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Na cidade

Todas as coisas fixes que pode fazer em Évora nas próximas semanas

Uma repórter da NiT assistiu a alguns espetáculos do Artes à Rua, que está a decorrer até 5 de setembro.
Praça do Giraldo.

“Considera Évora a tua casa”. Esta foi a última frase que ouvi enquanto me despedia de Évora. E essa frase traduz perfeitamente o meu sentimento naquela altura. A hospitalidade alentejana faz-nos sentir genuinamente em casa — e com uma vontade enorme de voltar.

Cheguei a Évora no dia 15 de agosto, feriado, para assistir ao vivo ao Artes à Rua, uma iniciativa de entrada grátis e que tem mais de 100 atividades e espetáculos. A festa começou a 13 de julho e acaba a 5 de setembro, mas há muito mais para ver naquela cidade, como a nova praia fluvial da Amieira que fica a 56 quilómetros de Évora, e foi inaugurada no dia 15 de julho.

O comboio que liga a estação do Oriente, em Lisboa, a Évora demora 1h40. Assim que o comboio parou, percebi logo que tinha chegado ao Alentejo. O vento fresco que se sentia às 9h50 em Lisboa transformou-se num ar quente e quase difícil de respirar.

Passei a tarde entre as ruas do centro histórico, ao lado de Gustavo Val Flores, Técnico Superior de História e Património da Câmara Municipal, que conhece a história de cada recanto da cidade.

“O templo romano a que todos chamam Templo de Diana, não é de Diana”, explicou-me. É o erro mais comum entre os turistas, até porque o nome caiu no domínio popular. “Este tipo de templo era construído em homenagem a imperadores ou divindades masculinas, nunca a mulheres”.

Évora era uma cidade romana, que aliás, se chamava Liberalitas Julia; Ebora era o nome da região. Um dos espaços mais icónicos, e centrais, continua a ser a Praça do Giraldo. No século XIV, os arcos da praça eram alugados pelo Rei para montar algumas lojas provisórias. Hoje, o propósito mantém-se — mas com espaços definitivos e sem proteção real.

Nas ruas à volta há restaurantes imperdíveis. É o caso do Chão das Covas, um pequeno espaço com uma decoração típica e acolhedora. Recomendo as bochechas de porco preto estufadas (11€). Mas o grande restaurante da cidade é o Momentos — e garanto que qualquer sugestão arrojada do chef é divinal.

Chego ao Teatro Garcia de Resende, pelas 17 horas, para uma entrevista com os criadores do projeto Mar-Planície, que junta de forma inédita a música improvisada jazz e o Cante Alentejano com produções originais.

“A Câmara Municipal de Évora fez-me o convite e logo os nomes do José Luís Peixoto e do José Manuel Rodrigues apareceram como óbvios. São dois belíssimos alentejanos. Para mim, foi um grande desafio escrever para um grupo de Cante Alentejano, mas tornou-se menos assustador quando eu percebi que podia contar com as letras do Zé Luís Peixoto (…) e com as fotografias do Zé Manuel Rodrigues”, conta o saxofonista Carlos Martins.

O nome do projeto é da autoria do escritor José Luís Peixoto. “O nome vem de uma letra que escrevi. E fez-nos sentido na medida em que o mar e a planície são de certa forma um contraste mas também uma continuação”, explica à NiT.

“Eu sou como um pastor moderno, guardador de imagens. Dediquei parte da minha vida só ao Alentejo, sozinho, de carro, e fiz um arquivo, como um colecionador fanático de fotografias”, acrescenta o fotógrafo José Manuel Rodrigues, que utilizou parte do seu arquivo para o Mar-Planície.

Os três alentejanos juntaram-se assim ao grupo de Cante Alentejano e atuaram às 22 horas, na Praça do Giraldo. Com a lua cheia como pano de fundo e as fotografias do Alentejo, ouviu-se jazz, também com a voz de Manuel Linhares, e claro, o grupo de Cante Alentejano de Évora. 

