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opinião

“Rocketman”, o filme que é tudo aquilo que “Bohemian Rhapsody” não conseguiu ser

O musical mais esperado do ano visto à lupa por um fã do Elton... e dos Queen.
Taron Egerton voa como Elton John em "Rocketman" — Paramount Pictures

“I don’t live my life in black and white (Não vivo a minha vida a preto e branco)!”, atira Elton John à sua mãe, numa das cenas-chave de “Rocketman” que define o tratado do filme e de toda a vida de Elton. E que também resume a diferença fundamental entre “Rocketman” e “Bohemian Rhapsody”

Saídos do berço do mesmo realizador — Dexter Fletcher — com menos de um ano de diferença, as comparações entre “Rocketman” e “Bohemian Rhapsody” são inevitáveis. Começando logo pela base do enredo que, se substituirmos Freddie por Elton e Bernie Taupin pelos restantes Queen, é inusitadamente similar. Nada que eu não estivesse à espera, diga-se (não fiquei muito longe na minha aposta para o plot) — Fletcher encontrou uma fórmula ganhadora e não mexeu. Mas as semelhanças com “Bohemian Rhapsody” não vão muito além da superfície. Se escavarmos mais um pouco, percebemos que há muito mais profundidade em “Rocketman”.

Disse logo que confiava muito mais em Elton John para contar a sua história, do que em Brian May para contar a história dos Queen, e o Captain Fantastic não me desapontou. Brian é demasiado cuidadoso com o seu “legado”. A porra do legado — essa dimensão fantasiosa onde tudo é limpinho e lavadinho; os bons são muito muito bonzinhos; os maus são uns grandes grandes mauzões; e tudo é preto ou branco. Não há nuances, não há tons de cinzento. Mas para quem tinha dúvidas, Elton afirma cabalmente – “eu não vivo a minha vida a preto e branco”. Assim também eram os Queen, pelo menos até 1982.

A preocupação da defesa do legado de Elton John nunca se pôs verdadeiramente, uma vez que ele fez a sua carreira vivendo precisamente do fator choque. Basta olhar para os fatos que Elton desde cedo adotou para a sua persona de palco (retratados na perfeição no filme); ou pensar nos escândalos constantes que enchiam os tablóides nos anos 70 e 80 (também mencionados no filme). Elton nunca foi de se resguardar e “Rocketman” mostra que toda esta sede de exposição pode ser rastreada até aos pais. Elton viveu uma infância contraída de afeto e isso deixou-lhe marcas que o feriram para toda a vida, mas que também criaram este monstro de palco extrovertido e extravagante, que mais não é do que uma busca para compensar défices de atenção do passado. Elton põe o dedo em todas estas feridas ao longo de “Rocketman”, num filme onde tem a coragem de expor o seu passado sem medos, mas onde também toma algumas liberdades para fazer ajustes de contas. Lá chegaremos.

Antes de mais, tenho que deixar aqui um aviso — eu odeio musicais. Admito que isso possa estar relacionado com alguma ansiedade social da minha parte, mas sinto-me sempre desconfortável quando vejo uma cena dramática transformar-se numa performance coreografada da Broadway. Regra geral, parece-me desnecessário e violador da ação e do ritmo do filme. Mas isto sou eu, que não costumo ter vontade de desatar a cantar quando estou a meio de uma discussão acesa. Por outro lado, este é um filme sobre o Elton John, a personagem mais campy e ultrajante da história da música. Se há um filme onde este tipo de violação pode ser permitida, é o filme sobre um homem a quem sempre tudo foi permitido. Com uma nuance acrescida — Elton conseguiu safar-se com uma carreira plena de transgressões, polémicas e outfits escandalosos, sem nunca deixar de ser family friendly. Talvez porque nunca deixou de lado aquele sorriso de miúdo que lhe é tão característico. E isto terá muito a ver com a tal infância que não lhe sorriu.

O sorriso ubíquo de Elton é peça central em “Rocketman”. Ele é sublinhado noutra das cenas-chave do filme quando, antes de entrar em palco no Royal Albert Hall, Elton liga à mãe para lhe revelar que é “Homossexual! Bicha! Paneleiro!” e ela o avisa que escolheu uma vida em que nunca vai ser amado “devidamente” (imagino que ela tenha usado mesmo a palavra “properly”, ipsis verbis, uma vez que é repetida no fim do filme, mas em retaliação). Como se não bastasse, Elton leva um murro do homem que amava — o seu empresário, John Reid (já lá vamos) — e ainda discute com o seu melhor amigo de sempre — o adorável Bernie Taupin (já lá vamos também) —, a quem grita “escreve as letras e eu tomo conta do resto!”. Mesmo com a sua vida a desabar, Elton nunca deixa de ser Elton e, como tal, vestiu um dos seus fatos extravagantes, rasgou o sorriso e entrou no Royal Albert Hall para mais um concerto de levantar o teto. Como disse uma vez Herman, Elton é o maior profissionalão da história da música.

