opinião

Sonhos da Califórnia ao lado do Tom Petty

Um road trip ganha os contornos de lenda com a banda sonora perfeita.

Obrigado, Tom.

Em março do ano passado fiz uma roadtrip pela Califórnia e o Tom Petty foi a minha companhia. Não esteve sentado no banco, mas tocou tantas vezes nas rádios californianas que se impôs na banda sonora da viagem. Numa altura em que se multiplicam as homenagens ao músico que personificava o coração americano pré-11 de Setembro (quando a amabilidade e o espírito aventureiro se sobrepunham à paranóia do desconhecido), recordo a crónica da viagem que escrevi na altura. Uma crónica que não é sobre Tom Petty, mas onde ele é acidentalmente personagem principal.

Porquê fazer uma roadtrip? Olhamos à nossa volta e temos sempre aquele amigo que recusa o Algarve, em favor de uma destas viagens no âmbito do insano. Doido, este gajo. Não são as férias um tempo para descansar? Tiramos 5 dias para fugir ao inferno da empresa e vamos fazer 3000 quilómetros em estradas desconhecidas, a conduzir um carro que não é o nosso, a puxar o corpo aos limites e a correr riscos que evitamos na nossa vida mundana? Todo o tempo da nossa vida que perdemos parados em semáforos, não será ele suficiente?

Quando se trata da clássica roadtrip pela Costa Vicentina, o pior que nos pode acontecer é ter que chamar a Assistência em Viagem e regressar a casa mais cedo com um taxista fala-barato do Sporting, que passa duas horas a queixar-se das arbitragens. É chato, sim, mas o risco é controlado. Mas quando se viaja para o outro lado do mundo para se fazer milhares de quilómetros no deserto, por vezes de noite, por vezes sozinho, por vezes a desafiar a capacidade do depósito e a própria segurança, qual é a motivação? Chegar ao destino? Ver os sunsets? Contar aos amigos? Não, não e não. Não para mim. Para mim, são os quilómetros.

Para mim, são as horas ao volante, fazer quilómetros e mais quilómetros a pensar na puta da vida. É na solidão do volante que eu procuro respostas aos meus anseios. Voei de Lisboa para o Canadá, conduzi até Nova Iorque, voei novamente para Los Angeles para ver 4 concertos (essa história fica para outro dia), mas o ponto alto da minha viagem foi quando me deram o jipe para as mãos e eu lhe fiz milhares de milhas de rodagem. À estrada batida com o jipe, às ansiedades ali rogadas, o volante retribuiu-me com o conforto que só uma máquina solitária, cega, surda e muda pode oferecer.

Fazer-me à estrada em São Francisco – com destino a Las Vegas – só com um mapa ao lado. GPS? Para meninos. Ligar o rádio, sintonizar numa qualquer estação Rock da Southern California e viajar nas ondas FM. Toca Tom Petty, música de estrada; tocam os Fleetwood Mac, música a cheirar a Califórnia; tocam os Eagles, já estou no deserto. O cenário lá fora é ermo, estão 35º e um nada infinito enche a minha visão. 

Saio da Interstate e aventuro-me por uma estrada secundária. Esta ainda vem no mapa, corto para um caminho não cartografado para ver onde me leva. As redes já foram, nem telemóvel, nem planificação, nem segurança, nada. Estou entregue a mim mesmo e a uma rádio californiana, que já só sintoniza aos soluços. A última bomba de gasolina foi há mais de 100 milhas, o depósito já não vai para cheio e não há vestígios de vida à minha volta. A água já deu o canto do cisne. Sobra uma Coca-Cola quente, a marinar há 3 horas no sol do deserto (é, literalmente, a última Coca-Cola do deserto).

No silêncio opaco do deserto, parece que consigo ouvir a voz de Tom Petty ao fundo, a emanar do planalto raquítico do Mojave. E ouço mesmo, é o rádio que voltou a sintonizar e o Tom canta “Last dance with Mary Jane, one more time to kill the pain”. Sinto que estou a ter um momento para a eternidade.

A escolha da música numa roadtrip é mais importante que a escolha do carro e do motel. A soma da banda sonora e da paisagem lá fora é o que faz a viagem, é o que fica para sempre. Desde que voltei, sou propositadamente perseguido pela banda sonora das minhas férias. No banho, a fazer a A5 para o trabalho, sentado à secretária, só toca a playlist das minhas férias. Ouço o Tom Petty e lá vou eu automaticamente teleportado para o deserto de Mojave, perdido entre a Interstate e o Zabriskie Point. Estou de volta à Califórnia, a ouvir Guns na Sunset Boulevard ao volante do meu jipe, meu companheiro de viagem que abandonei cruelmente no rent-a-car do aeroporto LAX.

No fim, a roadtrip ganha contornos de lenda, marca a nossa existência como Jesus Cristo marcou o calendário gregoriano e o tempo começa a contar em anos antes da roadtrip e depois da roadtrip. A lenda vive e a chuva que se abate teimosa e castigadora sobre Lisboa só me traz sonhos da Califórnia. Tal como no tema dos Mamas And The Papas, mal fecho os olhos, sinto-me seguro e quentinho –  “California dreaming, on such a winter’s day.” E daqui a 10 anos, quando “Mary Jane’s Last Dance” voltar a rebentar nas colunas, os quilómetros voltarão a passar a milhas e aí poderei contar a lenda da roadtrip na Califórnia aos meus filhos, sentados no banco de trás do meu jipe, onde um dia o Tom Petty me fez companhia.

Obrigado pela banda sonora das minhas roadtrips, Tom. Vemo-nos aí na estrada.

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