Turismos rurais e hotéis

Sugestão NiT: a Cerdeira Village é o segredo mais bem guardado da Serra da Lousã

Numa aldeia onde praticamente todas as casas estão para arrendar, foi a ligação às artes que a salvou do abandono.

Este sítio é mágico.

As amigas Natália Serra e Kerstin Thomas conheceram-se quando estavam a aprender português: a primeira é russa, a segunda alemã. Quando acabaram a escola, cada uma seguiu o seu caminho — nunca deixaram de ser amigas, mas durante dez anos não se voltaram a ver, apenas trocaram cartas. Foi assim até ao dia em que chegou uma pelo correio que mudou tudo.

“Estamos na Serra da Lousã a viver”, escreveu Kerstin. “Venham visitar-nos”. Natália Serra aceitou o pedido. Com o marido, José, e os dois filhos — Catarina, então com quatro anos, e António, com oito, a família Serra decidiu fazer-se à estrada. Estávamos em 1996.

“Na altura a aldeia da Cerdeira não tinha rede, nem sequer eletricidade. Não foi nada fácil encontrar a Kerstin”, recorda à NiT Catarina Serra, atualmente responsável pelo marketing e vendas da Cerdeira Village — Schist Village, um espaço de turismo rural a dez quilómetros da Lousã. “Corremos todas as aldeias até encontrar a Cerdeira. Na altura tinha apenas quatro anos, mas tenho alguns flashs da viagem.”

Depois de algumas tentativas, Natália reencontrou a amiga — e a Cerdeira, uma aldeia encantadora em plena Serra da Lousã, repleta de casas de xisto mas com um único habitante. Tal como tinha acontecido com Kerstin, a família Serra apaixonou-se perdidamente.

“Crescemos lá. Íamos no verão, na Páscoa. Gostámos tanto daquilo que construímos uma casa, e depois mais uma para os amigos e família.”

O filho mais novo da família, Pedro, que nasceu um ano depois, também passou a sua vida na aldeia. Pouco a pouco, a família das amigas Kerstin e de Natália começaram a construir raízes na Cerdeira. Em 2012, já com oito casas reconstruídas — atualmente são nove, mais um edifício que serve de residência —, decidiram tornar aquele paraíso público e abrir a Cerdeira Village — Schist Village.

Não era um espaço qualquer. Nunca foi, na verdade, mas as famílias fizeram um esforço para que fosse ainda mais único. Kerstin Thomas é escultora em madeira, o marido também está ligado às artes. Em 2006, muito antes de saberem que iriam abrir um espaço de turismo que conquistariam um 9,1 em 10 na Booking, começaram um evento chamado Elementos à Solta, que trazia vários artistas de renome até à pequena aldeia da Cerdeira.

“Percebemos que a Cerdeira se podia distinguir das outras aldeias com as artes.”

Isso está bem presente nas oficinas e workshops que têm sempre disponíveis, tanto para artistas como para wannabes. Mas já vamos falar melhor sobre isso. Antes de tudo isto, a ligação às artes fez-se quando as obras ainda estavam a decorrer. Foram artistas, a grande maioria portugueses, que desenvolveram o projeto para cada casa, havendo inclusivamente peças artísticas exclusivas.

“Tivemos uma preocupação em recorrer a fornecedores locais. Foi o caso da Movicarvalho, uma empresa de móveis local, a Casa das Tecedeiras, para os tapetes. Fazemos sempre isto. Temos umas jarras de barro para as pessoas poderem ir buscar água à fonte que foram compradas nos oleiros locais. É o que faz sentido.”

As casas ocupam duas ruas paralelas, as únicas da aldeia. Há T1 e T2, que dão para entre duas a oito pessoas. Todas as habitações têm kitchenette, salamandra e varanda ou terraço. Há ainda um edifício que serve de residência — tem dois quartos, cada um para seis pessoas, e é ideal para receber artistas, como por exemplo durante o evento Elementos à Solta.

A Cerdeira Village tem uma linha de água que corre pela Cerdeira, uma fonte onde as pessoas podem ir buscar água potável e uma piscina de pedra natural

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