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O homem que comprou um bilhete de avião vitalício — e fez mais de 10 mil voos

Steve voou durante 21 anos pela American Airlines, que cancelou o privilégio depois de acumular prejuízos milionários.
Milhas até dizer chega.

A guerra entre empresas do mesmo sector leva, muitas vezes, ao lançamento de campanhas que são verdadeiros fracassos e que mais não fazem do que custar dinheiro. Mas alguns erros saem mais caros do que outros. E foi o que aconteceu à companhia aérea norte-americana American Airlines que em 1981 criou um bilhete especial — vitalício — e que gerou prejuízos que ascenderam a vários milhões de euros para a companhia. 

O bilhete chamava-se AAirpass e tinha como objetivo garantir uma injeção de capital na empresa durante uma crise. Para obter dinheiro rápido, o presidente da companhia aérea, Robert Crandall, teve a ideia de vender bilhetes vitalícios de primeira classe por cerca de 225 mil euros, na época. Ajustados à inflação, estes bilhetes custariam hoje cerca de 512 mil euros.

Apesar de ter reconhecido o erro em 2004 e de ter deixado de vender este tipo de bilhete de avião, dezenas de clientes da empresa American Airlines já haviam comprado o assento vitalício nos voos da empresa. Entre eles, o americano Steven Rothstein, que comprou o passe em outubro de 1987.

Para não voar sozinho pelo mundo, o banqueiro de investimentos também pagou um extra de cerca de 135 mil euros para obter um bilhete de acompanhante, ainda na primeira classe.

Em poucos anos, a American Airlines descobriu que, embora seja difícil o consumidor abusar da opção ilimitada quando falamos de bebida ou comida ilimitada, quando se trata de bilhetes de avião, os clientes estavam mesmo dispostos a usufruir até à última, dos benefícios de ter um passe para toda a vida.

“O meu pai voou tanto que o bilhete mais do que se pagou. Muitas vezes, ele saía de manhã para uma viagem de negócios, voava de volta e eu nem sabia que ele tinha saído. Outras vezes, lembro-me de ligar para o escritório dele para descobrir em que país ele estava”, disse Caroline Rothstein, a filha de Steve, ao jornal “The Guardian“.

Durante os seus 21 anos como passageiro especial, Steven Rothstein visitou por 500 vezes Inglaterra, 120 vezes o Japão e 70 vezes a Austrália. A filha frequentou um colégio interno na Suiça e o filho percorria os Estados Unidos para assistir a partidas da liga de basebol norte-americana.

Rothstein costumava apanhar um voo em Chicago (onde morava) apenas para comer uma sandes no seu restaurante favorito, no Canadá. “Um sábado divertido era acordar cedo, voar para Detroit, alugar um carro, ir para Ontário almoçar e gastar 50 ou 100 dólares (equivalente a 45€ ou 90€) a comprar coisas canadianas”, disse Rothstein em entrevista ao “The New York Post“.

Rothstein a aproveitar a primeira classe nos anos 90.

No total, o bon vivant realizou mais de 10 mil voos e acumulou uma quantia absurda de 40 milhões de milhas com o seu AAirpass. “Eu tornei-me um herói na companhia aérea. Eu poderia simplesmente aparecer e sentar-me”, contou o banqueiro.

O luxuoso hobby de Rothstein terá custado cerca de 19 milhões de euros à American Airlines em impostos, taxas e perdas de vendas de bilhetes. Ao examinar os padrões de viagem do empresário, a companhia descobriu que ele emprestava o seu lugar de acompanhante a estranhos e que cancelou 2500 reservas num período de quatro anos.

Uma vez, Steve terá encontrado uma mulher que estava a tentar voar para Bronxville, em Nova Iorque, porque seus filhos não tinham ama e Rothstein levou-a consigo na primeira classe. “Senti que estes atos aleatórios de gentileza eram exatamente o tipo de coisa que deveríamos estar a fazer, como pessoas”.

Apesar de estas atitudes não violarem o contrato, a American Airlines considerou suas ações fraudulentas e cancelou os bilhetes vitalícios em dezembro de 2008. Para tentar reverter a situação, Steve Rothstein apresentou um recurso judicial, mas um juiz federal do Illinois, nos Estados Unidos, concluiu mesmo que o homem tinha feito reservas sob nomes falsos.

“Eu sinto-me traído. Eles tiraram o meu hobby e a minha vida. Essencialmente destruíram a minha personalidade”, afirmou o americano, que argumentou ter ajudado a alavancar a compra dos bilhetes ilimitados da companhia aérea quando fazia palestras sobre eles nas empresas por onde passava.

O programa AAirpass foi oferecido aos clientes pela última vez em 2004 e ninguém comprou o bilhete nesse último ano. 66 passageiros ainda possuem o cartão de ouro, mas a American Airlines está a procurar medidas legais para cancelar o benefício de uma vez por todas.

Steven Rothstein a falar bem do AAirpass.