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Rupi Kaur: do lado certo do amor

Filipa Martins é nova cronista da NiT. A escritora vai passar a dizer-lhe quais são os livros ou edições novas que devia estar a ler.  O livro desta quinzena é “ O Sol e as suas Flores”.

“O Sol e as suas Flores” é o livro desta quinzena.

“Conselhos que teria dado à minha mãe no dia do casamento dela/Podes dizer que não”. A frase tem ecos de desconforto em qualquer latitude, mas ganha uma dimensão diferente quando escrita por uma jovem poeta, de 26 anos, filha de mãe indiana. A Índia, dizem as estatísticas dos organismos internacionais, é palco de um terço dos casamentos de crianças do sexo feminino que ocorrem todos os anos no mundo. A mãe de Rupi Kaur terá cruzado a sua biografia com esta realidade cruel e enraizada na sociedade indiana.

Kaur é um fenómeno mundial, tendo começado a dar que falar nas redes sociais através da sua conta de Instagram. Ganhou notoriedade com curtos poemas visuais, que a própria ilustra. Atualmente, está traduzida em mais de 35 línguas, ultrapassou as cem semanas consecutivas como número 1 do top de vendas do New York Times e foi considerada pela Forbes uma das mulheres mais influentes do mundo abaixo dos trinta anos.

A primeira vez que contatei com o nome Rupi Kaur, o primeiro livro da autora – Milk and Honey – forrava as duas montras principais da Foyles em Londres. Atraída pelo título – copiado de uma música folk de Jackson C. Frank dos anos 60 – e pela capa sóbria (cuja elegância é replicada na edição portuguesa também editada pela Lua de Papel), trouxe para Portugal um exemplar. Rupi não é uma escolha consensual do ponto de vista literário.

A forma simples, por vezes simplista e algo óbvia, como trata temas como as relações, o amor ou o papel da mulher já lhe valeu o epíteto de poeta pueril. Mas, por outro lado, tornou-se quase embaixadora de uma nova geração, que não lê poesia, e é impossível dissociá-la de movimentos que ganham expressão mundial como o #metoo.