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Lisboetas criam movimento para travar torre de 60 metros no quarteirão da Portugália

Iniciativa partiu de moradores de Arroios e outras freguesias. Entre os motivos, dizem que o Jardim do Caracol é prejudicado.
O projeto para a Almirante Reis.

No final do ano passado, a NiT dava a notícia: depois de vários anos de luta, o Jardim do Caracol da Penha já tinha projeto, orçamento e data de abertura — agora prevista para 2021. O espaço verde de 10 mil metros quadrados que é o projeto mais votado de sempre do Orçamento Participativo de Lisboa está finalmente a avançar — ainda este mês foi aprovada a empreitada — mas, antes de abrir, já está em perigo. Quem o ameaça, ou pelo menos as suas vistas e até a luz, segundo os cidadãos, é a torre de 60 metros e 85 apartamentos que está prevista para o quarteirão da Portugália, na Avenida Almirante Reis. Por isso, e por motivos semelhantes, um grupo de lisboetas uniu-se para travar a obra.

Portugália Plaza é o nome da ideia, da autoria da empresa ARX Portugal Arquitetos, que contempla quatro edifícios, um dos quais uma torre de 16 andares, para os terrenos da mítica Cervejaria Portugália, na Almirante Reis. Os cálculos e os planos estão feitos e já têm parecer positivo do departamento de urbanismo da Câmara de Lisboa, soube-se na passada semana.

A empreitada, de um fundo de investimento alemão, quer criar 85 apartamentos, habitação de convivência, escritórios, espaços comerciais. Haverá ainda 413 lugares de estacionamento para automóveis e 99 para motas, ocupando todo aquele quarteirão. A torre principal deverá ter 60,20 metros de altura e 16 pisos e uma outra torre mesmo ao lado terá 21,75 metros de altura.

Na mesma semana em que o projeto entrou em consulta pública — e assim estará até ao próximo dia 15 de junho —, um “movimento cívico totalmente independente de todos os partidos políticos” surgiu para tentar travá-lo. No grupo (e página de Facebook) criado esta quarta-feira, 15 de maio, o Movimento Stop Torre 60m Portugália diz opor-se à construção do edifício na Av. Almirante Reis, no quarteirão da Cervejaria Portugália, no âmbito do projeto admitido pelo Departamento de Urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa.

Apesar de serem “favoráveis à requalificação da área” e de reconhecerem “potencialidades associadas a uma intervenção integral naquele espaço”, explicam os cidadãos, o projeto em causa prevê a construção de uma torre de 16 pisos com mais de 60 metros de altura acima do solo, o que é o triplo da altura dos prédios mais altos da avenida e circundantes e uma volumetria muito superior à existente nesta parte da cidade.

A montagem explicativa do Stop Torre.

Os lisboetas dizem que a torre projetada descaracteriza e fere a identidade arquitetónica dos bairros envolventes. Além disso, referem, constitui uma agressiva interferência no sistema de vistas não só de Arroios e Penha de França (com impacto negativo, nomeadamente, nas perspetivas dos Miradouros da Penha de França, do Monte Agudo e do futuro Jardim do Caracol da Penha) mas também do vale de Almirante Reis (tal como identificado no Plano Diretor Municipal).

Finalmente, a torre iria ainda criar “uma violenta área de sombra sobre as casas e ruas circundantes, diminuindo consideravelmente a qualidade da vivência da população residente” e visitante, referem.

“Assim, em defesa da cidade e das pessoas, convidamos todos os cidadãos e organizações interessados a juntar-se ao Movimento através do Facebook Stop Torre, e/ou a assinar e divulgar a petição em papel dirigida à Assembleia Municipal de Lisboa (AML) que lançaremos nos próximos dias, para que a opinião cidadã pese indelevelmente nas tomadas de decisão da CML.”

Enquanto esta petição não avança, existe outra já a circular na Internet. Também na página do Jardim do Caracol da Penha, onde se têm acompanhado todas as fases desta mega estrutura verde, uma publicação desta quarta-feira, 15 de maio, explica que o projeto viola o sistema de vistas do Plano Diretor Municipal de Lisboa. Os cidadãos que lutaram pelo jardim mostram-se preocupados e falam num “efeito Parede e Sombra” que terá de ser considerado.

“As imagens que têm sido divulgadas na imprensa sobre o empreendimento são enganadoras. Apresentam perspetivas distantes, elevadas, que não correspondem ao impacto sentido por quem se encontrar tanto nos miradouros envolventes como nas proximidades da torre prevista, omitindo tanto o efeito-parede como a enorme sombra que aquela torre de elevada volumetria para aquela zona da cidade provocariam”, explica-se na publicação.

“A magnífica oportunidade de requalificar um quarteirão há tanto tempo abandonado em pleno coração de Arroios de forma integrada não deve ser marcada por um erro histórico tão grosseiro”, adiantam ainda os cidadãos.

O efeito Parede e Sombra a que os cidadãos se referem.