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“Uma Traição Necessária”: a história sonolenta da espia

A narrativa da inglesa agente do KGB é entusiasmante, menos quando filmada ao ralenti e sem emoção. Leia a crítica da NiT.
Está nos cinemas.
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Quando ouço a palavra espião, assalta-me de imediato a ideia das perseguições intermináveis de James Bond. O primeiro da infinita série é de 1962, chama-se “007, O Agente Secreto”. É o escocês Sean Connery a dar o ar de sua graça. Nesse filme, Sean beija umas mulheres aleatoriamente, mata uns quantos vilões e diz uma vez “My name is Bond, James Bond”. Começa aí a marca registada. Do James Bond. Que é Sean Connery, o maior.

Um ano depois (1963), Sean faz “007, Ordem para Matar”. Aí envolve-se com duas mulheres e mata quatro vilões. Da frase lendária, nem ai nem ui, muito menos um oi. Voltaria a soar em 1964, com “007 Contra Goldfinger”, entre duas mulheres e nove maus-da-fita. O número aumentaria significativamente em 1965, no “007, Operação Relâmpago” (três mulheres, uma frase e 16 vilões). No “007, Só Se Vive Duas Vezes”, quatro mulheres, zero “Bond, James Bond” e 18 vilões. No último filme de Sean (“007, Os Diamantes São Eternos”), em 1971, a tática é 1-1-5. Ou seja, em seis filmes, 16 senhoras, 56 vilões e quatro vezes a frase, essa mesmo.

Esquecemo-nos de um pormenor de propósito: como estamos de martinis? Uiiiiii. Há cientistas ingleses a dizer que Bond bebe bem acima do permitido pelo Serviço Sanitário Britânico. Qualquer coisa como 93 doses de álcool por semana, mais de quatro vezes o limite máximo recomendado. É perturbador, pois está claro. Mais ainda para quem tem de salvar o mundo dia sim dia sim, com uma pistola na mão e outra sabe-se lá onde.

Nunca vou muuuuito à bola com o 007, mas tiro-lhe o chapéu à rapidez de movimentos e elasticidade de ação. Que aquilo tem ritmo, lá isso tem. Quando entro na sala para ver “Uma Traição Necessária” — nas salas portuguesas desde quinta-feira, 16 de maio —, o tema de espiões anima-me, o cenário da 2.ª Guerra idem idem, a história verídica aspas aspas. Só que chapéu. Nada de nada. É uma pasmaceira. Só visto, contado nem se acredita. O tom adoptado por Trevor Nunn (79 anos de idade) é muito novelesco e adormece a plateia com uma ação arrastada, sem vivacidade.

O enredo é baseado no livro “Red Joan”, de Jennie Rooney, e conta a história verídica de Melita Norwood, uma inglesa de Bournemouth ao serviço do KGB durante 40 anos, desde 1937, pouco antes do início da 2.ª Guerra. A senhora só é desmascarada em pleno século XXI. Os ingleses, sempre carregados de humor, catalogam a senhora de 90-e-poucos-anos como “Granny Spy”. Ela é Judi Dench (cinco anos mais velha do que o realizador) e aparece poucochinho. Porque é tudo à base de flashbacks, com a Melita mais nova em ação (Sophie Cookson), enquanto estudante de física em Cambridge.

É lá que conhece o alemão judeu Leo Galich (Tom Hughes) e a amiga namoradeira Sonya (Tereza Srbova). Começa a frequentar os comícios políticos dos comunistas e, às tantas, já está tão dentro da panela de pressão que se entrega à espionagem como quem não quer a coisa, numa altura em que os ingleses encontram o caminho para o fabrico da bomba atómica. No outro lado do mundo, a URSS também. A coincidência é suspeita, o mundo está em suspenso. Na nossa cabeça, só. No filme, as cenas passam umas a seguir às outras desligadas de emoção. Tal como o título do filme. Uma Traiçzzzzzz. Sono, muito sono.