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Este miúdo português só tem seis anos mas já conheceu 56 países

Magno começou a viajar com um mês de idade e é, muito provavelmente, a criança portuguesa com mais viagens no currículo.
Foto do instagram.

Filho de viajantes apaixonados irá, certamente, gostar de viajar. Mas este casal português levou o amor pela descoberta um pouco mais longe e quis que Magno começasse a partilhar o mundo com eles, desde pequeno. O rapaz, hoje com seis anos, começou a viajar com um mês de idade e já visitou 56 países em quatro continentes. É, muito provavelmente, a criança portuguesa com mais viagens no currículo. Mas se lhe perguntarem o seu país favorito, a resposta é “Portugal”.

Susana Vale e Márcio Parente partilham as suas aventuras pelo mundo em Mundo Magno, a conta de Instagram com o seu nome recheada de fotos incríveis; e num blogue onde, além das fotos, encontra detalhes, dicas e informações úteis para todo os amantes de viagens. Tudo começou como uma espécie de diário para recordar mais tarde, mas o sucesso não tardou.

A experiência de viajar desta forma, com uma criança tão pequena, tem sido, nas palavras do casal, “avassaladora”; mas também é isso que pretendem transmitir nas redes sociais e no blogue: encorajando de alguma maneira a quem deixou de viajar depois da paternidade, ou simplesmente partilhando vivências e conhecimentos.

Depois da mais recente aventura, uma viagem de jipe por vários países em África, Susana Vale, jurista num organismo internacional, Márcio Parente, Head of Technology da UBS e Magno, 2.° ano do infantário, falaram com a NiT. As viagens, as redes sociais, os desafios de correr mundo com um miúdo pequeno, as surpresas e conselhos estão todos aqui.

Falem-me um pouco do vosso background profissional e de como tudo isto começou?
Susana – Até há cinco anos vivíamos e trabalhávamos em Portugal. Eu era inspetora num organismo do Estado português e o Márcio trabalhava na área da informática. Quando o Magno tinha alguns meses e eu estava de licença parental [em 2013] o Márcio recebeu uma proposta de trabalho na Suíça. Inicialmente íamos ficar apenas durante o tempo da minha licença parental alargada (dois anos) mas entretanto acabámos por não voltar. Eu despedi-me do meu trabalho em Portugal e arranjei um novo trabalho.

Recuando um pouco, como é que a Susana e o Márcio se conheceram e quando começaram a viajar?
Susana- Conhecemos-nos há 11 anos quando éramos ambos escaladores. Íamos quase todos os fins de semana para as mesmas zonas de escalada e ao fim de algum tempo começámos a namorar. A nossa primeira viagem a dois foi marcada dois meses depois de começarmos a nossa relação e foi logo para um destino desafiante: Índia e Nepal. Acho que quando não nos separámos logo aí, depois de tanta peripécia, é capaz de ser para a vida. 

Eu já viajava muito quer sozinha, quer com a minha irmã ou com amigos. O Márcio viajava muito em trabalho por ser consultor na Microsoft e ainda com frequência para escalar, pela Europa.

Quando decidiram criar o Instagram de viagens?
A primeira coisa que criámos foi o blogue e só mais tarde a página de Facebook e, ainda mais tarde, a conta de Instagram. Queria muito ter “um sítio” onde guardar as recordações escritas e fotográficas desta grande aventura com o Magno e sabia que se não houvesse algo que me “forçasse” a escrever e publicar facilmente começaria a deixar de documentar.

Achamos sempre que nos vamos lembrar de tudo para sempre mas as memórias são bem mais voláteis do que pensamos. O blogue, num registo mais escrito, e o Instagram, mais visual, são uma gaveta onde guardo tudo o que quero um dia mostrar ao Magno.

Com o nascimento do vosso filho, o que mudou? Como surgiu a ideia, o conceito, de que queriam que ele visse o mundo?
Mudou tudo! Mas continuámos a viajar e na verdade ainda mais do que antes. Ainda grávida sabia que assim que ele nascesse continuaríamos a viajar. Ninguém acreditava… E com um mês de vida o Magno fez a sua “première” fora de Portugal. Não sei se houve um conceito ou ideia. 

Mas sempre quisemos conhecer o mundo inteiro e com a adição do nosso “pequeno Magn(o)ífico”, como gostamos de lhe chamar. Continuamos a querer visitar cada cantinho do mundo, mas agora é ainda mais divertido com o nosso filho.

Que idade tem ele e quantos países já visitou?
O Magno acabou de fazer seis anos e visitou 56 países — e já repetiu muitos.

Sobre as vossas aventuras: que país gostaram mais? E menos?
É uma pergunta complicada… especialmente os que gostámos mais. Porque nuns gosta-se mais da natureza, noutros da cultura, das pessoas e num mundo tão vasto é impossível escolher só um… mas o Butão, o Tibete (eu sei que atualmente faz parte da China mas prefiro destacar esta zona em particular), a Namíbia, o Quénia e a Islândia estão no topo das preferências. A Albânia foi talvez o país que menos nos fascinou, mas admito que o facto de termos visitado o país no inverno possa ter contribuído para algum desencanto.

E o Magno?
Se lhe perguntarem qual o país favorito a resposta é invariavelmente Portugal  Mas adorou a nossa última viagem de jipe por África. Viajámos desde a África do Sul até ao Zimbabwe de jipe com um tenda no tejadilho. Adorou os bichos e dormir na tenda.

