpa foi minha: a China. Tenho de dar outra oportunidade ao gigante asiático, desta vez apostando em ambientes mais rurais.

E qual o que mais o surpreendeu, em termos de expetativa e realidade?
A Argélia foi uma das grandes surpresas dos últimos tempos. Num registo completamente distinto, fui a Maiorca sem grandes expetativas mas descobri uma ilha que, saindo dos buracos turísticos, é muito cénica e interessante.

Tem dois filhos (uma rapariga de 12 anos e um rapaz de quatro). O que muda ao viajar com crianças?
Não muda muito, exceto o ritmo da viagem — que tem, naturalmente, de ser mais lento. Já aprendi muitas coisas e já escrevi um artigo sobre sete coisas que deve saber sobre viajar com crianças, precisamente por ser tão consultado neste tema. E conto aqui uma história que contei lá. Com a minha filha mais velha, estávamos num magnífico hotel da Coral Coast, nas Ilhas Fiji, autodenominado de backpacker resort. Tinha uma área social muito utilizada, com mesas, deck e piscina, e onde serviam uns maravilhosos scones e chá a meio da tarde; tinha os bungalows geograficamente espalhados por caminhos e espaços relvados; e, numa zona afastada, havia uma cozinha e uma pequena sala comuns com sofás e televisão.

Certo dia estávamos na cozinha sem a pequena Inês. Julgo que ficou a brincar com amiguinhos junto à piscina e que depois iria ter à cozinha. Estávamos tranquilos, mas a verdade é que o tempo passou e ela estava a demorar a voltar. Passado algum tempo, apareceu na cozinha pela mão de uma senhora desconhecida. “Então, Inês, que aconteceu?”, perguntámos. E então ela contou que se tinha perdido nos jardins do hotel e ficou parada sem saber para que lado era o caminho rumo à cozinha; que a senhora apareceu e a viu com ar perdido, ao que ela lhe disse: “Mother no there [(a mãe não está ali), apontando numa direção], father no there [(o pai não está ali), apontando na direção oposta]”, e a senhora percebeu e veio com ela à procura dos pais.

Meses antes, a mesma Inês teria desatado a chorar assim que se sentisse sozinha e desse conta que se tinha perdido dos pais. Tinha cinco anos, estava num local completamente desconhecido e onde ninguém falava a sua língua materna mas, naquele dia, com seis ou sete meses de viagem, teve confiança suficiente para enfrentar e resolver o seu problema. Sem dramas. Foi quando realmente percebemos, por coisas concretas como estas, que viajar estava mesmo a contribuir para o amadurecimento da nossa filha. A torná-la mais forte.

Que destinos eles já conheceram?
A mais velha já esteve em cerca de 20 países, incluindo uma volta ao mundo de dez meses quanto tinha cinco anos (deu origem a um projeto a que chamamos “Diário da Pikitim”). Assim de repente, já esteve em Singapura, Malásia, Indonésia, Filipinas, Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledónia, Ilhas Fiji, Vanuatu, Ilhas Cook e Estados Unidos da América. Depois Bélgica, Espanha, Inglaterra, Marrocos e Brasil.

Que destino recomenda a quem só pode fazer uma viagem este ano?
Recomendo que as pessoas vão, seja para onde for, mas que se permitam viajar. Já escrevi que “viajar não é coisa de ricos” e que é não é difícil encontrar voos baratos — o mais difícil é quase sempre tomar as opções certas que permitam viajar mais (por exemplo, abdicando de algumas coisas materiais). Seja como for, escrevi uma lista de destinos para onde viajar em 2019 que pode ajudar os leitores da NIT.

O que mais gosta no ato de viajar? E menos?
Gosto de pessoas, de viajar devagar, de me sentar numa esplanada a observar, de entrar em casa de pessoas, interagir, ficar, conhecer. Na minha assinatura, digo que gosto de “pessoas, vinho tinto e açaí”. Pequenos prazeres que tornam as viagens especiais. 

