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Aheneah: a portuguesa que transformou um muro da infância em arte de ponto cruz

Ana Martins tem apenas 21 anos e o seu último trabalho, Switch-Over, é uma incrível homenagem à infância que está agora de forma permanente em Vila Franca de Xira.

A Switch-Over.

Se passar por estes dias na Rua Fausto Nunes Dias, em Vila Franca de Xira, vai encontrar um mural que é uma autêntica obra de arte, feita em ponto cruz. A artista que a criou, e instalou, tem apenas 21 anos, e junta um incrível talento a uma nostalgia típica dos portugueses: cada uma das suas obras tem uma história, e uma história ligada à infância.

Aheneah, ou Ana Martins, é uma artista e designer gráfica natural de Vila Franca de Xira. Estudou primeiro na Escola Artística António Arroio, tirando depois uma licenciatura em Design Gráfico na Esad das Caldas da Rainha, em 2014.

Em 2017 acabou os estudos e começou oficialmente o seu percurso artístico. Deste então já participou em festivais de street art como o ESTAU, Estarreja Arte Urbana e o Wool, Covilhã Arte Urbana (ambos curadoria Mistaker Maker), em exposições como 100 Dollars Bill Y’all, Collective Exhibition (Circus Network, Porto) e fez parcerias com algumas marcas.

À NiT, Ana explica que tudo isto começou muito cedo: “desde sempre que me lembro de ver as minhas avós e mãe a tricotar e a costurar; e desde muito cedo que pedi para me ensinarem”, adianta.

Airmax, a primeira peça.

Mas foi apenas durante a sua licenciatura que teve contacto com a técnica de ponto cruz. Começou com um pano de cozinha mas rapidamente se apercebeu do potencial daquela técnica tradicional, e a partir dai começou a explorar ponto cruz aplicado a trabalhos gráficos. Até que percebeu que poderia ser interessante modificá-lo, ao ponto de ser trabalhado fora do conforto do lar.

Juntou-se a isto o seu interesse por graffiti e arte urbana e em 2016 surgiu aquele que seria o primeiro trabalho que reunia todas estas áreas: um mural com cerca de 2,5 metros de altura, 400 pregos e centenas de metros de fio. De um dia para o outro as pequenas cruzes de dois milímetros, bordadas, cuidadosamente em tecido, passaram a ser 20 vezes maiores e a ter como suporte uma parede, nas Caldas da Rainha. Ana tinha 19 anos.

Na ESTAU-Estarreja Arte Urbana.

E acontece o momento em que uma técnica “que sempre esteve ligada a uma geração mais antiga começa a atrair a geração mais nova, pelo grafismo, conceito ou até pela estranheza da peça”, explica Ana.

Depois surgiu Matriz, para a Wool, Covilhã Arte Urbana. Pode ser vista na Casa dos Magistrados na Covilhã. “É uma homenagem à minha bisavó Narcisa, que não só tricotou o meu primeiro casaco (e rosa), mas também me ensinou a tricotar minha primeira peça. 

“Depois de 1,5 quilos de lã e cerca de 700 pregos”, ganhou vida este tributo “a todas as bisavós, avós e mães”, e ganhou vida a nova arte em que o ponto cruz tem 20 vezes o seu tamanho normal.

Matriz, na Covilhã.

A mais recente peça de Aheneah, “Switch-over”, foi realizada na sua cidade natal, Vila Franca de Xira, numa rua perto daquela que foi a sua escola secundária.

“Todos os dias, durante anos, milhares de crianças passaram pela parede onde foi realizada esta peça, ao fazer o seu percurso casa—escola e escola—casa. Na maioria das vezes, perdidos nos seus pensamentos e na sua rotina”, explica. Agora, é impossível não reparar.

Com mais de 700 metros de lã, 2300 parafusos e o apoio da Junta de Freguesia, surgiu a peça que homenageia a infância. A instalação foi feita por Ana, com o apoio da oficina e funcionários da câmara.

O processo envolveu a a marcação do desenho, a colocação de parafusos e a colocação da lã.

A preparação prévia da lã foi, novamente, feita em conjunto com as suas avós. A obra estará em permanência em Vila Franca de Xira, até “fatores naturais e humanos permitirem”.

A instalação demorou uma semana a ser concluída.

Em detalhe.