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Na cidade

Poupo 100€ com o novo passe da Fertagus, mas nunca sofri tanto todos os dias

Há cada vez mais passageiros no comboio, mas a frequência das viagens é igual. O resultado é caótico.
Foto de Antero Pires.

Imagine um daqueles dias péssimos no trabalho em que só pensa na hora de ir para casa e comer a última fatia de bolo de chocolate que guardou no frigorífico. Mas quando lá chega, percebe que alguém já o comeu. É irritante, frustrante e angustiante, certo? Pois, então saiba que isto é o que eu sinto quando estou à espera de um comboio da Fertagus e, sem nada o prever, ouço no altifalante que ele foi suprimido. E isso tem acontecido cada vez mais.

O último episódio aconteceu às oito da manhã de uma quarta-feira de abril, 10 dias depois de entrar em vigor o passe único, através do qual os passageiros podem usar à vontade todos os transportes públicos da área metropolitana de Lisboa por apenas 40€ por mês.

Quando li a primeira notícia sobre esta medida, ainda no ano passado, apeteceu-me abraçar a pessoa desconhecida que vinha sentada ao meu lado no comboio. Vivo em Palmela, por isso pagava cerca de 160€ por mês para me deslocar até à redação da NiT, perto de Sete Rios, em Lisboa. Sim, o meu passe custava um quarto do ordenado mínimo nacional.

Pior do que isso: pagava 160€ para fazer mais de metade da viagem de pé, em esforço para não sentir demasiado a respiração da pessoa que estava a poucos centímetros de mim.

Sempre achei que por causa da diminuição do preço dos passes, Fertagus iria aumentar o número de carruagens ou até mesmo disponibilizar mais comboios para precaver o aumento proporcional do número de passageiros. A medida parecia-me óbvia.

Estava enganada. Percebi isso no tal dia em que o comboio foi suprimido em plena hora de ponta. Como apanhei o seguinte em Palmela, a segunda paragem, consegui sentar-me. Mas a partir do Pinhal Novo (a quarta estação) já não havia espaço para ninguém. Havia centenas de pessoas à espera do comboio a tentarem saltar por cima umas das outras para embarcar mal abriam as portas. Foi um caos total. Os mais corajosos gritavam a dizer que tinham chegado primeiro e precisavam de ir trabalhar; os mais pacientes furavam a multidão para voltar atrás e esperar pelo veículo seguinte.

No final, cheguei a Sete Rios ilesa e achei que tinha sido apenas uma má viagem, graças à supressão do comboio anterior. Infelizmente, não foi. Todos os dias apanho o transporte de volta à mesma hora (18h49) e todos os dias volto a sofrer num cenário mais ou menos parecido: centenas de passageiros a empurrarem-se para conseguirem encontrar um espaço vazio e apertado nas carruagens.

E infelizmente as coisas não melhoram lá dentro. Os olhares de raiva entre os passageiros que lutam pela possibilidade de viajar de pé enquanto respiram são uma espécie de “salve-se quem puder neste mundo pós apocalíptico”. 

Segundo a notícia da NiT publicada a 17 de abril, foram vendidos 650 mil passes num só mês em Lisboa — mais 195 mil em relação ao mesmo período do ano passado. O aumento deve-se, obviamente, à redução do preço dos passes. Agora imagine colocar quase 200 mil passageiros novos no mesmo número de carruagens. É mesmo pior do que perder aquele bolo de chocolate. Acreditem.