No extremo oposto, detesto viagens em grupos grandes, porque não permitem essa imersão na realidade local. E também não gosto da ostentação de muitos hotéis de luxo e da quantidade obscena de recursos, nomeadamente hídricos, que muitos deles consomem (especialmente em piscinas desnecessárias), mesmo quando instalados em regiões com problemas de acesso a água potável para as populações locais.

Em tantas viagens, lembra-se de histórias ou episódios marcantes? De pessoas que conheceu ou de situações, para o bem e para o mal que o tenham feito pensar?
O momento emocionalmente mais marcante das minhas viagens foi o tsunami de dezembro de 2004. Estava no Laos e, no dia seguinte ao tsunami, aterrava em Phuket para cobrir o tsunami para o jornal “Público”. Passei uma semana na Tailândia e depois uma semana no Sri Lanka. Compreendi muito melhor o trabalho de um repórter de guerra, aprendi a respeitar o seu trabalho ainda mais, a dureza emocional de testemunhar e relatar uma tragédia… e que a máquina fotográfica funciona como uma barreira protetora.

A Associação de Bloggers de Viagem Portugueses, como surgiu?
A ABVP – Associação de Bloggers de Viagem Portugueses surgiu da necessidade que vários bloguers sentiram de criar uma entidade que os pudesse representar. Mais do que isso, que pudesse unir os bloguers e estimular o espírito de entreajuda. Para ser honesto, há muitos anos que pensava criar algo do género, mas nunca tive a coragem e empenho de dar o passo; até que, em conversa com o Rui Barbosa Batista e a Catarina Leonardo, outros dois bloguers portugueses, decidimos colocar a ideia em prática. Depois foi “só” reunir uma equipa de bloguers fundadores que junta os maiores blogues portugueses com projetos mais pequenos mas de grande qualidade, mas tudo gente empenhada, séria e com enormes preocupações éticas. Todos os que convidámos aceitaram o desafio e isso deu-nos ainda mais a certeza de que a ideia era boa.

No que consiste, quais os seus objetivos?
Como se escreve no site, a Associação é “uma organização sem fins lucrativos cuja missão é promover o desenvolvimento profissional dos bloguers que atuam no segmento de turismo, ao mesmo tempo que estimula a criação de relações éticas e transparentes com os leitores e com eventuais parceiros ligados ao turismo”.

Nu fundo, é importante refletir sobre o que é ser bloguer de viagem nos dias de hoje; ajudar a valorizar e a credibilizar esse trabalho aos olhos do público em geral e do mercado; promover a partilha e o intercâmbio de conhecimentos entre os bloguers de viagens, para que se olhem como companheiros de ofício e não como concorrentes, e possam evoluir em conjunto; e até criar um código de ética que ajude a regular a atividade, em nome da transparência para com os leitores. É tudo isto que se pretende fazer. E ainda promover o debate de ideias, estimular o espírito crítico dos bloguers, discutir a sustentabilidade do turismo e incentivar as boas práticas do viajante consciente. Não é coisa pouca, mas vamos conseguir.

O que é que ainda lhe falta ver ou visitar, da bucket list?
Quanto mais viajo, mais tenho a sensação de que pouco conheço deste nosso planeta. O mundo é enorme e a lista de lugares que quero conhecer não para de aumentar. Quero muito, por exemplo, ir ao Paquistão, ao Nepal, ao Butão, ao Ladakh (Índia), à Patagónia, a algumas zonas do Canadá, à Capadócia (Turquia), ao Sudão, à Etiópia, ao Equador e até à Arábia Saudita. E vou, um dia!

O que é ter alma de viajante?
Julgo que é ter curiosidade em conhecer o desconhecido, a vontade de ir, simplesmente ir, e vivenciar novas experiências. Tudo respeitando a diversidade e não julgando a diferença segundo os nossos princípios, costumes e valores.