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O mundo em quarentena está a emitir menos um milhão de toneladas de CO2 por dia

Depois da China, a poluição em Itália caiu a pique com a quarentena, de uma forma que já é visível nas imagens de satélite.
As redução visível em satélite.

A confirmação chegou no início desta semana: com milhões de cidadãos por todo o mundo em quarentena ou auto-isolamento devido à pandemia do novo coronavírus, estão a ser emitidos menos um milhão de toneladas de dióxido de carbono— por dia. E há especialistas que já acreditam que, embora trágica, esta pandemia pode ter enormes melhorias no ambiente, quedas de poluição e até aquecimento global.

Os dados da redução de emissões de CO2 em um milhão de toneladas por dia foram compilados pela agência Lusa com base em relatórios internacionais e revelam que as quedas na procura do petróleo, na utilização de carvão e a suspensão de milhares de voos contribuíram para a descida.

A agência cita um relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente onde se mostra que, para limitar o aumento da temperatura global a 1,5 graus celsius acima da média da era pré-industrial, seria preciso reduzir em 7,6% por ano as emissões de gases com efeito de estufa —um número que este ano até pode ser atingido com a pandemia de Covid-19, embora os ambientalistas reforcem que são necessárias medidas complementares.

Entretanto, as quedas na poluição já são visíveis em imagens de satélite nos países com mais casos e, por consequência, uma quarentena mais generalizada e restritiva.

Primeiro foi a China que, confirmam agora vários estudos, teve quedas drásticas em vários poluentes. Segundo a “CNN“, imagens de satélite divulgadas pela NASA e pela Agência Espacial Europeia mostram uma redução drástica nas emissões de dióxido de nitrogénio — as liberadas por carros, fábricas e instalações industriais —  nas principais cidades chinesas entre janeiro e fevereiro. A nuvem visível de gás tóxico que pairava em alguns pontos mais industriais praticamente desapareceu. 

Na província de Hubei, onde teve inicio o surto e por isso também a quarentena, o número médio de dias de boa qualidade no ar aumentou já 21,5% em fevereiro, face ao período homólogo, segundo o Ministério de Ecologia e Meio Ambiente da China a este canal.

E sabe-se agora que em Itália está a acontecer precisamente o mesmo. As medidas drásticas que o país da Europa mais afetado pela pandemia impôs já são, literalmente, visíveis do espaço.

Um novo vídeo produzido pela Agência Espacial Européia (ESA), usando dados recolhidos pelo satélite Copernicus Sentinel-5P da agência, mostra isso mesmo. Essa sonda controla a poluição do ar na atmosfera, e o satélite registou uma queda acentuada nas emissões de dióxido de nitrogénio sobre a Itália durante os primeiros dois meses e meio de 2020. 

“Embora possa haver pequenas variações nos dados devido à cobertura de nuvens e mudanças climáticas, estamos muito confiantes de que a redução de emissões que podemos ver coincida com o bloqueio na Itália, ao causar menos atividades industriais e de tráfego” explicou Claus Zehner, da missão gerente da ESA em comunicado.

A animação mostra a flutuação das emissões de dióxido de nitrogénio na Europa de 1 de janeiro de 2020 a 11 de março de 2020, usando uma média móvel de 10 dias. Esses dados são graças ao instrumento Tropomi a bordo do satélite Copernicus Sentinel-5P, que mapeia então diversos poluentes do ar em todo o mundo.

No vídeo, é possível ver a redução do dióxido de nitrogénio sobretudo no norte de Itália, a mais afetada. Na cronologia temporal esta região começa com uma enorme mancha laranja, ou seja mais partículas; e depois a ficar mais amarela (menos dióxido de nitrogénio) até quase azul, ou seja muito menos partículas.

Pode também notar-se uma evolução semelhante num ponto do mapa que parece ser Madrid; e mesmo em Lisboa e no Porto: ainda que a contenção seja aqui mais recente e os valores iniciais muito mais baixos do que os de Itália, é possível denotar também aqui uma queda: ao inicio do video o amarelo das partículas passando, depois, mais a azul.

Os especialistas têm frisado: para já, não há estudos suficientes e revistos que meçam o verdadeiro impacto na saúde que as emissões reduzidas trarão, mas dado o que já se sabe sobre os perigos da poluição generalizada do ar, é provável que haja um benefício direto numa redução de mortes causadas por poluição. E alguns destacam que é uma altura para refletir, quando a pandemia passar, se precisamos mesmo de tantos aspetos da vida moderna, já que há mudanças positivas, visíveis e imediatas quando fazemos menos viagens, produção e afins. 

Na passada semana, um especialista em alterações climáticas, ambiente e energia, explicou à “Forbes” que acredita que o bloqueio global devido ao novo coronavírus, ao fechar fábricas e reduzir as viagens de carro e avião, pode reduzir a poluição letal, incluindo os gases de efeito estufa que estão a aquecer o clima.

O bloqueio pode salvar mais vidas da redução da poluição do que o próprio vírus, disse mesmo François Gemenne, diretor do Observatório Hugo , que estuda as interações entre mudanças ambientais, migração humana e política.

“Estranhamente, acho que o número de mortos pelo coronavírus no final pode ser positivo, se considerar as mortes por poluição atmosférica”, disse Gemenne, citando, por exemplo, as 48.000 pessoas que morrem anualmente na França por causa de poluição atmosférica e mais de um milhão na China.