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Ondaparque tem projeto para voltar 23 anos depois — e nasceu do sonho de quem lá ia

Espaço de Almada esteve abandonado durante décadas. Nos anos 90 tinha cinco mil visitas por dia — Helder e Bruno eram duas delas.
O novo projeto.

Há 23 anos, Helder e Bruno eram dois miúdos. Moravam respetivamente em Lisboa e em Cascais, mas todos os verões era certo: rumavam a Almada para passar dias inteiros no Ondaparque. Eram apenas duas das mais de cinco mil pessoas que frequentavam diariamente o gigante parque aquático, nos escassos anos em que esteve aberto. Foi menos de uma década a funcionar, mas que chegou para marcar memórias de várias gerações.

Há quem se lembre da sua infância com uma nostalgia desmesurada pela Feira Popular. Pelas piscinas do Campo Grande, ou pelos barquinhos que ainda lá existem. Por ver o “Verão Azul” na televisão, por idas a Tróia nos ferries. Para Helder Nogueira e Bruno Carvalho, as duas pessoas que estão a tentar há nove anos reabrir a estrutura da Caparica, essas memórias mais marcantes têm um nome: Ondaparque.

O parque junto ao IC20, perto das praias da Costa, esteve a funcionar apenas durante oito anos, de 1988 a 1996. Apesar da dimensão do projeto e do seu sucesso, com casa sempre cheia, fechou em meados dos anos 90 por problemas relacionados com a necessidade de obras e alegada má gestão. Não haveria reinvestimento e o parque deixou de se sustentar quando o custo de operacionalidade superou o retorno.

Quando encerrou, vivia-se também uma época menos feliz para os parques aquáticos: tinham acontecido dois acidentes trágicos e fatais no Aquaparque do Restelo em 1993 e, embora não houvesse qualquer semelhança ou relação entre os dois espaços — a não ser o facto de serem parques aquáticos, como centenas de outros —, na mente das pessoas pode ter havido uma certa confusão. Ou pelo menos ficou a desconfiança, o medo.

No início, era assim (foto de Ricardo Luis).

Além disso, relatava o “DN” em 2007, depois desse acidente, a fiscalização aos parques aquáticos aumentou e seriam precisas algumas mudanças no Ondaparque. Mas o proprietário de então, o barão Sloet tot Everlo, não teve meios ou interesse em fazê-lo — e foi o princípio do fim.

De quem lá passou, nos seus oito anos de vida, as memórias são unanimemente boas. Desenhado em 1985 com planeamento adaptativo ao longo de 1986, o Ondaparque foi inaugurado a 1 de maio de 1988, o único do seu género no País com um avançado sistema de renovação de águas, vastas áreas de lazer e atracões apenas conhecidas nos parques aquáticos internacionais.

A sua abertura tornou-se lendária pela dimensão: 14 hectares de área útil, o maior parque aquático em território nacional e a afluência de utilizadores valeram-lhe o título de ícone das férias de verão, depois divulgado através de diversos anúncios e de um mítico vídeo narrado por Carlos Duarte com as ex-modelos Ana Borges e Nucha. Alvo de constantes eventos diurnos e noturnos, foi palco do “Big Show SIC”, era conhecido por ter música a toda a hora, concursos constantes em cada uma das onduladas piscinas, desfiles, a definição de diversão de férias e de sol familiar.

Ao longo dos anos, foram sendo construídas novas infraestruturas de apoio e adaptadas várias infraestruturas técnicas. A configuração original do parque foi tão bem conseguida que, 31 anos após a sua construção, é ainda hoje funcional; e, apesar da ausência de valor arquitetónico, as suas características ainda fazem sentido visual, explica à NiT Helder Nogueira.

Os dois responsáveis pelo grupo que quer salvar o espaço, a Equipa Ondaparque, têm agora 33 (Helder) e 35 anos (Bruno). Helder é analista de sistemas, com especialização em desenvolvimento 3D e Bruno Carvalho militar da Marinha Portuguesa, com especialização em lei regulamentar balnear.

Quando eram miúdos, ambos frequentavam o parque aquático de Almada, mas não se conheciam. Nem se conheceram na maioria da sua vida adulta. Até 2010. “A Equipa Ondaparque não foi planeada, uma vez que as pessoas que a compõem não tinham qualquer relação ou contacto entre si. O grupo formou-se ao longo dos esforços empenhados ainda numa fase muito inicial de levantamento técnico e legal da antiga infraestrutura, em 2010”, explica Helder à NiT.