opinião

A saga dos irmãos Gallagher tem novo episódio e este é digno do Seinfeld

Neste novo capítulo, os Gallaghers vêem-se nos lugares opostos aos que nos habituaram.

As You Were e As You Weren't

No último episódio da quinta temporada de Seinfeld – “The Opposite”, um dos melhores da série –, tudo acontece ao contrário. George Costanza decide ignorar os seus instintos e começa a fazer o oposto do que normalmente faria. Em resultado, ele ganha a miúda gira, enfrenta os bullies e consegue o emprego nos Yankees. Ao mesmo tempo, tudo começa a correr mal à normalmente bem-sucedida Elaine, que perde o trabalho, o namorado e a casa. Enquanto esta inversão de forças acontece, tudo parece equilibrar no mundo de Jerry, que continua com um amigo bem-sucedido e outro desgraçado, só que agora ao contrário. O mundo dos Gallaghers nos últimos meses em tudo se assemelha a este episódio de Seinfeld.

Desde que os Oasis se separaram em 2008, parecia que a História estava escrita para os irmãos Gallagher. Noel era o compositor e principal força criativa nos Oasis e por isso seguiria naturalmente para uma carreira a solo triunfal. Liam, por seu turno, era “só” o cantor enraivecido da banda e por isso estava destinado a falhar miseravelmente nos seus projectos a solo. A História imediata deu razão a estas previsões, com o sucesso dos dois primeiros álbuns de Noel e a irrelevância dos trabalhos dos Beady Eye. Quando Liam acabou com os Beady Eye e se refugiou em casa durante anos a fio, parecia inevitável que o seu fim tinha chegado e que só a mão do mano mais velho o poderia salvar, com um eventual regresso nostálgico dos Oasis. Só que um dia Liam percebeu que a sua vida se tornara no oposto do que ele queria que fosse e como tal levantou o rabo do sofá e escreveu “Bold” (aqui ouvida pela primeira vez num pub irlandês em Julho de 2015). E tudo mudou.

“Here’s your chance to try the opposite. Instead of tuna salad and being intimidated by women, chicken salad and going right up to her”

O que se passou a seguir é digno de um episódio escrito por Jerry Seinfeld e Larry David. O caído-em-desgraça Liam amadureceu e apostou tudo num regresso mad fer it para o seu primeiro álbum a solo. Em Agosto de 2016 assinou um acordo com a Warner e declarou-se oficialmente “a cunt”  (consistente com o que ele sempre chamou aos artistas a solo). O buzz foi crescendo ao longo dos meses até ao seu primeiro concerto em nome próprio em Maio deste ano e subsequente anúncio do álbum “As You Were” em Junho. A partir daí, Liam começou a aparecer em tudo o que era rede social e mostrou que vinha diferente – mais calmo, mais maduro e mais afável. De repente, instalou-se um ciclo positivo e tudo começou a correr bem para o Gallagher mais novo.

Fast-forward alguns meses de trabalho árduo (Liam bateu a todas as capelinhas para promover o seu álbum) e, chegados a Outubro, “As You Were” é finalmente lançado debaixo de enorme hype. O álbum prepara-se para pulverizar as tabelas britânicas na sua primeira semana, vendendo mais que o somatório de todo o restante Top 10. Com um impressionante bolo de 103 mil cópias vendidas só nos primeiros dias, Liam fica apenas atrás de Ed Sheeran na lista dos álbuns mais vendidos de 2017.Liamania é tal (acho que acabei de cunhar uma palavra nova), que no Japão já há camiões luminosos com a cara de Liam, a bombar o “Wall Of Glass”. Se dúvidas houvesse, elas ficaram desfeitas – tínhamos mesmo saudades de Liam Gallagher.

No pólo oposto, Noel Gallagher. O irmão mais velho de Liam estava confortável na sua cadeira de Godlike Genius (foi o Johnny Marr que o disse), com uma carreira a solo extremamente bem sucedida e um estatuto imaculado de senador do Rock. Mas em determinado ponto, Noel perdeu o contacto com a realidade; a mesma realidade que ele tão bem retratou nos últimos 25 anos, fazendo dele a maior voz dos anseios da classe média das últimas décadas. Talvez por privar demasiado tempo com Bono e outras estrelas igualmente desligadas da realidade, esse Noel parece ter desaparecido.

Os sinais de estranheza começaram naquela incompreensível decisão de abrir para os U2 que irritou Liam de sobremaneira , ao ponto de acusar o irmão de fazer brownosing a Bono (se não sabem o que é, tentem visualizar e chegam lá). Ao sujeitar-se a este lugar de subalternização, Noel afectou o prestígio da marca Oasis (mesmo que não fosse essa a sua intenção) e por arrasto, o seu irmão mais novo. A partir daqui, Liam deixou de insultar Noel com a alcunha juvenil de “batata” e passou a acusá-lo de algo bem mais verdadeiro – Beige Boy. E de repente, tudo começou a correr mal a Noel.

