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Na cidade

Os saleiros de plástico estão a destruir o rio Sado

Há toneladas de lixo a poluir o rio da Península de Setúbal e o próprio oceano. Mas há três mulheres que querem limpar de vez o problema. 

Há vários voluntários que ajudam a organização.

Tome nota deste número: 48 746. Esta é a quantidade de saleiros de plástico que já foi retirada das águas da Península do Sado e que se transformaram num verdadeiro problema na região de Setúbal.

Mas como é que todos estes pacotes de sal vão parar ao estuário do Sado? Simples. Esta é uma zona onde há uma grande afluência de mariscadores de lingueirão que, em determinadas alturas do ano, para conseguirem apanhar o bivalve, têm de despejar sal fino nos buracos do solo para o atrair. Quando o sal acaba, os mariscadores atiram os pacotes vazios para o rio. O resultado são milhares de saleiros de plástico espalhadas pelos areais mais próximos. E um enorme problema ambiental.

Apesar de ainda ser uma situação dramática, esta tendência tem vindo a diminuir desde 2016, altura em que três mulheres abriram uma verdadeira guerra ao plástico. Raquel Gaspar, Sílvia Tavares e Sofia Jorge são as três fundadoras da Ocean Alive, a primeira cooperativa em Portugal dedicada à proteção do oceano.

Como explicam à revista “New in Setúbal“,  o projeto pretende proteger as pradarias marinhas da comunidade piscatória e eliminar as três ameaças que as comunidades locais colocam ao habitat marinho: o lixo da mariscagem, as âncoras e a pesca destrutiva.

A elas juntaram-se 15 outras mulheres, as Guardiãs do Mar, que passam o ano a sensibilizar diretamente os mariscadores do lingueirão para que não deixem as embalagens de sal finos nas praias da região, já que isso pode trazer consequências a médio e longo prazo. 

“O plástico demora muito tempo a degradar-se e a toxicidade dos componentes pode causar doenças e más formações nos animais que crescem no estuário”, explica à NiT Raquel Gaspar, bióloga marinha e uma das fundadoras da cooperativa. “Até para nós, que nos alimentamos de muita desta pesca, acabamos por ser afetados por estes componentes tóxicos, que ainda nem sabemos ao certo todos os efeitos que têm nos nossos organismos e nos dos animais.”

Tal como explica a bióloga, o facto de terem o apoio da Fundação Oceano Azul e Oceanário de Lisboa permitiu que fossem realizadas mais ações de sensibilização. O tem atraído novos colaboradores para o projeto. 

Além da ação direta que as Guardiãs do Mar fazem junto da população, há várias ações a decorrer ao longo do ano, principalmente durante as alturas do pico da apanha de lingueirão — que são agora e durante a Páscoa. A próxima ação das Guardiãs está marcada para o fim de semana de 11 a 13 de agosto, na Caldeira de Tróia, em dois baixios do Estuário do Sado: o Campanário e a Carraca. 

sado
Apanhar a embalagem não custa nada.

As inscrições para dia 13 de agosto, segunda-feira, já fecharam, mas ainda pode inscrever-se como voluntário para apoiar a organização no sábado e domingo até sexta-feira às 14 horas através deste link.

Raquel explica à NiT que estas ações têm tido um impacto bastante positivo. O apoio da comunidade é bastante visível e, só na ação de fevereiro, foram retirados mais de 7 400 quilos de lixo da zona do estuário sendo que a grande maioria era plástico que não pode ser reciclado. Durante esse dia, os 219 voluntários que se juntaram à Ocean Alive retiraram 4 164 saleiros de plástico de sal das praias.

“Este ano temos a expetativa de conseguir reduzir a quantidade de lixo que há nas praias”, avança a bióloga. “Durante a Festa da Nossa Senhora do Rosário de Tróia há uma zona de acampamento onde todos os anos fica imenso lixo e esperamos sensibilizar os visitantes para que isso não aconteça.”

Recentemente, houve várias imagens partilhadas nas redes sociais de uma praia carregada de lixo na República Dominicana. Nas fotografias e nos vídeos é quase impossível ver a água — o que provocou uma enorme contestação sobre a quantidade de lixo que é produzido em todo o mundo.