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Vi “Acumuladores” e é tão nojento que até os ratos deviam querer mudar de casa

O humorista e cronista da NiT Miguel Lambertini comenta o programa que é transmitido na SIC Mulher.
A oitava temporada tem estado a ser transmitida na televisão portuguesa.

Sabem aquela pasta da Optimus com recortes de receitas, que têm guardada numa gaveta há 12 anos porque acham que um dia ainda vão querer aprender como se faz um vol-au-vent de camarão? Deitem fora. Eu sei que estão organizados por ordem alfabética e grau de dificuldade de confeção, mas, além de estar a ocupar espaço desnecessário, já nem faz sentido em 2019 — porque há 1500 vídeos no YouTube e 300 apps com receitas que servem o mesmo propósito. 

Todos temos um pouco de acumuladores em nós. Uns acumulam cuspo no canto da boca, outros acumulam sapatos no closet — como a minha mulher — e há também aqueles mais espertos que acumulam dívidas de milhões, mas que não são suas, como Joe Berardo. Depois há casos mais extremos como os que são apresentados no programa “Acumuladores”, cuja oitava temporada tem estado a ser transmitida na SIC Mulher.

No primeiro episódio ficámos a conhecer a história de Judy, uma senhora de meia idade que vive em Washington, nos EUA, e é uma acumuladora. Judy teme que os serviços de saúde pública a obriguem a sair de casa e por isso pediu ajuda. Quando refiro casa, estou, na verdade, a usar um eufemismo, porque Judy vive num ninho de ratos, literalmente. O lixo acumulado naquele pequeno espaço é tanto que há dezenas de ratos a passear livremente como se estivessem às compras no Amoreiras dos ratos, o Ratoeiras.

Desde montanhas de papéis a roupa, passando por loiça imunda e comida podre, o cenário é tão asqueroso que até os próprios ratos devem dizer “Speedy, não comas isso, tem um ar nojento, podes apanhar doenças!”. Judy pode ser um pouco desarrumada, que é como quem diz chalupa, mas não pode ser acusada de ser insensível. Isto porque ao longo do tempo em que foi partilhando o seu lar com os roedores, foi-lhes ganhando afeição ao ponto de neste momento não os querer matar. Eu percebo, acontece-me exatamente o mesmo com uns vizinhos que põem o volume da televisão aos berros, mas entretanto a pessoa afeiçoa-se e agora já não me apetece matá-los.

O mais surreal no meio deste mundo tóxico que é a vida de Judy, é que, além de ser acumuladora, a senhora é também germofóbica. Não faz sentido viver rodeada de porcaria e ter medo de germes. Era o mesmo que o André Ventura mudar a sede do seu partido para um acampamento de ciganos. Eu acho que a Judy é uma calona e foi é muito esperta: quando percebeu a trabalheira que ia ser limpar aquela casa inventou que tinha um medo patológico, “desculpem mas se há coisa que eu não consigo é tocar em coisas cheias de germes. Agora dêem-me licença que eu vou só ali ao espaço onde em tempos foi uma casa de banho, para dar este bocado de bolo-rei do Natal de 1984 aos meus ratinhos”.

Para tentar resolver este caos, o programa disponibiliza os serviços de um especialista em transtorno de desarrumação. Neste caso trata-se do psicólogo clínico David Tolin, que é uma espécie de Cesar Millan dos acumuladores. Já foi mordido algumas vezes mas consegue manter a calma necessária para mudar o comportamento dos acumuladores sem ser preciso colocar um açaime. O psicólogo tenta fazer com que Judy entenda que é mais importante manter a saúde e a família do que os ratos, por mais felpudos que possam ser. Ainda assim, e apesar da insistência da filha e da neta para tentar convencer a senhora de que é uma má ideia viver numa lixeira, Judy está muito hesitante e passadas duas horas ainda só tinham conseguido deitar fora dois sacos do lixo.

“Isto é nojento, mãe”, diz a filha de Judy enquanto pega numa coberta imunda. “Eu sei que é nojento mas não deitem fora!” pede a acumuladora em desespero. “Porquê? Isto tem cocó e urina de rato!”, justifica a filha. “Eu sei, tudo tem cocó de rato, mas está bom, é só lavar…” Judy tem sempre uma desculpa para tudo estar bom para usar. Podia ter um corpo em decomposição no armário que ia dizer “eu sei que ele cheira mal, e tem larvas a sair pelas narinas, mas eu ainda o vou usar como espantalho, para afastar os corvos do quintal.”

No final, passado várias horas em que o psicólogo conseguiu fazer poucos progressos, a equipa acaba por abandonar o local, apenas com uma limpeza superficial. Já Judy conseguiu não mexer uma palha e vai continuar a viver feliz naquela pocilga, até ao dia em que escorregar numa garrafa de Pepsi e aí os ratos fazem o banquete da vida deles. Isto se entretanto os roedores não decidirem ir viver para um local mais asseado, como os esgotos de Washington, por exemplo.