Esta segunda-feira, três dias depois do lançamento supernovico (os fãs dos Oasis chegam lá) de “As You Were”, Noel decidiu dar a conhecer o primeiro single do seu novo álbum, a ser editado no próximo mês. Este é um modus operandi clássico de Noel, que no passado esperou sempre pelo lançamento dos Beady Eye, para a seguir esmagar o registo do seu irmão mais novo. Em circunstâncias normais, seria de esperar que Noel repetisse a façanha, mas este não parece ser o mesmo Noel que aprendemos a gostar.

“Holy Mountain” foi recebido por grande parte dos fãs dos Oasis em choque. O tema é altamente inspirado (para ser simpático) em “Ça Plane Pour Moi” dos Plastic Bertrand, com o refrão retirado a “She Bangs” de Ricky Martin e revela uma total alienação de tudo o que é cool e que sempre demos por garantido com o Noel. Parece que o toque de Midas esgotou desde que ele se tornou no Beige Boy que o irmão tanto o acusa. Para piorar, disse “fora de brincadeiras” que Liam precisa de ser visto por um psiquiatra. Ao contrário das alfinetadas hilariantes a que os dois irmãos nos habituaram, isto foi puramente maldoso. Quem precisa de ajuda neste momento não me parece que seja o Gallagher mais novo.

Noel parece desesperado para fazer algo que seja diferente, em detrimento de qualquer critério de qualidade que sempre adoptou na sua carreira. Notem que eu sempre defendi que ele era capaz de mais e melhor. Há muitos exemplos disso mesmo ao longo da sua carreira, em Lados B e temas que foi deixando na prateleira para apostar em material mais seguro. Já o critiquei extensivamente por se auto-censurar e bloquear essa evolução. Mas isto nada tem a ver com um “Teotihuácan” ou com um “Full On”, tem mais a ver com Ricky Martin. Isto não é experimentação, é um descarrilamento. É diferente, mas não no bom sentido.

“If every instinct you have is wrong then the opposite would have to be right”

Independentemente do hype a que Liam foi sujeito, confesso que as minhas expectativas eram muito baixas relativamente a “As You Were” e à medida que ouvia o álbum pela primeira vez, estava sempre à espera do momento em que aquilo fosse por ali abaixo. Mas nunca foi. Sem nunca inventar a roda (já sabíamos que tal não iria acontecer), o álbum é surpreendentemente sólido e tem dois ou três momentos de puro brilhantismo: “Bold” (Liam a despejar 4 anos de depressão), “For What It’s Worth” (um pedido de desculpas com violinos emprestados a “Whatever” dos Oasis que é “só” um dos temas do ano) e “It Doesn’t Have To Be That Way”, um dos melhores temas que Liam gravou nestas sessões e que foi criminosamente relegado para B-Side (reconhecem este padrão?). Curiosamente, este é um tema psicadélico que soa exactamente ao que o irmão mais velho se propôs a fazer e até ver, falhou miseravelmente.

Se olharmos para os números, o novo single do Noel entrou para o 70º lugar (?!) da tabela de singles, naquele que é o pior registo de sempre da carreira do Noel, com ou sem os Oasis, para um primeiro single. E já estou a contar com o “Supersonic”, que foi o single de estreia. Por outro lado, o Liam mete à frente do “Holy Mountain” três temas: “For What It’s Worth” (33º), “Greedy Soul” (56º) e “Bold” (60º), sendo que este nem sequer foi single. O Liam está a ganhar e de goleada. Os números valem o que valem, mas este resultado medonho do “Holy Mountain” é só um augúrio que o público não quer este Noel aburguesado. Talvez queria agradar os “kids” que gostam dos Coldplay, mas temo que os “kids” não se importem muito com o que ele ande a fazer.

Quando George Costanza disse a Seinfeld que decidira ignorar todos os seus instintos e começar a fazer o oposto, Jerry dificilmente poderia prever que desencadearia uma série de eventos que resultariam numa inversão de forças que atiraria Elaine para a miséria. O Jerry, aqui, sou eu e todos os fãs dos Oasis. E tal como Jerry, também nunca pensei que o (mais que merecido) regresso de Liam Gallagher à ribalta pudesse atirar Noel para a desgraça. Não acho que o público tenha que escolher um dos lados da guerra e defendo até que os fãs, como os filhos de um casamento que azedou, devem usufruir dos presentes a dobrar que agora recebem dos pais. A minha expectativa é por isso que “Who Built The Moon?” seja muito melhor do que a sua primeira amostra e que possamos desfrutar de dois grandes álbuns dos manos Gallagher este ano. Mas para isso temo que Noel terá que descer da Lua até à Terra novamente. As You Were.

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