À Procura do Pior Filme de Sempre: “Batman e Robin”

Até George Clooney tem vergonha de ter entrado no filme Joel Shumacher.

Até os fatos são maus.

Há muitos poucos filmes que eu possa dizer que odeie. Tão poucos, que na verdade só me ocorre um. Foi a primeira vez que um filme me partiu o coração, a primeira vez que me arrependi de pagar por algo, a primeira vez que senti necessidade de dizer a toda a gente para não ver um filme. Permitam-me que faça desta crónica uma sessão de psicanálise improvisada enquanto relato o choque que foi ver o “Batman e Robin” de Joel Schumacher quando tinha onze anos.

Há meses, uma pessoa amiga teve uma aventura no Bairro Alto que me providenciou a melhor metáfora para este filme: o rapaz deixou cair a aliança de casamento numa sarjeta funda na Rua da Atalaia. Então, possuído de um medo terrível do que lhe iria acontecer ao chegar a casa, ele retirou a grade e enfiou-se naquele abismo de nojo e desgraça, à procura do anel. E esteve cerca de vinte minutos a retirar porcaria cá para fora, enquanto lhe seguravam as pernas para não cair lá para dentro. Foi uma imagem inesquecível. A história teve um final feliz porque, contra todas as probabilidades, ele acabou por encontrar a aliança. Toda a rua festejou, gravaram-se vídeos, desconhecidos bateram palmas. Bebeu-se cerveja.

Pois bem, esta situação captura a essência de “Batman e Robin”, se retirarem a aliança e o final feliz da equação. É um filme-abismo, entupido de lodo viscoso e impróprio para contacto humano. Se fosse um quadro, seria a famosa reconstrução de “Ecce Homo” que a espanhola Elia Garcia Martínez arruinou. Se fosse uma música, seria o som de uma criança de quatro anos a bater panelas incessantemente. E se fosse um objeto, seria simplesmente uma poia.

Mencionei que o filme me partiu o coração no início do texto, mas não expliquei o porquê. “Batman e Robin” saiu em 1997, numa época onde praticamente não havia filmes de super-heróis. O mundo ainda não pertencia aos geeks e faltavam três anos para estrear o filme que provocou a grande mudança (“X-Men“, de Bryan Singer). 1997 foi, aliás, um ano particularmente mau para os fãs de banda desenhada, que também foram presenteados com o péssimo “Spawn – O Justiceiro das Trevas”. Estes falhanços sucessivos eram francamente irritantes para mim, que tanto gostava das publicações da Abril/Controljornal.

E se o fraco “Batman Para Sempre” já tinha sido uma desilusão, quando vi o “Batman e Robin” fiquei revoltado. Foi um choque para mim perceber quão agressivamente mau era aquele filme. Pensei que era o fim dos filmes de super-heróis. E foi, pelo menos para a personagem, visto que o franchise morreu e só ressuscitou passados oito anos, com “Batman – O Início” de Christopher Nolan.

Mais que um adereço, isto foi a marca “Batman” a bater no fundo.

E afinal, que tem o “Batman e Robin” de tão mau? Antes de mais, foi realizado pelo veterano Joel Schumacher, um sujeito que fez carreira a diminuir sistematicamente a qualidade de alguns filmes que poderiam ter sido bons. Schumacher é um dos realizadores com pior gosto visual a trabalhar em cinema e o seu estilo é insuportável. Mas, enfim, aparenta ser um tipo profissional e consegue acabar um filme dentro do orçamento previsto, o que lhe foi garantindo trabalho ao longo dos anos.

Depois, o guião é de Akiva Goldsman, um argumentista especializado em adaptações miseráveis para maus blockbusters desde 1994. Goldsman, tal como Schumacher, construiu uma carreira à base de bons contactos e sorte. A palavra “talento” não se aplica aos dois. Foi, portanto, uma espécie de tempestade perfeita quando se reuniram para fazer uma versão ainda mais comercial e estupidificada de “Batman Para Sempre”, a que chamaram “Batman e Robin”. Pensem neles como uma versão em negativo de John Lennon e Paul McCartney, aplicada ao cinema.

A história do filme pode ser descrita como “mentecapta”, se formos generosos. Os diálogos são tão maus que merecem um texto à parte, com especial atenção para os trocadilhos idiotas que escreveram para Arnold Schwarzenegger. A banda sonora é uma cópia desinteressante dos filmes anteriores, pontuada com percussão aborrecida. O tema visual do filme é “Pesadelo Desagradável no Carnaval do Rio de Janeiro”, as cores são feias e a proporção das coisas não faz grande sentido. Assim como o subtexto homo-erótico completamente despropositado que Schumacher forçou no filme, que ganha expressão maior nos infames bat-mamilos.

Pois. É isto mesmo que estávamos a falar.

As leis da física e lógica não se aplicam ao universo de “Batman e Robin”, o que não é surpresa se repararmos que o filme tem efeitos sonoros iguais aos desenhos animados da Looney Tunes — há situações onde alguém atira uma pessoa e se ouve um “iiiiuuuupi!” infantil ridículo. O elenco foi montado para alimentar o mercado das action figures, tantas são as personagens. George Clooney faz de Batman, Chris O’Donnell de Robin, Alicia Silverstone de Batgirl, Arnold Schwarzenegger de Mr. Freeze, Uma Thurman de Poison Ivy e todos eles teriam feito melhor figura quietinhos no sofá de casa. Depois, há a personagem de Bane, que na banda desenhada era um vilão que destrói Batman de forma metódica e calculista ao longo de vários meses e que aqui se resume a um tipo musculado, com grunhidos em vez de diálogos. O que faz dele a perfeita representação de “Batman e Robin”, se pensarmos nisso.

Muitos anos depois do lançamento do filme, Joel Schumacher pediu desculpa em público pelo filme que realizou. Duas vezes. E George Clooney também. No entanto, mesmo depois de ver estes vídeos, acho que não chega. Há algo que me falta para apagar definitivamente o trauma de infância que foi o meu primeiro contacto inesperado com um dos piores filmes de sempre. Mas a solução é simples: se algum dia estiver frente a frente com Joel Schumacher ou Akiva Goldsman, vou pedir-lhes os 400 escudos do aluguer do “Batman e Robin” (2€). Repescando a história da sarjeta, acho que seria esse o anel possível.

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