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“Síndrome de Estocolmo” é um filme leve — demasiado leve

O Nobel da Literatura, Bob Dylan, canta e encanta nesta história, com interpretações sustentáveis de Noomi Rapace e Ethan Hawke.
Estreia a 8 de agosto.
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Estocolmo é uma das cidades europeias mais bonitas. Palavra de honra. A minha, vá. Os canais, as ruas envolventes, os becos escondidos, os jardins encantadores, as lojas, a tranquilidade das pessoas, a limpeza nas ruas, a leveza dos transportes e, claro, o museu Vasa. Tudo é majestoso e irradia beleza sem esforço nem riquismo bacoco. Sonho de olhos abertos com um regresso à capital sueca. Nem que seja com imagens breves num filme leve, demasiado leve, apenas sustentado pela interpretações boas de Noomi Rapace, Ethan Hawke e Mark Strong. “Síndrome de Estocolmo” estreia em Portugal esta quinta-feira, 8 de agosto. 

A ação é uma história verídica que se passa em agosto de 1973, quando Jan-Erik “Janne” Olsson entra encapuzado e armado com uma metralhadora e explosivos na filial do Kreditbanken, na praça de Norrmalstorg, no centro de Estocolmo, e faz quatro reféns. Olsson é Ethan Hawke, um homem empenhado em sair a bem do banco, acompanhado pelo amigo presidiário Clark Olofsson (Mark Strong) mais três milhões de coroas suecas e um carro Mustang, ao estilo Steve McQueen.

O objetivo da fuga é Paris, em França. Durante seis dias, o assaltante, o presidiário e os quatro reféns (duas mulheres e dois homens) convivem às mil maravilhas, contam histórias uns dos outros e até jogam às cartas. Lá fora, a polícia sueca tenta apertar o cerco à sua maneira, apoiada pelo primeiro-ministro de então, o carismático Olof Palme.

Nesse parêntesis temporal, os reféns desenvolvem um carinho especial pelos maus da fita. Que não o são. Quer dizer, são. Mas não são. Esquisito? Nada disso, é só a Suécia a dar mais uma lição de civismo. Para quê dramatizar uma ação sem drama? Em momento algum, os reféns sentem-se ofendidos ou mal tratados. Muito pelo contrário.

Na vida real, a sequestradora Kristin diz isso mesmo à polícia, por telefone. “Confio plenamente nele e faria uma viagem à volta do mundo, sem problema.” Ao sexto dia, a polícia lança gás lacrimogéneo através de um buraco feito no andar de cima e acaba-se a trama. Qual quê, nada disso. Os reféns só saem do banco ao mesmo tempo que os raptores e ainda os visitam à prisão.

A criminologista Nils Berejot, em estrita colaboração com a polícia durante os seis dias (e noites), inventa então o nome Síndrome de Estocolmo, mundialmente conhecido há mais de 40 anos. E que serve de mote para tantos filmes da nossa vida, como “Um Dia de Cão”, de Sidney Lumet (1976); “Ata-me”, de Pedro Almodóvar (1990); ou “Três Dias do Condor”, de Sidney Pollack (1975). Há mais, claro. Eles andem aí, os da Síndrome. E uns ouvem Bob Dylan à exaustão. É o caso da personagem interpretada por Ethan Hawke, sempre com o rádio debaixo do braço a tocar o Nobel da Literatura.

Leia mais sobre a história real (e surreal) de como foi inventado o Síndrome de Estocolmo.