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Na cidade

Visitámos o primeiro barco movido a hidrogénio do mundo — que está em Lisboa

E podemos dizer-lhe que, por ser tão estável, parecia que estávamos em terra. Aproveite: o Energy Observer vai estar ancorado na cidade até domingo.

Já deve ter reparado, ao passar na Doca da Marinha, na Praça do Comércio, que está lá um navio que parece saído de um filme de ficção científica. Ele não é do futuro, mas sim o Energy Observer, o primeiro navio do mundo movido a hidrogénio.

Partiu da cidade francesa Saint-Malo, em junho de 2017, e já percorreu quase 10 mil milhas náuticas (18.520 quilómetros) até chegar a Lisboa. Numa viagem de seis anos, com oito tripulantes a bordo — entre os quais marinheiros, engenheiros e produtores de conteúdo que vão revezando, de três em três meses, com outras oito pessoas, para que não seja tão penoso —, o objetivo é testar, em condições extremas, um sistema baseado na produção, gestão e armazenamento de energia.

O barco combina três fontes de energia renovável — solar, eólica e hidráulica — com o duplo armazenamento de baterias a hidrogénio produzido a bordo: quando as baterias (semelhantes às que temos nos telemóveis e computadores) estão cheias, o Energy Observer começa a fazer a dessalinização da água do mar, purifica-a e, depois, através da eletrolise, separa o hidrogénio do oxigénio, devolvendo este último elemento químico à natureza e armazenando o outro.

Nesta altura deve estar a perguntar-se: e o que acontece quando a embarcação deixa de ter vento, entra numa zona de sombra ou durante a noite? Como as fontes solar e eólica não funcionam, é necessário ir buscar a energia indispensável à navegabilidade e habitabilidade ao hidrogénio. Porque sim, tal como nas nossas casas, também é necessário ter energia para aquecer a água do chuveiro, ligar o ar condicionado, usar a máquina de café ou manter os alimentos frescos no frigorífico. Todos estes equipamentos existem a bordo deste laboratório.

Antes de embarcar, todas as visitas têm de tirar os sapatos. E o único cuidado que é preciso ter — além de, obviamente, não cair à água—  é o de não deixar os pés demasiado tempo no mesmo sítio para não sentir queimar, uma vez que este catamarã está revestido por uns painéis solares cobertos com uma película que, apesar de reduzir um pouco a potência, aumenta a área utilizável e a produção de energia — que é ampliada pela própria pintura, num branco nacarado que reflete ainda mais a luz.

Mas se cerca de 130/140 metros quadrados não eram suficientes, em breve o barco vai parar durante três meses para fazer um upgrade. Serão colocados painéis solares em todas as zonas de tração e de passagem, uma vez que a tecnologia que está na embarcação há nove meses já foi testada e é funcional.

Depois de passar por um total de 50 países e 101 portos de escala, o barco vai regressar a França no seu típico silêncio, uma vez que emite apenas 1 mega-hertz de frequência, um valor muito inferior ao produzido por outras embarcações. Em Lisboa, ele fica até ao próximo dia 30 de setembro, domingo. Não o vai poder visitar por dentro, mas já vale a pena vê-lo atracado ou conhecê-lo numa exposição.