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À prova de fogo e de pandemias — a história de resistência do Zmar

Nasceu à sombra de uma crise, sobreviveu às chamas e prepara-se para ultrapassar outra catástrofe. O segredo está na "resiliência".
Aos 10 anos, o Zmar prepara-se para mais um desafio.

Era um sábado, dia de descanso, e Francesca estava em casa quando o telefone tocou. Do outro lado avisavam que o Zmar estava a arder. “O meu primeiro instinto foi ligar a televisão para perceber a grandiosidade da coisa. Pensei, ‘bem, se for muito grave, estará a dar na TV'”. A primeira imagem que viu foram a das chamas. “Nem precisei de mudar de canal. Metemo-nos todos no carro e fomos para baixo”.

Hoje, mais de três anos depois do dia mais negro da história do eco resort, Francesca de Mello Breyner recorda o episódio com pesar — e com alegria. Sem ele, não teria vivido o momento de maior alegria naquele que é o projeto de família: o da reabertura ao fim de oito meses de reconstrução. Sem um, não haveria o outro. Um ciclo que inclui momentos difíceis e outros mais entusiasmantes, mas que atesta a resistência de um parque com mais de uma década.

O que hoje é reconhecido como um dos projetos pioneiros na sustentabilidade e ecologia, estava longe de ser uma certeza há mais de dez anos. Imaginado durante “um momento de total insanidade” de Francisco de Mello Breyner, acabou por avançar e ser inaugurado em 2009. O percurso de obstáculos teve início ainda os primeiros visitantes não tinham mergulhado na piscina do Zmar.

“Criar um projeto é difícil, um projeto pioneiro com problemas financeiros é muito mais difícil”, conta à NiT, enquanto recorda os efeitos da crise económica mundial de 2009. O objetivo de criar um parque de campismo “à séria”, mais virado “para quem não tinha dinheiro para ficar nos resorts mais caros”, esbarrou com “a crise do subprime, do Lehman Brothers, das altas taxas de juro”.

“O Zmar foi pensado num momento de total insanidade”, diz o administrador Francisco de Mello Breyner

A recessão fez disparar as despesas financeiras e, apesar da dificuldade acrescida, o administrador de 68 anos garante que “não foi preciso fazer mais investimento”.

Em 2009, o cenário do Sudoeste alentejano mudou. O Zmar Eco Camping Resort foi inaugurado e trouxe uma forma diferente de fazer campismo, mais confortável e luxuosa, sempre com ênfase no respeito pelo ambiente e pela paisagem do espaço que fica a poucos quilómetros da Zambujeira do Mar.

“O meu pai foi sempre obcecado pela reciclagem, mesmo quando ainda não era moda”, confessa Francesca, 35 anos, hoje responsável pelo marketing e comunicação do resort que “oferece um produto diferente”. “Quem passa por lá nem se apercebe de que está ali uma unidade hoteleira”, nota sobre o espaço de 81 hectares onde estão instaladas cerca de 280 casas em madeira.

Francisco de Mello Breyner, 68 anos, é o mentor do Zmar

O lançamento foi lentamente provando que havia procura e que os portugueses estavam à procura de alternativas. São eles, aliás, os grandes clientes do Zmar, nem tanto os turistas estrangeiros que passam pelo sul do País.

Ecologia, sustentabilidade, natureza e inovação. Os vetores do projeto foram sendo consolidados e há ainda algumas conquistas das quais se gabam: a alta tecnologia escondida por detrás de um ambiente aparentemente simples; os 55 quilómetros de fibra ótica que percorrem o recinto onde se usam cartões recarregáveis na vez do dinheiro.

Francisco e Francesca são os dois resistentes no negócio de família que contou com a ajuda de vários membros no arranque. As coisas corriam bem, pelo Zmar passavam cerca de 50 mil pessoas por ano, o turismo nacional começava a disparar e, com ele, as projeções do resort.

“Quando abrimos, tivemos logo imensas reservas para o verão. Éramos uns principiantes no que diz respeito à hotelaria, estávamos a aprender também. Fomos aprendendo ao longo dos anos”, conta Francesca. Não haveria, contudo, lição que os pudesse preparar para um desastre.

A 24 de setembro de 2016, deflagrou um pequeno fogo nas zonas comuns que rapidamente alastrou a outras divisões. Algumas horas depois, já com o incêndio controlado, foi possível avaliar a extensão dos danos: as chamas destruíram o ginásio, balneários, restaurantes, cozinhas. A maioria dos espaços comuns estavam inutilizados.

O incêndio foi o momento mais negro do resort.

“Tínhamos lá 700 pessoas e graças a Deus ninguém sofreu qualquer tipo de incidente, não houve gritos, nada”, recorda Francesca. “Nem um arranhão”, remata Francisco, que explica que o seguro acabou por cobrir 85 por cento dos estragos.

