NiTfm live

na cidade

Em São Francisco há adultos a partilhar dormitórios devido à falta de casas

É uma realidade prática, mas um pouco assustadora: não havendo casas nos centros urbanos, a classe média recorre a dormitórios. Quem experimentou, diz que adora.

A sala comum de uma casa Starcity, São Francisco.

Não há absolutamente mal nenhum em morar durante uns anos num dormitório com vários desconhecidos, na altura de sair de casa dos pais, ou durante a Universidade. Para quem vem de regiões longe das instituições onde foi aceite, há serviços como a Uniplaces, cada vez mais em voga, que oferecem boa ajuda na procura de alojamento e boas condições— ou há sempre o velho clássico de “alugar uma casa com mais cinco amigos ou desconhecidos e cada um fica a dormir no seu quarto, o quinto na sala, a cozinha é partilhada”.

Vale tudo para arranjar alojamento a preço acessível, e experiências como estas fazem parte da vida e da diversão de ser jovem. Mas fazê-lo na idade adulta, com vida profissional ativa, um bom emprego, sem ser por opção, mas por falta de escolha, é outra conversa.

As pressões do mercado imobiliário e da falta de casas— e elevados custos das mesmas— estão a afetar cidades portuguesas como Lisboa e Porto, mas são já um fenómeno com décadas em algumas metrópoles mundiais.

Sobre São Francisco, uma das mais populares cidades dos Estados Unidos, um artigo do New York Times desta semana mostra o admirável mundo novo (ou não) dos dormitórios para adultos.

Segundo o artigo, uma empresa local situada na Bay Area, a Starcity, decidiu criar estes dormitórios, e em poucos meses já abriu três propriedades com 36 unidades, tendo nove a ser preparadas e uma lista de espera de oito mil pessoas.

São milhares em buscas de rendas razoáveis e, diz o New York Post, são “a espinha dorsal da classe média de São Francisco”: professores, gerentes de livrarias, músicos, jornalistas, técnicos, empregados de serviços vários.

É uma vida comunitária e partilhada, com casas de banho e cozinhas comuns, blocos com centenas de pessoas, o que se aluga são mesmo quartos, mobilados, como os de hotéis. O co-fundador da empresa, já milionária, recusa o estigma de “dormitório” e prefere chamar-lhes “comunidades”, defende o conceito do Starcity como uma luta contra a perda de vida e de energia das cidades por um lado, e contra o isolamento das pessoas, por outro.

Segundo vários media norte-americanos, o apartamento médio de um quarto em São Francisco ronda atualmente os 3.500€ por mês, e um quarto num prédio Starcity oscila entre os 1500 e os 2500€, consoante os serviços. É que pode mesmo sentir que vive num hotel, com wi-fi, limpeza diária e tudo.

E as pessoas parecem adorar. Como se não falasse por si a lista de espera de oito mil pessoas, por todo o site da empresa, o feedback de quem lá mora diz que a experiência é positiva e lhe está mesmo a mudar a vida; a combater o isolamento; a fazer sentir a vida comunitária. Que não há, claro, privacidade como numa casa própria, mas há sentimento de família. A empresa até organiza jantares nas casas e festas de aniversário quando um morador faz anos.

No Japão, há já muito tempo que existe o conceito de “share houses”, ou casas partilhadas. É senso comum e dado adquirido que em cidades como Tóquio, arranjar casa a solo é quase impossível dado os preços, a falta de alojamento e a sobre-população. As share houses são geridas por empresas, com apoios, serviços, pesquisa, tudo organizado, pagamento à mesma fonte, são já aos milhares. Anos houve em que se noticiou que o alojamento estava tão critico que havia quem partilhasse estas share houses em bi-horário —uns usavam-nas de dia, outros de noite.