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Como a Notre-Dame sobreviveu a duas guerras mundiais — e agora ficou em risco

O pináculo do edifício histórico mais visitado da Europa caiu devido a um trágico incêndio de causas desconhecidas.
We'll always have Notre-Dame.

Em Paris e um pouco por todo o mundo chora-se, reza-se, partilham-se histórias e desabafos nas redes sociais. No fundo, teme-se o pior. A Catedral de Notre-Dame, um dos monumentos mais importantes, visitados e icónicos do planeta está a ser assolada por um violento incêndio desde a tarde desta segunda-feira, 15 de abril, e luta-se contra o tempo — e contra as chamas — para tentar salvar qualquer coisa, o mais possível, do monumento a quem o presidente francês Emmanuel Macron já chamou “uma parte de todos nós”.

O fogo começou por volta das 17h50, hora de Lisboa. Embora as causas ainda não sejam conhecidas, terá tido início no telhado, avançando rapidamente em relação às torres.

O pináculo que existia no centro da Catedral ruiu ao início da noite e o teto esteve à beira do colapso. Os bombeiros chegaram a conseguir controlar praticamente o fogo, mas temia-se ao início da noite que parte, ou o todo, da catedral ainda pudesse ruir. Mais de 400 elementos tentaram salvar as torres, bem como as respetivas obras de arte, e anunciaram, por volta das 21h50, que a estrutura parece estar a salvo. No entanto, possivelmente só na manhã de terça-feira, 16 de abril, se venha a saber a real dimensão dos estragos.

Segundo a “BBC News“, no ano passado, a Igreja Católica em França pediu recursos para salvar o prédio de 850 anos, que estava envelhecido e com várias partes a precisarem de obras urgentes. Seriam essas obras que estavam a decorrer e, especula-se agora antes dos resultados de um inquérito que já foi pedido, que tragicamente tenham sido elas a provocarem o fogo.

Enquanto políticos, estrelas de cinema e milhares de cidadãos comuns manifestavam o seu pesar em vários países, o presidente francês reagiu no Twitter ainda antes de visitar o local do incêndio, afirmando: “Estou triste esta noite, por ver arder uma parte de todos nós”.

A Catedral, situada numa ilha no meio do Rio Sena, a Île de la Cité, é um símbolo de Paris e de França há mais de oito séculos, os mesmos da sua existência. Atualmente, é um dos monumentos históricos mais visitados do mundo, com 12 a 14 milhões de pessoas a observarem por ano o seu interior, as famosas gárgulas e as relíquias históricas.

Começou a ser erguida no século XII, em 1163, durante o reinado do rei Luís VII, e iniciou a função religiosa em 1182, embora os trabalhos de construção tenham prosseguido até 1345. É considerada uma joia da arquitetura gótica medieval. Entre os seus artefatos inestimáveis inclui-se a Coroa de Espinhos usada por Jesus de Nazaré, que ali terá chegado em 1806.

Durante décadas foi a igreja mais importante de França, local onde se casaram o Rei Henrique IV, e o imperador Napoleão foi coroado. Henrique VI foi também ali coroado rei da França, o processo de reabilitação de Joana d’Arc começou em Notre Dame.

Romanceada dezenas de vezes, foi Víctor Hugo, com o seu livro “Corcunda de Notre-Dame”, editado em 1831, que levou o monumento a todo o mundo e o elevou a um ícone de culto.

Antes do incêndio desta segunda-feira, a Catedral sobreviveu tanto à brutalidade da Revolução Francesa, no final do século XVII, quanto às duas guerras mundiais do século XX.

Durante a Revolução, foi constantemente pilhada, atacada, saqueada e vandalizada, mas viria a reerguer-se.

Em setembro e outubro de 1914, durante a Primeira Grande Guerra, pilotos alemães soltaram mais de 50 bombas sobre Paris durante a Primeira Batalha do Marne, chegando a atingir e danificar parte do seu telhado.

Durante a Segunda Guerra sobreviveu a mais bombardeamentos, parecendo escapar sempre miraculosamente, quase incólume, aos ataques. E foram os seus sinos que anunciaram, em 25 de agosto de 1944, a libertação de Paris do nazismo.

Em 2013, os seus nove sinos gigantes foram substituídos e toda a espiral estava neste momento a ser renovada.

O historiador Camille Pascal disse à emissora francesa BFMTV, citada pela “BBC”, que o incêndio destruiu uma “herança inestimável”. “Por 800 anos a Catedral vigiou Paris. Eventos felizes e infelizes durante séculos foram marcados pelos sinos de Notre Dame”.

As 16 estátuas que se salvaram por dias

No meio da tragédia, as raras e boas notícias. Além da ausência de feridos, garantida em parte pela rápida evacuação da Île de la Cité, a UNESCO já terá prometido ajudar na recuperação do monumento, seja qual for a dimensão do estrago.

Além disso, uma parte icónica e importante foi salva por uma questão de cinco dias — e de pura sorte. Segundo a “TSF“, as estátuas dos 12 apóstolos e quatro evangelistas que escreveram parte do Novo Testamento foram retiradas da catedral na última quinta-feira, 11 de abril, para sofrerem a trabalhos de recuperação noutro local.

As estátuas de bronze estavam instaladas precisamente à volta do pináculo que ruiu esta segunda-feira.