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Este pianista português largou tudo para ajudar crianças no Bangladesh

"Vivemos num paraíso", diz Rui Daniel sobre Portugal, depois de ter viajado por 143 países.
Aqui, com as crianças do Malawi.

Nos últimos anos, Rui Daniel conheceu 143 países. Ásia e África já lhe são familiares, viajou por toda a Europa, menos a Bielorússia. Aos poucos, foi deixando tudo para trás: a casa, a família e o emprego como professor de piano. E tudo mudou em definitivo depois de uma visita ao Bangladesh em 2016. Pela primeira vez, sentiu que queria ficar e ajudar.

Voltou ao país asiático em setembro de 2017. Desta vez já foi com um propósito: ajudar as crianças da Fundação Maria Cristina, no Bangladesh. 

Está em Portugal desde novembro do ano passado — voltou por causa do visto —, mas a cabeça de Rui continua lá. Os miúdos daquele país transformaram este professor num voluntário, que agora tem como missão de vida regressar, e ajudar a fundação.

Rui Daniel Silva tem 41 anos, não é casado nem tem filhos. Mora em Nelas, no distrito de Viseu, mas nasceu no Luxemburgo, onde viveu durante 15 anos. Antes desta aventura, dava aulas de piano no Orfeão de Leiria.

Conheceu 109 países ainda antes de se apaixonar pelo Bangladesh. “Sempre viajei imenso mas o clique deu-se por várias etapas”, explica à NiT.

A primeira ida ao Sudeste Asiático despertou o vício pelas diferentes culturas. “Após visitar o Irão, percebi que o mundo não era assim tão perigoso e ganhei coragem para visitar países menos famigerados como o Iraque e o Paquistão”.

Depois, andou duas vezes pelo continente africano de bicicleta. A primeira vez foi em 2014, do Senegal até à Guiné-Bissau, onde, no final da viagem, ofereceu a bicicleta a um miúdo. Fez o mesmo na segunda viagem, do Gana ao Benim, em 2016. 

“Não conhecia ninguém. Na Guiné-Bissau ofereci a bicicleta a um senhor que nos recebeu em casa amavelmente e que tinha um filho”. Na segunda viagem, a história foi diferente: “Quando cheguei por fim ao Benim, ofereci à primeira criança que me esboçou um sorriso”.

Como naquela altura não recebia salário da escola, o professor de música fez as viagens de bicicleta para poupar dinheiro nos transportes. À noite, acampava com tribos que ia encontrando — quando encontrava.

Rui conta também que passou fome e sede. “Estas duas viagens marcaram-me pela dificuldade. A locomoção em bicicleta era difícil. Não se encontrava por vezes nada, durante horas a fio. Nem comida, nem água”.

Milhares de quilómetros e centenas de histórias de vida depois, chegou finalmente ao Bangladesh. Diz que apaixonou instantaneamente pela amabilidade deste povo, “principalmente pela pureza das crianças”.

Ao mesmo tempo, ficou chocado com a dimensão da pobreza.

“Já tinha em mente realizar uma viagem mais duradoura e decidi juntar o bichinho das viagens à vontade de ajudar uma instituição. Criei uma plataforma — a justgiving — que vou partilhando na minha página de Facebook, Backpacking with Rui Daniel, para quem quiser ajudar as crianças da Fundação Maria Cristina”. Esta fundação pretende, sobretudo, retirar as crianças de situações de escravatura profissional para que possam ir à escola e construir um futuro melhor.

No regresso da sua estadia longa no Bangladesh, ainda fez voluntariado em Angola e no Quénia, já em 2018.

De volta a Portugal para fazer o visto e porque “era impossível atravessar a Rota da Seda no inverno”, pretende regressar ao país asiático e às crianças da Fundação, desta vez a partir do Irão, em julho. 

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Sudão ❤️

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Das suas viagens, os momentos mais tristes “foram quando me apercebi do trabalho infantil em muitos países. Crianças que não vão à escola para trabalharem 16 horas por dia.”

Tudo o que aprendeu com as diversas culturas reforçaram o valor que dá ao nosso país. “Vivemos num paraíso e continuamos a lamentar-nos todos os dias. Em alguns países, os nativos são felizes com o pouco que têm”.

Apesar de alguns percalços, “como ter sido detido na Somália durante algumas horas por uns militares embriagados” — no final, tudo se resolveu por bem —, as viagens são sempre experiência positivas. Apesar de, muitas vezes, se sentir demasiado sozinho. 

Usa as contas nas redes sociais, Facebook e Instagram, para tentar mostrar ao mundo o que ele realmente é. “Por vezes, os media pintam algumas nações de forma ingrata e injusta. Aprendi isso após ter visitado o Irão e o Iraque. São povos que na realidade são super hospitaleiros”.