Quais as principais vantagens de viajar com um filho?
Adoro criar memórias com ele. Um dia ele quererá viajar sozinho ou com outras pessoas. Este momento em que viajamos a três irá rapidamente esfumar-se no tempo. Quero aproveitar todas as oportunidades para estar junto dele. Desde que passámos a ter o Magno como companheiro de viagem notámos uma muito maior abertura dos locais.

Onde quer que vamos toda a gente se mete com ele e isso faz com que seja também mais fácil interagir. E uma parte importante das viagens é essa interação. Por isso, para além da maravilhosa sensação de ver o mundo através dos olhos dele, gostamos especialmente do facto de com ele o mundo se abrir muito mais à nossa passagem.

E dificuldades, ou desafios?
Sem dúvida que o maior desafio são os cuidados de saúde, particularmente quando vamos para países mais “exóticos”. As nossas viagens à Índia e pelo continente africano exigiram naturalmente cuidados acrescidos.

Como gerem o percurso escolar dele?
Por enquanto anda no infantário por isso não tem sido um problema. Mas como na Suíça há muitas pausas durante o ano letivo penso que não será complicado continuar a conjugar tudo.

Como sustentam financeiramente as vossas viagens? Continuam a trabalhar?
Trabalhamos. Eu tenho a sorte de poder trabalhar de qualquer lado do mundo e o Márcio tem também bastante flexibilidade para trabalhar à distância. E, claro, temos férias, feriados, fins de semana e a possibilidade de pedir licenças, como já fizemos e faremos no próximo ano.

E claro, pagamos as nossas viagens. A nossa opção sempre foi viajar em detrimento de carros topo de gama ou outros bens de consumo supérfluos. Não me interpretem mal. Não nos importávamos de ter tudo mas, não sendo possível, optamos por comprar bilhetes de avião.

Como tem sido o feedback dos seguidores? Recebem muitas dúvidas e pedidos de conselhos de quem quer fazer o mesmo?
Tem sido incrível. E sim, muitas dúvidas a que respondo sempre com muito gosto. Sem dúvida, pelo feedback que temos tido, temos sido uma inspiração para muitas famílias continuarem a viajar, mas agora com os filhos.

E quais são os vossos principais conselhos para quem quer viajar com filhos e tem algum receio?
Falem com outros pais que viajem com frequência e, porque não, acompanhem blogues de famílias viajantes para se inspirarem e ganhar alento. Pensem que há crianças a viver no mundo inteiro e, com os devidos cuidados, incluindo de saúde, é possível viajar para quase todo o lado com crianças. Não é de todo tão complicado como parece no início. Não esperem que fiquem maiores porque supostamente fica mais fácil. Na verdade não fica. Quanto mais pequeninos “mais portáteis”.

Não esperem que fiquem maiores para que “se possam lembrar”. Vocês vão lembrar-se e as fotos e histórias vão lembrá-los a eles mais tarde. Acreditem, as viagens deixam muito mais do que memórias nas crianças. Há toda uma miríade de estímulos que deixam uma marca nos vossos filhos.

Do que já viram, para viajantes em estreia, qual o primeiro e inevitável destino que sugeriam?
Para quem vai começar o melhor é escolher como primeiro destino um qualquer país europeu para fazer o “test drive” com toda a segurança. Permite começar com alguma calma, em território algo familiar, com comida e produtos para bebé similares aos de “casa”. Para um primeiro destino fora da Europa costumo aconselhar a Tailândia ou outro país do Sudeste asiático. São países muito tranquilos e com um povo muito afável e que adora crianças.

Como querem que o vosso filho olhe para trás e veja este seu percurso de viajante, como acham que isso o irá moldar?
Espero que não fique chateado connosco por o termos arrastado pelo mundo inteiro… Agora mais a sério: tenho a certeza que vai adorar. E tenho a certeza que muito do que ele é agora é fruto das milhares de experiências que já viveu nas inúmeras viagens que fez. Que miúdo não ia gostar de já ter feito caminhadas a 4000 metros, ter subido a duna mais alta do mundo na Namíbia, ter estado no colo do rei do Butão, ter brincado com meninos Masai no Quénia, ter visto chitas, elefantes e leões da janela do jipe na África do sul, ter visto auroras boreais na Islândia ou ter nadado com tubarões nas Maldivas?

A título de exemplo, o Magno fala atualmente quatro línguas: três delas por causa do país onde vive e da sua língua materna, mas o inglês, que fala fluentemente, aprendeu sozinho de forma autodidata e muito graças às viagens.

Outra coisa interessante é a absoluta inexistência de qualquer conceito de diferença entre os seres humanos. Nunca o ouvi mencionar a cor de alguém como uma característica. Aliás, acho que ele nunca se deu conta que há várias cores de pele. Para ele é claramente o mesmo que ser baixo ou alto, ter olhos claros ou escuros. Ou seja, é irrelevante.

Aquilo que espero do Magno é o mesmo que desejaria mesmo que não viajássemos: que cresça íntegro, com valores, sem preconceitos, que seja humano na verdadeira aceção da palavra. Se acho que ele ter “tanto mundo” contribuirá para isso? Acho que sim, mas o futuro o dirá.