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opinião

Bruce Springsteen, o herói que não veste capa

O crítico de música e cronista da NiT, Nuno Bento, conta como a música do Boss salvou a sua vida.
O Boss faz 70 anos.

Esta segunda-feira, dia 23 de setembro, faz 70 anos um dos meus heróis. Não usa capa, não tem uma banda desenhada, mas salva vidas. Vidas como a minha. Bruce Springsteen é muito mais do que um mero herói. Os heróis, como nos habituámos a conhecer, têm uma vida finita e perfeita. Vivem durante um filme, um livro, uma música. Bruce é real, com todas as imperfeições que tal encerra e que constroem um personagem muito mais complexo. Um personagem que vai viver para sempre, ou pelo menos muitos anos para além da sua vida. Certamente enquanto eu viver e puder contar a história do meu herói.

Sabem aquele ditado que diz que nunca devem conhecer os vossos heróis? Não se aplica a Bruce Springsteen. Quando tive a honra de conhecer o meu herói numa tórrida tarde de Verão em 2014, depois de 8 horas e meia debaixo do sol à espera dele, Bruce foi tudo aquilo que eu imaginei e mais ainda que um herói pudesse ser.

Quando lhe pedi para tirar uma foto comigo, ele acenou com a cabeça — o aceno mais cool que vi em toda a minha vida —, pôs-me a mão nas costas e perguntou com aquela voz deliciosamente rouca: “Ok, man, ok… Where do I look?”. Eu apontei para a Cristina, que tinha o meu telemóvel e que, coitada, tremia que nem varas verdes e chorava baba e ranho. Pudera. Ela tinha acabado de dar um beijo ao Bruce e ainda estava a suster aquele nirvana. Agora tinha a tarefa hercúlea de capturar um momento chave da minha vida numa foto. Eu e o Bruce ficámos em contraluz, mas isso acabou por dar um efeito mais etéreo à fotografia, como que se a objectiva tivesse ficado encadeada por aquele momento.

Depois saímos do hotel e no meio do banho de multidão à porta, ainda tive tempo de lhe dar o meu primeiro “Darkness In The Edge Of Town” para ele assinar. O momento ficou capturado noutra foto, onde os meus olhos brilham intensamente, a olhar o meu herói assinar o disco com que ele salvara a minha vida nos anos transactos. Com os olhos lavados em lágrimas de alegria e alívio, voltei para o carro e senti que se tinha fechado um ciclo na minha vida. Outro disco se seguiria. Outro álbum onde Bruce contaria a sua história e onde eu pudesse ler ali a minha. E assim aconteceu.

Springsteen and I.

O ciclo de “Darkness” começara em Dezembro de 2008, com o meu choque frontal com a realidade da vida adulta. Ao mesmo tempo que acabava o curso no Técnico e começava uma vida rotineira de trabalho, terminava a relação mais sólida e duradoura da minha vida, a qual durou os 5 anos de faculdade. Tinham sido os meus anos “Born To Run” — o álbum onde o Bruce estampou todos os seus, e meus, sonhos de juventude. Quando nada parece impossível e o mundo parece estar ali, de braços abertos, à nossa espera. E parecia estar mesmo.

Em 1975, Bruce Springsteen cometeu a incrível proeza de ser capa das revistas Time e Newsweek na mesma semana. Mas não era só a América que estava aos seus pés. A digressão de promoção de “Born To Run” teve uma passagem triunfal pelo Hammersmith Odeon em Londres, mais tarde documentada num superlativo álbum ao vivo, num concerto promovido com o outdoor “Finally London is ready for Bruce Springsteen & The E Street Band”. Nada parecia impossível e a expectativa do mundo era grande para conhecer o que Bruce tinha na manga para o álbum seguinte.

Mas Bruce prosseguia numa interminável digressão onde entravam e saíam temas novos sem aparente critério e álbum novo, nem vê-lo. O problema era um contrato que Bruce assinara com o seu antigo manager Mike Appel, que estipulava que Bruce recebesse uma ínfima parte dos direitos das suas músicas. Reza a lenda que Bruce assinou este contrato num parque de estacionamento em New Jersey, sem sequer o ler.

Na prática, isto significava que a única fonte de rendimento de Bruce Springsteen vinha das suas performances ao vivo, o que o obrigava a andar indefinidamente na estrada para pagar as suas contas. Foi o choque frontal de Bruce Springsteen com a realidade da vida adulta. Desse choque, nasceu um disco — “Darkness On The Edge Of Town”.

Nos meses que se seguiram ao meu choque com a realidade, vivi na agonia de quem está perdido e à procura de respostas sobre as grandes questões da vida. Como tantas outras vezes, o universo enviou-me um disco para me dar respostas. Nesse período, descobri “Darkness In The Edge Of Town”. Tudo o que eu precisava de ouvir naquele momento estava condensado ali. Bruce tinha a chave, todas as respostas que eu procurava. E as respostas são que não há respostas. Os mistérios permanecem por resolver e acumulam-se numa bagagem que temos que carregar e com a qual temos de viver. Essa é a chave. Saber viver com toda a bagagem e continuar nesta maravilhosa viagem.

No trailer do filme de “Western Stars”, que será lançado no próximo mês, Bruce faz um resumo da sua viagem com a própria bagagem: “Life’s mysteries remain and deepen. It’s answers unresolved. So you walk on through the dark, because that’s where the next morning is”. Nesta viagem pela escuridão que todos temos que fazer, eu encontrei a minha lanterna — a música de Bruce Springsteen.

P.S.: Se não conhecem a música do Boss, fiquem com uma playlist de Bruce Springsteen para iniciantes: