Na cidade

Meco: a história da praia onde a elite de Lisboa se despiu

Um grupo de estrangeiros chegou nos anos 70 para revolucionar a zona: andavam nus e chocavam os locais. Nascia assim a famosa praia naturista portuguesa.

Praia do Moinho de Baixo.

Não havia estradas, luz ou água. Para chegar à praia era preciso deixar o carro na aldeia e atravessar o pinhal a pé. Em Lisboa poucos conheciam a zona, praticamente virgem, cujas praias eram ocupadas quase apenas por pescadores e locais em busca das algas milagrosas. A chegada de um grupo de estrangeiros a Sesimbra, no princípio da década de 70, acabaria, no entanto, por lhe dar nome e fama internacional. Eram hippies com os ideais do Maio de 68 colados à pele — e foram eles os primeiros naturistas. 

Na altura, o Meco era uma zona praticamente selvagem. Habituados a carroças e carros de bois, os habitantes assustavam-se quando viam chegar um automóvel a Alfarim. Apesar de separados da capital por pouco mais de 30 quilómetros, Lisboa ficava demasiado longe. Mas o despontar dos anos 80 havia de levar os primeiros nudistas portugueses à Praia do Moinho de Baixo, que aos poucos se tornou o fetiche de uma certa elite lisboeta, composta por artistas, políticos, gente da televisão e da alta finança.

Quase todos procuravam o mesmo: as praias de areal a perder de vista, o espírito libertino e a discrição do lugar. Embora confinado à parte esquerda da praia, o naturismo deixara de ser crime de atentado ao pudor para se tornar um símbolo do Meco, cuja fama de norte a sul do País se deveu sobretudo ao nudismo. Havia quem deixava o carro na estrada mais próxima e descesse até ao areal totalmente despido.

A praia nunca seria um destino de famílias com filhos. De manhã estava quase sempre vazia. E apesar daquele primeiro grupo de hippies, composto por alemães, franceses e americanos, não ter sido bem recebido pela população — à noite choviam pedras na zona da praia onde dormiam — o naturismo foi-se tornando normal para os habitantes locais. Assim como os mirones, que se escondiam nas arribas para deitar o olho às mulheres nuas.

Abriram restaurantes com um cardápio de mar irresistível: marisco e peixe fresco para atrair os mais endinheirados. Era o caso de Ricardo Salgado, que quando estava de férias na Praia do Pego, na Comporta, aterrava o helicóptero no parque de estacionamento do Restaurante Peralta, na estrada que liga a aldeia à Praia do Moinho de Baixo, só para almoçar. Formaram-se grupos de amigos, quase todos vindos de zonas chiques da capital, gente influente que ali passava os dias de verão. 

Sócrates e o alemão

Situada no concelho de Sesimbra, Praia do Meco permaneceu praticamente desconhecida até princípio dos anos 60. Isolada e com difíceis acessos, foi um alemão que “descobriu o que os olhos portugueses não tinham visto”. A história foi contada numa reportagem do Diário de Notícias, em janeiro de 1973, que titulava assim o artigo de duas páginas: “Aldeia do Meco entra no mapa turístico”. “Fica apenas a meia-hora de Lisboa, na margem sul do Tejo, entre a Lagoa de Albufeira e o Cabo Espichel, mas são raros os que a conhecem — a aldeia do Meco, onde vivem atualmente 600 pessoas.” 

Artigo publicado em janeiro de 1973.

O plano do alemão, que chegou a adquirir os terrenos numa zona de falésia protegida, era erguer cimento junto do mar: um empreendimento para nove mil pessoas, com bungalows e apartamentos. “Tudo começou por um passeio romântico com uma moça”, explicava Nils Peter Sieger, o bancário ao jornal. “Ao encontrar a aldeia nesse dia fiquei preso à beleza da região e decidi erguer aqui um centro urbano moderno, conservando o que já existia.” O conceito de resort, no entanto, era o oposto do espírito selvagem do Meco e foi travado em 2002 por José Sócrates, então ministro do Ambiente, depois de um imbróglio judicial que se arrastou durante 25 anos.

A zona nunca chegaria a ter um grande hotel, mas havia de sofrer uma transformação súbita, no início dos anos 80, que permitiu começar a albergar forasteiros na aldeia: depois de décadas a viver do que lhes dava a terra e o mar, os habitantes locais transformaram galinheiros e barracões em quartos para alugar. Mas tal só foi possível devido a um segredo que até hoje ninguém consegue furar: um carregamento de droga que deu à costa e que nunca foi entregue às autoridades.  

A guarda fiscal vinha a pé da Azóia. Há um antes e depois da história da droga. Antes daqueles fardos terem dado à costa, não havia nada aqui, as pessoas tinham porcos e um pedaço de terra. O Meco desenvolveu-se muito a seguir a esse episódio”, conta o proprietário de um restaurante. “Quase toda a gente sabe disso mas ninguém fala assumidamente”, diz outro habitante. Houve quem tenha enterrado a droga para não ser apanhado. “Alguns desses foram roubados.”

A polícia rondou a zona, interrogou alguns habitantes, mas os 50 quilos de haxixe acabariam por ser vendidos — e o dinheiro mudaria a vida de muitos dos seus habitantes. Ninguém aceita falar do assunto mas ainda hoje se conta a história do primeiro pescador a chegar à praia nesse dia: despejou o a droga no areal e ficou o saco de serapilheira para vender hortaliças no mercado de Sesimbra.