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O Ashram dos Beatles na Índia esteve abandonado — mas agora é uma atração imperdível

Retiro espiritual onde a banda fez 48 canções foi recuperado e é romaria certa para os fãs da banda — e de ioga e meditação.
Os Beatles com o Maharishi Mahesh Yogi no centro de meditação.

O ano era 1968, The Beatles já eram a maior banda do mundo e “Help!”, “Revolver” e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” tinham acabado de ser editados em anos sucessivos: 1966, 67 e 68, respetivamente. O grupo de Liverpool estava cansado, precisava de uma pausa e com a maioria dos elementos cada vez mais aberto a questões espirituais e transcendentais, bem como a influências de um mundo fora da cultura anglo-saxónica, a Índia pareceu o destino ideal.

John Lennon, Paul McCartney, Ringo Starr e George Harrison chegaram ao Ashram do guru Maharishi Mahesh Yogi, em Rishikesh, uma região abrigada no sopé dos Himalaias no norte da Índia, na primavera de 68. Estavam no auge da fama e diz-se que se sentiam confusos, desorientados e desinspirados, em conflito consigo próprios, com os outros elementos e com o rumo que queriam dar à banda. A morte inesperada do manager e amigo de longa data, Brian Epstein, por overdose acidental em 1967 agravou a situação — e terá sido o que despoletou a ida.

O guru Maharishi Mahesh Yogi começava a tornar-se conhecido em todo o mundo por ter desenvolvido a técnica da meditação transcendental, sendo o líder de uma organização bastante reputada. Depois de uma iniciação no verão de 1967, logo após a morte de Epstein, os quatro foram convencidos por Yogi, que conheceram num seminário, a irem até ao seu retiro espiritual. Partiram e levaram um grupo com as companheiras de então, bem como Mike Love dos Beach Boys, um cantor, Donovan, a atriz Mia Farrow e a sua irmã mais nova, Prudence.

Rishikesh, uma zona serena e tranquila rodeada de floresta, já era um importante centro espiritual de ioga e meditação. No local, a paz e a inspiração terão resultado, pelo menos a nível criativo. Enquanto estavam no Ashram, os Beatles terão escrito 48 canções, incluindo a maioria do magnífico “White Album”. “I’m So Tired” foi um desabafo de John Lennon por ter passado três semanas no retiro sem conseguir dormir e “Dear Prudence” era claramente dedicado à irmã de Mia Farrow.

As cabanas onde se meditava.

O grupo passava a maioria do tempo nas cabanas de pedra Chaurasi Kutia, as mesmas que são agora o principal foco de atenção dos visitantes. Não se sabe muito sobre o período que lá passaram, apenas que ficaram numas instalações de luxo comparando com os restantes estudantes de meditação. O grupo terá conseguido meditar, compor e até certo ponto descansar — só que a coisa não acabou bem. Ringo Starr aguentou apenas dez dias, Paul McCartney quis voltar para Londres ao fim de menos de cinco semanas, os restantes ficaram pouco menos de dois meses e quando saíram já havia rumores de conflitos e de tensão, sobretudo com o guru Yogi, que lhes terá pedido royalties das músicas lá compostas. O grupo também foi citado a dizer que não aguentava mais a comida.

Nada disto impediu o sucesso imediato do Ashram e do próprio guru, que se tornou uma personalidade mundial. Já Rishikesh passou a ser um ponto de paragem e peregrinação essencial, tanto para os fãs dos Beatles como para os adeptos e seguidores de ioga e meditação.

Mesmo com a fama, o Ashram foi ficando progressivamente abandonado ao longo dos anos, sobretudo após alguns conflitos que surgiram sobre a posse das terras desde que o guru Yogi se mudou definitivamente para a Europa. Entre 2001 e 2016 esteve praticamente degradado, envolto em vegetação e quase desaparecido no meio da floresta, com todos os portões fechados.

As visitas já começaram.

Ainda assim, a peregrinação continuou. Durante estes 15 anos, milhares de fãs, não só do grupo como da espiritualidade e meditação, continuaram a visitar o local, mesmo fechado e abandonado. Havia quem pagasse ao segurança para entrar, ou quem simplesmente invadisse o espaço — ou até o pilhasse e vandalizasse.

Quanto à localidade de Rishikesh, tornou-se progressivamente um ponto de paragem essencial para os amantes ocidentais (e indianos) de ioga e meditação, cheia de aulas e cursos, restaurantes, eventos. 

A partir de 2016, o governo decidiu intervir e começou a apostar no eco-turismo no Parque Nacional Rajaji, nas áreas adjacentes ao Ashram. Fazia por isso sentido reabri-lo e assim foi: as cabanas foram parcialmente restauradas, criou-se um café, um pequeno museu dedicado aos Beatles e um edifício com murais e graffiti sobre a banda.

Desde 2018 que o espaço, que agora se chama The Beatles Ashram, pode oficialmente ser visitado. Paga-se, ainda que uma ninharia para o que é: 7€. Parte do Ashram continua semi-abandonado, mas tal não impede — e há quem diga que até ajuda — a visita de ser imperdível e transcendental, descrevem os primeiros visitantes nas redes sociais. Está aberto todos os dias, entre as 10 e as 16 horas.

Para chegar a Rishikesh tem dezenas de voos a partir de Bombaim a cerca de 40€ e depois é só seguir as tours ou perguntar como vai ao Ashram. Pode ir a pé, numa caminhada de cerca de meia hora que passa pelas margens do Rio Ganga. De Lisboa a Bombaim, paga por uma viagem de ida e volta cerca de 500€.

As cabanas de pedra.