NiTfm live

Miúdos

Os miúdos não gostam da nova Barbie com curvas

O estudo publicado na revista "Psychology Today" mostra que os preconceitos em torno da imagem começam aos três anos.
A crítica adorou a Barbie curvy, os miúdos não.

A constante reinvenção da Barbie assegurou que o fenómeno de vendas da Mattel continue a ser um clássico dos presentes debaixo da árvore de Natal, mesmo passados 60 anos desde a sua invenção.

Vimo-la evoluir e passar por mais de 180 profissões: enfermeira, astronauta, médica, bombeira, realizadora de cinema, cientista e presidente são apenas algumas delas. A Barbie mudou de área, de acessórios, ganhou um namorado (o Ken), uma irmã (a Chelsea) e amigas de diferentes etnias (como a afro-americana Stacie) que vieram garantir um portfólio supostamente diverso.

Ruth Handler, co-fundadora da Mattel, inventou a Barbie quando viu a filha a brincar com bonecas de papel a imitar mulheres adultas. A ideia foi dar às miúdas uma boneca que as ajudasse a imaginar o futuro. A primeira foi lançada em 1959 e usava o cabelo preso, argolas douradas e um fato-de-banho preto e branco a imitar o estilo glamouroso de Hollywood na década de 50. No ano de lançamento, a Barbie custava três dólares (2,66€) e foram vendidos trezentos mil exemplares.

Em 2018, a Mattel fez mais de 900 milhões de euros em vendas. Mas o sucesso não foi alcançado sem encontrar algumas controvérsias pelo caminho, a maior de todas em torno do seu corpo. As proporções das pernas, cintura e braços da Barbie — considerada “demasiado magra”, “desproporcional” e a imagem do “corpo perfeito” — levantaram debates sobre as expetativas irreais que a boneca poderia provocar entre as crianças em relação ao corpo feminino. 

“A minha filosofia com a Barbie foi de, através da boneca, a menina poder ser qualquer coisa que quisesse ser. A Barbie sempre representou o facto de uma mulher ter escolhas.” A frase é de Handler e pode ser lida no site oficial da marca. Mas, se a Barbie inspirou várias gerações de mulheres ao longo de quase 60 anos com as mesmas medidas de um “corpo perfeito”, quem é ela hoje, numa altura em que os paradigmas em torno da imagem “ideal” estão a ser rompidos?

A resposta veio da própria empresa. Para celebrar 57 anos desde o lançamento da primeira boneca, a Mattel lançou em 2016 uma linha chamada “Fashionista”, com um conjunto de bonecas com diferentes tamanhos e corpos. Além da Barbie “original” — que manteve a figura magra que a caracterizava há mais de cinco décadas —, saíram três novos modelos: “tall”, mais alta do que as outras; “petite”, mais pequena; e “curvy”, como o próprio nome indica, com mais curvas.

Esta última foi especialmente bem recebida pela imprensa e fez sucesso entre os pais, que esperavam uma boneca que representasse as “mulheres reais”. Na revista americana “Time“, a Barbie com curvas foi capa com o título “Já podemos parar de falar sobre o meu corpo?”.  Os números da Mattel viram resultados positivos: depois de três anos consecutivos a perder, em 2016 as vendas da Barbie subiram sete por cento e continuaram a aumentar até 2018.

No entanto, um novo estudo publicado na revista americana “Psychology Today” parece mostrar que o sucesso estrondoso da “curvy Barbie” não se estende ao seu público principal: as crianças. Os resultados mostram que miúdos com apenas três anos já têm interiorizados preconceitos em relação a corpos com mais curvas.

Esta suspeita já tinha sido levantada por um outro estudo anterior, em que desenhos de raparigas com diferentes tipos de corpos foram mostrados a miúdas entre os três e os cinco anos. Os desenhos que representavam corpos mais largos foram descritos como “desajeitados”, “maus”, “feios” e “ruidosos”. Já os desenhos que representavam corpos magros foram descritos como “simpáticos”, “giros”, “espertos” e “com muitos amigos”.

No novo estudo que se foca na Barbie, conduzido por Jennifer Harriger, da Universidade Pepperdine, nos Estados Unidos, uma amostra composta por raparigas de diferentes etnias foi selecionada para analisar como reagiriam às novas formas da boneca. As meninas, entre os três e os dez anos, classificaram cada um dos quatro modelos da linha “Fashionista”: a Barbie original, a “tall”, a “petite” e a “curvy”.

As Barbies “tall” e “petite” mantêm as mesmas linhas magras da original, sendo a principal mudança a altura. A “curvy” apresenta uma barriga mais redonda, ancas mais largas e pernas mais espessas, mas está longe de ser aquilo que no mundo real se consideraria “gordo”. No estudo, as quatro bonecas tinham a mesma cara, o mesmo penteado e usavam o mesmo fato de banho.

As crianças da amostra tiveram de selecionar que Barbie lhes parecia: “feliz”, “esperta”, “ter amigos”, “bonita”, “ajudar os outros”, “triste”, “não ser esperta”, “não ter amigos”, “não ser bonita” e “má”. Também tiveram de escolher com que boneca queriam brincar e com qual delas não queriam brincar.

A Barbie com curvas foi apontada por mais de metade do grupo como a que “não era bonita” e apenas seis por cento a escolheu como a boneca para brincar. Quando questionadas sobre o motivo pelo qual não queriam brincar com ela, 25 por cento das crianças respondeu que era por ser “grande”, “gorducha” ou “gorda”. Foi também a boneca que mais vezes consideraram “não ter amigos” e a que foi menos vezes apontada como “feliz”, “esperta” ou “bonita”.

Em geral, as raparigas do estudo mostraram uma clara preferência em relação às Barbies “magras”. Os estudos mostram que esta inclinação para idealizar os corpos magros influencia a forma como as crianças se tratam entre si. Mas este tipo de comportamentos também tem uma relação direta com os seus níveis de depressão, ansiedade e baixa autoestima.