À Procura do Pior Filme de Sempre: “The Room”

Cuidado: o filme desta semana redefine o significado das palavras “mau”, “bom” e “cinema”.

Saiu na passada semana o teaser do próximo filme de James Franco, escrito e realizado pelo mesmo, chamado “The Disaster Artist”. Baseia-se num livro com o mesmo nome, que relata a relação pessoal de um jovem actor com Tommy Wiseau, um sujeito conhecido por ter escrito, produzido, realizado e interpretado o quase-indescritível “The Room”. O motivo de interesse aqui é a reputação deste enquanto pior filme de sempre.

Sempre soube que o “The Room” seria um forte concorrente do “À Procura do Pior Filme de Sempre” e fico feliz por poder anunciar que ultrapassa as expectativas. É um desfile de más decisões épicas, incoerências bizarras e incapacidades técnicas que se…completam? Talvez esteja a pagar finalmente a fatura psicológica de ter inventado esta rubrica, mas confesso aqui a minha admiração pelo que o “The Room” consegue fazer. Assumindo a possibilidade de alguém retirar esta frase do contexto, arrisco dizer que há algo de transcendente nesta obra. O autor Tommy Wiseau conseguiu, de alguma forma, produzir um filme terrível com uma sinceridade impressionante: somos transportados para a cabeça dele durante quase duas horas. A questão é que Tommy Wiseau é uma das pessoas mais estranhas que já trabalhou em cinema e a sua cabeça tem muito que se lhe diga.

O “The Room” é uma espécie de melodrama sexual, com momentos dramáticos e algum surrealismo não intencional à mistura, embalado numa tragicomédia bacoca. Tommy Wiseau faz de Johnny, que está noivo de Lisa, que percebe que, afinal, está aborrecida e apaixona-se por Mark, que é o melhor amigo de Johnny. Eles começam a ter um caso e Johnny desconfia que algo se passa. Pelo meio, há algumas personagens que não têm função definida, como a mãe de Lisa, um adolescente de 23 anos chamado Denny, um psicólogo amigo interpretado por dois actores diferentes e mais uns quantos irrelevantes. Mas o que importa aqui não é a narrativa incongruente, mas sim as peças soltas. Que são muitas. Há situações que aparecem e desaparecem, como o famoso diálogo em que a mãe de Lisa revela ter cancro da mama a meio de uma conversa, com a casualidade de quem se queixa de varizes (Lisa tem uma reação do género “então, força aí”, antes de continuar a relatar os seus problemas). Ou o traficante que ameaça o pequeno e esquisito Denny, que se meteu em negociatas com droga e agora deve dinheiro a alguém. Estas coisas surgem do nada e nunca mais se fala nelas, fruto de um guião obviamente inventado à medida que gravavam, tão rapidamente escrito quanto esquecido. E é genial, à sua maneira. Às vezes excruciante, mas sobretudo genial.

Penso que é justo dizer que Tommy Wiseau tem aqui uma das piores interpretações da história do planeta Terra. O sotaque exótico, o exagero constante em tudo o que faz e a sua própria aparência fazem dele uma ave rara nesta gaiola a que chamamos vida real. Os outros atores são amadores que parecem mais interessados em pensar no que vão fazer para jantar. Os cenários são risíveis, com especial destaque para o terraço com o pior fundo verde que já vi. O trabalho de câmara alterna entre o mau e o desfocado. A cinematografia não começa mal de todo mas vai piorando drasticamente no final, porque os técnicos se foram apercebendo no que estavam metidos e acharam que o filme nunca iria sair. As músicas que aparecem nas sequências sexuais poderiam aparecer num filme pornográfico manhoso e o facto de Wiseau ter decidido editar duas dessas cenas distintas com os mesmos planos torna tudo ainda mais engraçado. Last but not least, há molduras com colheres. Sem razão nem propósito.

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