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“Sabrina” é o caleidoscópio da nossa desumanização

A cronista Filipa Martins fala sobre o livro de Nick Drnaso — o primeiro do género a ser nomeado para o prémio Man Booker.

Trump acaba de ser eleito presidente dos Estados Unidos da América e Sabrina, uma mulher jovem apaixonada por gatos, é visitada pela irmã. Combinam, quase tacitamente, um passeio campestre; uma forma, concluem, de sair da cidade e da Internet. Sim, porque a Internet é uma geografia, ainda que mental. É a última vez que a irmã vê Sabrina, a mulher irá desaparecer da casa dos pais em Chicago. Assim, arranca “Sabrina” (Porto Editora, 2019), a novela gráfica de Nick Drnaso e o primeiro livro do género a ser nomeado para o prestigiado prémio Man Booker.

O que se segue não é uma história de crime ou de investigação policial. Trata-se de uma autópsia à sociedade-cadáver contemporânea e à sua crescente desumanização. Através de uma linguagem gráfica inexpressiva, acompanhamos as teorias conspirativas em torno do desaparecimento de Sabrina narradas sem sensacionalismo ou estridência.

O plot parece, aliás, servir outra história que merece ser contada, um enredo que tem como protagonistas a ansiedade coletiva, a paranóia securitária, as fake news e a desconexão numa sociedade ultra-conectada. Tudo relatado em tons pastel, sem emotividade, como se vivêssemos suspensos em bolhas que filtram qualquer sentimento autêntico vindo do exterior.