De portas fechadas, não houve muito tempo para mágoas. O incidente podia ser uma oportunidade. “Percebemos que havia uma enorme comunidade de seguidores que nos deram apoio, que existia uma comunidade que queria ajudar”, recorda Francesca, que explica que foi também pretexto para “fazer melhorias na infraestrutura”. “Já que tínhamos que começar do zero, aproveitámos.”

A verdade é que um mês depois do incêndio, o pessoal do Zmar já estava a trabalhar e houve capacidade para receber um evento com 800 pessoas.

“Era um grupo de clientes que fazem retiros espirituais duas ou três vezes por ano. Na altura vieram avaliar os danos e mesmo assim quiseram ir. Recebemos 800 pessoas e funcionou tudo lindamente”, contam. Correu tão bem que dois meses depois organizavam uma passagem de ano.

Reabriram oficialmente oito meses depois. Não só não sentiram um decréscimo no número de visitas, como estas até aumentaram. “Recebemos mais pessoas, até porque o Zmar estava muito melhor”, conclui o administrador. Refeitos os bares, cozinhas e piscina de ondas, foi ainda possível acrescentar uma quinta pedagógica, novos bares, restaurantes e um renovado ginásio.

Apesar da saúde do parque, a insolvência do acionista maioritário foi mais um obstáculo no percurso. A participação foi a leilão e acabou por ser vendida abaixo do valor base fixado de 3,25 milhões. A agitação na cúpula acionista “não mudou nada”, frisa Francisco, que relativiza o episódio. “Não se refletiu na gestão diária. São só acionistas, mais nada”.

“As coisas menos boas também têm um lado bom”, explica à NiT o administrador, durante uma chamada telefónica a meio de uma viagem. O destino só podia ser um: o Zmar. Referia-se à pandemia, que pode muito bem ser o maior e mais complicado desafio deste e dos restantes resorts espalhados por Portugal e pelo mundo.

A crise pandémica bloqueou as viagens, o turismo, enfim, toda a vida a que estávamos habituados e, por conseguinte, representa um risco acrescido para qualquer negócio. “É uma chatice, já chega”, atira bem-humorado quando a conversa se foca nos efeitos da pandemia. Ainda assim, mantém o mantra de que os problemas trazem consigo um lado mais simpático: “Há muita coisa que vai mudar e para melhor”.

O confinamento e o novo coronavírus não podiam ter vindo em pior altura. Com o turismo mais fervilhante do que nunca, o Zmar apresentava números excecionais. Em janeiro, o resort faturou o dobro do mesmo período de 2019. Em fevereiro, a subida foi de 50%.

“Íamos lançados. Já tínhamos a Páscoa toda vendida, grupos vendidos, o verão a vender de vento em popa. Tivemos que fechar”, conclui Francesca. O medo e a insegurança dos trabalhadores aconselhou a um encerramento antes mesmo da ordem do governo.

Dois meses de indecisão e dúvidas ajudaram a reunir ideias e a reabertura está quase a chegar. Confirmada para 28 de maio, pai e filha acreditam que o Zmar tem um enorme trunfo do seu lado — e daí que se sintam extremamente otimistas.

“Nós vivemos dos [clientes] portugueses, o que é bom. 80 por cento dos nossos clientes são nacionais”

“O Zmar não é um hotel vertical como se costuma dizer, tem a vantagem de estar espalhado pelo espaço, as casas têm uma boa distância entre si e isso joga a nosso favor”, repara Francesca. Além do cumprimento das regras obrigatórias emitidas pela Direção-Geral da Saúde, muita coisa irá mudar no final do mês.

Os restaurantes vão funcionar apenas em take-away, haverá mais pontos de recolha dispersos pelo espaço “para diminuir ao máximo a aglomeração de pessoas”. Foi necessária uma reinvenção, notam enquanto se revelam cheios de confiança. Os números parecem suportar a presunção.

“Desde que anunciamos a reabertura que temos tido reservas. Há de tudo. Alguns contactos são de clientes de há muitos anos que nos perguntam o que vamos mudar. As pessoas estão preocupadas e querem refugiar-se no campo, mas as reservas estão a manter-se firmes”, esclarece Francesca.

Em caso de descrença, há outro mantra que pai e filha repetem e no qual acreditam: “Nós vivemos dos [clientes] portugueses, o que é bom. 80 por cento dos nossos clientes são nacionais”.

A uma semana de mais uma etapa e dez anos após um “momento de insanidade total”, o Zmar parece resistir a tudo: crises, catástrofes, pandemias. Como é que isso se faz? “Resiliência, uma grande crença no projeto e os nossos colaboradores, ninguém baixa os braços, ninguém desiste. Somos uma família”.