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As histórias da misteriosa Torre de Centum Cellas, em Belmonte

Nas ruínas que são Monumento Nacional irá nascer um Centro Interpretativo. O seu passado é um enorme enigma.
Foto de João Pedro Jesus Photo, partilhada no Instagram.

Em Belmonte, no sopé da Serra da Estrela e no distrito de Castelo Branco, existe um lugar que é único no mundo. Pela sua beleza, o seu aspeto e impacto visual e o seu passado, do mais misterioso e enigmático que há. São séculos de lendas, mitos urbanos e suspeitas que até hoje não são totalmente confirmadas sobre a história de umas ruínas que vão ser agora recuperadas.

Chama-se Centum Cellas, esta Torre localizada no monte de Santo Antão, na freguesia do Colmeal da Torre, Belmonte: em plena rede de Aldeias Históricas de Portugal.

Anteriormente conhecida como Torre de São Cornélio, a ruína tem sido um verdadeiro quebra-cabeças para historiadores, pesquisadores, arqueólogos e curiosos, além dos visitantes que chegam de todo o mundo.

Monumento Nacional desde 1927, a Torre que terá sido construída no ano I D.C tem 12 metros de altura, três andares (parciais) e uma enorme imponência, com detalhes que têm levado a um “sem número de interpretações acerca da sua funcionalidade, ao longo dos anos, por diversos investigadores”, confirma fonte da Câmara de Belmonte à NiT.

Fala-se que pode ter sido um templo; uma prisão; um “praetorium (o centro de um acampamento romano), uma mansio ou mutatio (albergaria para descanso dos viajantes), ou uma villa romana”, acrescenta a mesma responsável. Pode também ter sido tudo isto, ao longo dos tempos.

Uma das teorias mais fortes é a da prisão com várias (neste caso, cem) celas, o que explicaria o nome atual. Curiosamente, este mito explicaria também a sua primeira designação: São Cornélio, eventualmente por ele ter lá estado preso (o que nunca foi confirmado). Além de, claro, ligar com a sua característica mais icónica que são os recortes nas paredes, que parecem mesmo de celas.

Numa das muitas lendas em seu redor, uma das mais engraçadas é a de que terá sido construída por uma mulher com um filho às costas, o que nos permite perceber o seu aspeto único e altamente irregular.

Mitos à parte, a verdade é que tudo aqui é uma incógnita, porque são poucos os achados conclusivos. Ainda assim, houve algumas descobertas importantes: “As escavações realizadas pelo IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico), entre 1993 e 1998, demonstraram que a Torre seria a parte central daquela que terá constituído a villa de Lucius Caecilius”, diz-nos a autarquia.

Este seria um “abastado cidadão romano, negociante de estanho, que, em meados do século I d. C. mandou edificar a sua residência nesta zona, sob direcção de um arquitecto, o qual, ao que tudo parece indicar, conheceria com profundidade as técnicas construtivas ditadas por Vitrúvio”, acrescenta a mesma fonte.

Nos mitos urbanos em seu redor, especula-se que este rico romano,  Lucius Caecilius, terá ali construído termas, alojamentos para escravos e vários anexos ao seu redor; que um gigante incêndio destruiu parte da villa e seus anexos, cerca de dois séculos após a sua construção; e que mais tarde, já na Idade Média, terá ali sido erguido a Capela de São Cornélio e um terceiro andar.

Há mais: fala-se em influências incas e que este povo a poderá ter construído; numa relação com as artes gregas ou egípcias. em entrepostos comerciais; e até que judeus sefarditas, os mesmos de Petra na Jordânia, a poderão ter construído. Diz-se ainda que terá sido um ponto de defesa da fronteira na luta entre o Reino de Portugal e o de Leão. Finalmente, reza a lenda que lá dentro chegou a haver um bezerro totalmente de ouro, provavelmente deixado pelo seu dono romano (se é que existiu).

As obras e o Centro Interpretativo

Seja como for, este é um local único no mundo, por toda esta magia mas também pela sua configuração, com janelas e buracos irregulares e a sua silhueta incrível e imponente.

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Por isso, a câmara de Belmonte decidiu avançar com obras de requalificação da Torre, que incluirão o reforço de pedras e uma melhor iluminação. Também está previsto, ali ao lado, o nascimento do Centro Interpretativo da Centum Cellas, que incluirá as peças recolhidas junto da Torre e uma viagem pela história e pelas diferentes teorias que existem sobre este monumento, “para que cada turista que o visitar que faça a sua própria interpretação”.

Segundo explica a autarquia de Belmonte à NiT, o Centro Interpretativo está em fase de projeto e candidatura.