Na manhã do dia seguinte visitei o Matadouro, um lugar incrível onde o sangue deu lugar ao pó. E não é de estranhar que o nome da associação que ocupa este espaço cultural dedicado à escultura se chame Pó de Vir a Ser. O matadouro da cidade, construído em 1889, era precisamente ali. Foi desativado nos anos 1970. 

O Matadouro é um lugar incrível onde o sangue deu lugar ao pó das esculturas

Na década seguinte, a Câmara cedeu o espaço para dar origem ao tal centro cultural. Por qui encontram-se Isaque Pinheiro e Bernardo Bagulho, que estão a fazer uma residência artística, também no âmbito do Artes à Rua.

“Havia liberdade para usar os materiais que quisesse, mas comecei a minha carreira com pedra por isso fez sentido. Apliquei a técnica da xilogravura à pedra”, explica Isaque Pinheiro, criador do projeto “Pano”.

A residência começou no dia 1 de agosto, e vai durar um mês. Isaque utilizou blocos de mármore como matrizes que funcionam como negativo de posters. As ‘telas’ de mármore vão ser expostas pelas ruas apoiadas em cavaletes de ferro. Já os posters vão ser colados em vários muros. “É uma fusão do estilo greco romano clássico com street art”.

Bernardo Bagulho, ilustrador, optou por um trabalho mais minucioso. “Pedras rolantes” surgiu dos seus passeios pela cidade e de pequenas caras que parecia ver na calçada. Criou 13 rostos, feitos com mármore e pedra de várias cores. As pequenas peças vão ser implementadas na calçada, por um mestre calceteiro, e passar a viver na cidade. “Vai ser como andar numa ilustração, como se a cidade fosse um livro”, diz Bernarndo.

Neste matadouro há ainda uma pequena sala de cinema ao ar livre. Nas “Imagens contra o muro” são projetados filmes às quintas-feiras. No dia 29 de agosto, por exemplo, pode assistir, de forma gratuita, ao filme “Recordações da Casa Amarela”, de João César Monteiro, às 22 horas. Todas as segundas-feiras, às 17 horas, há encontros com os artistas neste espaço que ocupa o número 58 da Rua de Machede. Pode até participar na impressão das obras do “Pano”.

A noite de sexta-feira ficou reservada para a atuação dos fantásticos Moonlight Benjamin, oriundos do Haiti e de França, com as suas raízes assentes no blues e nas músicas do mundo. A atuação memorável na Praça do Giraldo, foi seguida do português João Grilo e do brasileiro Gabriel Selvage, e as suas guitarras clássicas, no ambiente intimista da Igreja de São Vicente. 

Para dormir em Évora a NiT sugere o The Noble House, um hotel de charme de quatro estrelas que fica numa zona central. Com preços a partir de 75€ por noite, os quartos são super espaçosos e, sobretudo, silenciosos.

O pátio exterior, com uma buganvília cor de rosa que constrasta com o branco imaculado das paredes, é o sítio ideal para beber um copo ao final do dia. O pequeno almoço é delicioso, com propostas salgadas, doces e outras mais saudáveis (granola, bagas goji, muesli, etc.).

O Artes à Rua decorre até ao dia 5 de setembro, ainda com dezenas de atividades previstas. Luís Garcia, programador cultural desta iniciativa, apelida-a de “não festival”. E, dentro dele, acontecem três festivais, de 22 a 25 de agosto: O Bairro, um festival de hip hop com nomes como Chullage, Allen Halloween, Dealema e Papillon; Só Vozes, uma criação do projeto “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria”, com grupos de cantares de várias zonas do País; e o FIMÉ — Festival Internacional de Música de Évora, com música clássica do Renascimento ao Barroco.

Já no Matadouro está a decorrer uma outra residência do Coletivo Câmara para a criação de uma peça chamada “Em Linha” a ser apresentada nos dias 1 e 2 de outubro. Pode consultar o programa completo na página de Facebook do evento.

Carregue na galeria para conhecer melhor os locais e atividades deste roteiro realizado pela NiT em Évora.