À Procura do Pior Filme de Sempre: “Emoji: O Filme”

O filme com a narrativa mais estúpida e desinteressante da história. 

O emoji do cocó é o que melhor simboliza este filme.

Da mesma forma que tantos condutores por essas estradas fora tendem a abrandar de forma desnecessária para avaliar um acidente, também eu senti esse impulso neste verão. E aconteceu com um filme que, não fugindo à metáfora, parece um acidente dos feios. Falo do triste “Emoji: O Filme”, que foi motivo de notícia por ter sido universalmente desprezado pela crítica, conseguindo a proeza de ter zero por cento no site Rotten Tomatoes durante algumas semanas.

Ora, tendo em conta que me dedico a procurar o Pior Filme de Sempre nesta crónica, é natural que esse zero mágico tenha merecido a minha atenção. Peço então desculpa aos condutores que vêm atrás e estão com pressa de chegar a casa: decidi abrandar o carro para ver o “Emoji: O Filme”.

O filme conta a história de Gene, um emoji que vive em Textopolis, uma sociedade populada pelos bonecos e figuras que conhecemos tão bem dos nossos telemóveis. Neste mundo unidimensional é suposto as personagens limitarem-se à sua função básica quando chamadas ao serviço e nada mais. O emoji triste tem que ser triste, o emoji surpreso tem que viver num espanto permanente e a beterraba…é uma beterraba. As regras são simples.

Como Gene não se encaixa nesse perfil por ser capaz de exprimir várias emoções diferentes, é obrigado a fugir do seu mundo-aplicação e procurar a ajuda de uma hacker chamada Jailbreak (como o software que desbloqueia aplicações pagas) para o reformatar, transformando-se assim num emoji normal. Juntos, viajam pelo mundo pouco fascinante das aplicações no telemóvel de Alex, um rapaz da vida real que está com dificuldade em exprimir a sua paixão por uma rapariga da escola.

Contado assim, não parece haver nada de mais, apenas mais uma história genérica e inofensiva. E até nem está mal lembrado, dar vida a uma coisa tão banal quanto os telemóveis. Só que a novidade da ideia esgota-se nos primeiros cinco minutos e tudo o que resta é uma hora de piadas sem graça e uma entrega despreocupada ao mais agressivo product placement de que há memória. Somos bombardeados com a “magia” do mundo do Candy Crush, Spotify, Instagram, Dropbox. Aparecem todos, em segmentos rápidos — para não aborrecer os miúdos, que é suposto não terem atenção nenhuma — como lugares que Gene e Jailbreak visitam.

O pássaro do Twitter aparece como uma personagem. O emoji de high five, uma mão “divertida” que acompanha os heróis, tem que fugir da pasta da reciclagem. Há um segmento de dança num jogo chamado “Just Dance Now” que está, naturalmente, na app store mais perto de si. É de borla, com compras integradas e promete ser “conforme visto em The Emoji Movie”. (suspiro)

O “Emoji: O Filme” é uma check list básica de tudo o que temos num telemóvel, à volta do qual se inventou uma narrativa fraquinha e desinteressante. Reformulo: estúpida e dolorosamente desinteressante.

O filme tem o lustro próprio das animações 3D feitas com grande orçamento, mas nem isso consegue desenrascar uma história tão pobre. E o final do filme consegue baixar a fasquia do ridículo: o jovem Alex consegue finalmente ultrapassar os seus problemas sociais e exprimir uma série de sentimentos à rapariga de quem gosta através de — adivinharam — um “emoji especial”, que é Gene. Longe vão os dias em que se usava poesia, uma serenata ou até rosas, senhor. Nada disso; para os argumentistas deste péssimo filme, o arco narrativo daquela personagem só teria resolução possível através de um boneco que usa mais de uma expressão, transmitindo assim uma série de emoções complexas. E, assim, a rapariga deixa-se encantar por um emoji que recebeu por sms, que é “muito fixe”. É uma ideia francamente irritante, assim como todo o filme.

O espírito do filme num só frame.

Admito que não estava preparado para o nível absurdo de cinismo que dá cor a esta bonecada. Mesmo o inacreditável “O Meu Amigo Mac“, com as suas referências pouco subtis à McDonalds e Coca-Cola, parece mansinho ao pé do “Emojis: O Filme”. O responsável é Tony Leondis, um tipo com um currículo curto e pouco impressionante que decidiu pegar no que percebeu do “Toy Story” e aplicar isso ao seu smartphone e a todas as maravilhosas marcas associadas. Junto com Eric Siegel, montaram um esboço de ideia que venderam por Hollywood e que originou um guerra de licitações entre a Warner Bros., a Paramount e a Sony Entertainment. Os últimos ganharam e puseram a máquina de marketing a trabalhar, começando por vender imediatamente espaço no filme a empresas interessadas e só depois trabalhando no guião.

Aquando da estreia, o realizador Tony Leondis tentou passar a ideia de que “Emoji: O Filme” era uma expressão pessoal das dificuldades que sentiu quando cresceu por ser homossexual, mas o próprio conceito é um insulto à inteligência do espetador: se o guião é literalmente escrito à volta das empresas que patrocinam o filme, impingir o dito como uma coisa muito pessoal é como dizer que o Maxi Pereira foi para o Futebol Clube do Porto por amor à camisola. Como Leondis parece ter pudor em admitir a realidade, eu digo-a aqui: “Emoji: O Filme” foi feito exclusivamente para ganhar dinheiro e tem zero interesse artístico. E o mais triste é que sim, fez dinheiro e vendeu bonecos, o que não augura nada de positivo para a indústria.



Claro que falamos de um filme de animação e o importante “é que os miúdos gostem”. Mas usar esse argumento para defender um produto como o “Emoji: O Filme” é como defender um Big Mac enquanto refeição nutritiva. E isso não faz sentido num mundo onde existe o “Divertida-mente” (que é genial) ou os muitos filmes de Hayao Miyazaki para mostrar à garotada.

Ou, um melhor exemplo ainda, “O Filme Lego“, porque prova que é possível fazer um filme de qualidade mesmo com uma intenção comercial declarada. Em relação aos Piores Filmes de Sempre, este não merece sequer entrar na categoria. Não há nada de inocente nem ingénuo aqui, não há nenhum tipo de prazer a retirar do “Emoji: O Filme”, exceto enquanto coleção de cores chamativas. A nós, espetadores conscientes, não só nos resta como nos compete proteger as gerações futuras deste anúncio de oitenta minutos, espetar um pau afiado no seu coração capitalista e esperar que não se erga do caixão. Como dizem os ingleses, good riddance.

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