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Na cidade

Barcelona vai ter super bairros sem carros que podem salvar milhares de vidas

Estudo diz que ideia da cidade catalã pode prevenir 667 mortes prematuras a cada ano e aumentar esperança de vida dos moradores.
Poblenou, em Barcelona.

Chamam-se superblocks: à letra super quarteirões, ou super bairros. Uma iniciativa de uma agência ecológica catalã em Barcelona está a ser notícia, exemplo e possível protótipo para cidades em todo o mundo, de Seattle nos EUA a várias metrópoles australianas. A ideia, apelidada de genial por vários especialistas, não é totalmente nova mas tem tido uma implementação irrepreensível. E um novo estudo vem agora dizer que pode salvar vidas — milhares de vidas.

Os superblocks são bairros de cerca nove quarteirões, onde o trânsito automóvel é restrito às principais estradas do lado de fora, abrindo grupos ou quadrados inteiros de ruas residenciais e de serviços: fechadas a carros, apenas para pedestres e ciclistas. O objetivo é reduzir a poluição, melhorar a qualidade do ar, diminuir o ruído — no fundo, dar aos cidadãos espaços para estarem, circularem e conviverem, melhor qualidade de vida e ainda ajudar o ambiente, no processo.

Nestes superbairros o tráfego é reduzido para quase zero, com o espaço anteriormente ocupado por carros entregue a áreas de lazer e espaços públicos, zonas verdes, troços de caminhada e de ciclismo.

O conceito é uma criação da Agência de Ecologia Urbana de Barcelona, uma organização liderada por Salvador Rueda, o homem por detrás desta abordagem inovadora para gerir o tráfego. Rueda encontrou alguma contestação quando começou a sua luta e introduziu pela primeira vez os superblocos em seis bairros da capital da Catalunha em 2016.

Não foi fácil de convencer Barcelona e o mundo de que um avultado investimento se justificava e que o modelo traria benefícios económicos e de saúde consideráveis, numa altura em que o congestionamento, a poluição e a falta de espaços comunitários são os maiores problemas das cidades. Mas os bairros de Rueda conseguiram agora um grande apoio, por meio de um novo estudo que quantifica, pela primeira vez, as melhorias reais que eles podem trazer.

O modelo.

Segundo o “The Guardian“, um novo estudo publicado em setembro na Environment International dá as primeiras provas de que o modelo pode trazer grandes melhorias à saúde das populações.

O estudo foi feito por uma equipa de cientistas espanhóis e norte-americanos, que desenvolveram um modelo estatístico para medir os possíveis efeitos do projeto de Rueda.

Usando as conhecidas taxas de exposição e mortalidade associadas a fatores de saúde, como poluição do ar, ruído do tráfego, atividade física, espaços verdes e temperatura do ar, eles determinaram que a cidade poderia impedir 667 mortes prematuras a cada ano, se o plano superblocks for até ao fim: e o fim, o objetivo, é ter 503 superbairros, quase 70 por cento das ruas de Barcelona. 

O documento tem algumas limitações, nomeadamente basear-se neste cenário final, de 503 bairros convertidos em simultâneo, quando apenas seis o foram até agora; mas dá pistas de que a poluição pode ser reduzida na cidade até um quarto e de que milhares de mortes prematuras podem, de facto, ser evitadas.

O relatório diz ainda que a esperança média de vida de um residente de Barcelona poderia aumentar em quase 200 dias, poupando à cidade 1,7 mil milhões de euros por ano, com todos estes bairros criados, como é suposto que aconteça.

Segundo o” CityLab“, quando as autoridades de Barcelona instalaram o primeiro superbloco no bairro da classe trabalhadora de Poblenou em 2016, a medida foi controversa e ao principio questionada pelos moradores, mas agora há mais empresas locais, turismo, uso de bicicletas e de viagens a pé e a contestação passou totalmente.

O projeto está a atrair atenção internacional e haverá já esforços para replicar a ideia em Seattle, EUA, e em várias cidades australianas.

Os contras

No entanto, lembra o jornal “The LocalEs“, há também obstáculos a uma medida com esta dimensão.

Apesar de Salvador Rueda defender que a ideia pode ser usada e replicada em qualquer cidade do mundo, as questões que têm sido levantas prendem-se com o forte investimento necessário, com as mudanças profundas e com a inevitável transferência de tráfego — para umas ruas ficarem limpas, outras aumentarão o trânsito.

Além disso, os superbairros podem tornar-se mais apetecíveis em termos imobiliários, aumentando os preços e criando a bola de neve de serem a dado ponto incomportáveis para quem deviam ajudar: os moradores. 

A outra ideia, de Pontevedra

O conceito de Salvador Rueda é inovador no detalhe e na implementação, mas a ideia não é nova. Em Pontevedra, uma cidade de 83 mil habitantes na Galiza, no noroeste de Espanha, um autarca expulsou há vários anos todos os carros do centro histórico, como a NiT já lhe relatou.

Também aqui, o sucesso é tão grande que outras cidades o querem seguir. Os últimos dados mostram que a poluição baixou, o turismo cresceu e a população também.

Em contraciclo com as quedas de natalidade em Espanha, em Pontevedra existem agora mais pessoas e mais crianças. A explicação é simples: há casais a mudarem-se para lá para constituírem famílias. Querem ter filhos onde eles possam brincar na rua, explicam a vários meios locais.