Todos os filmes precisam de um vilão e, em “Rocketman”, cabe a John Reid esse papel. Reid é superiormente interpretado por Richard Madden (o Robb Stark, de “A Guerra dos Tronos”) e passa aqui por um empresário frio e ninfomaníaco, que seduz e depois trai Elton, sem nunca ser capaz de o amar. A realidade é um pouco mais complexa do que isso. Se viram “Bohemian Rhapsody”, recordar-se-ão que o mesmo John Reid (aí interpretado por Aidan Gillen, o Littlefinger de “A Guerra dos Tronos”, go figure!) é quem leva os Queen ao estrelato e depois é despedido num mal entendido com Paul Prenter (numa das muitas estupidificações que percorrem todo o filme). Na realidade, John Reid viveu com Elton cinco anos, entre 1970 e 1975, numa relação que, digamos assim, foi o mais estável que uma relação pode ser quando uma das partes é o Elton John. Eles separaram-se de facto em 1975, data que bate certo com o filme, quando Elton confessa ter começado a comportar-se como uma besta. Mas a verdade é que Elton e Reid se mantiveram inseparáveis profissionalmente até 1998 quando, aí sim, John Reid traiu Elton, mas no campo financeiro. “Rocketman” faz um ajuste de contas com o antigo manager de Elton e, para tal, reajusta os factos a favor do protagonista. Note-se que Reid foi inclusive o padrinho de Elton no seu casamento de fachada com Renate Blauel em 1984 — casamento esse que no filme parece ter lugar algures entre 1979 e 1980, na ressaca do seu absoluto nadir discográfico (o álbum “Victim Of Love”),  numa das várias “afinações temporais” do projeto.

Por falar em afinações temporais, quem é que acreditou que Elton entrou no concerto que mudou o rumo da sua carreira, sem conhecer a sua própria banda? Espero que ninguém. Como é óbvio, Elton já conhecia e tocava com o baterista Nigel Olsson e o baixista Dee Murray há vários meses e, quando entraram no Troubador, já tocavam de olhos fechados. Elton ainda não tinha uma guitarrista na altura, sendo que Davey Johnstone só ingressou na banda em 1972. Tanto Davey como Nigel ainda hoje fazem parte da Elton John Band (Dee morreu em 1992). Os membros da banda de Elton são meros figurantes no filme.

Outra daquelas afinações que fazem comichão a um fã é ver Elton apresentar “Daniel”, “I Guess That’s Why They Call It the Blues” e “Sad Songs Say So Much” a Dick James em 1967, quando estes temas só iriam ser gravados em 1972, 1982 e 1983, respetivamente. Se era para mostrar baladas da altura, por que não “Skyline Pigeon”, “Sixty Years On” ou “Border Song”? É daquelas coisas perfeitamente desnecessárias. E, se quisermos ser mesmo minuciosos, é preciso apontar que “Crocodile Rock” não podia ser tocado no histórico concerto do Troubador em 1970, uma vez que só foi gravado em 1972. 

A razão destes ajustes temporais é, na verdade, muito simples — Elton quis cingir-se aos êxitos em “Rocketman”, uma vez que o principal objetivo do filme é mostrar as jóias do seu repertório para cativar a audiência mais nova. Eu teria preferido que ele fosse historicamente acurado, mas consigo viver com estes ajustes, desde que a densidade das personagens compense. E se compensou.

Taron Egerton é fenomenal como Elton. Ao contrário de Rami Malek, o seu treino de Elton não se limitou a uma dentadura e uma coreografia. Começando logo pelo facto que Taron cantou, ele mesmo, as músicas de Elton; e não envergonhou ninguém. Mas mais importante ainda, Egerton mergulhou a fundo na personalidade de Elton, captou-lhe as nuances e conseguiu assim despejar no espectador o tremendo sofrimento por que Elton passou nos seus anos de desgraça, na segunda metade dos anos 70 e primeira dos 80. Neste período, Elton lidou com a exaustão, depressão, solidão e alienação (ouçam esta playlist para saber mais sobre o assunto). O filme não foge a nada disto.

A cena do reencontro com o pai é de uma interpretação tão intensa e tão pessoal que a sua visualização se torna um exercício penoso. Para quem, como eu, tem um sentido familiar muito forte, ver o pai do Elton agarrar nos seus novos filhos, quando tudo o que Elton queria era um abraço do pai é devastador. Ver a cara do Elton, quero dizer, do Taron, a olhar para aquela cena tira qualquer um do sério. Só esta cena faz valer o filme. Os manos do Elton têm uma opinião diferente acerca do que aconteceu, mas que importa? Foi assim que Elton se sentiu e este é o filme de Elton.

Mas nem todos foram maus com o pobre Elton. Todos os heróis têm um sidekick e o de Elton é o seu amigo de sempre, Bernie Taupin. Todos os que temos a sorte de ter um amigo a sério, sabemos reconhecer o valor a Bernie. Bernie tem em “Rocketman” o seu momento de glória, o merecido reconhecimento de uma lenda que sempre viveu na sombra de Elton, mas sem quem Elton não teria existido. A relação entre os dois sempre foi muito especial. Apesar de terem um processo criativo totalmente separado — com Bernie a escrever as letras sozinho e Elton, depois, a criar a música a partir das emoções que os poemas de Bernie lhe evocam —, a verdade é que Elton serviu de musa de Bernie por inúmeras vezes ao longo dos anos. Bernie escrevia sobre o ordálio que via Elton passar e por isso mesmo tantas das suas canções parecem autobiográficas, apesar de não serem escritas por ele. É o caso de “Idol”, um tema que resume a vida e a carreira de Elton, especialmente do seu período negro e que escandalosamente não figura no filme. Ou então “Ego”, que ilustra como nenhuma relação criativa entre ambos — um tema acusatório que Bernie escreveu aquando da sua separação com Elton e que Elton gravou e lançou em single (!) antes de embarcar nos seus projetos extra-Bernie. Pena não termos ouvido isto no filme. Mas, claro está, a prioridade eram os hits.

O filme termina com uma maravilhosa semi-reconstituição do fantástico videoclip de “I’m Still Standing” (um dos meu favoritos de sempre) que, como eu previ aqui há meses, fecha o filme como a grande reviravolta na carreira de Elton (que o foi, de facto), em 1982.

Continuo a odiar musicais mas “Rocketman” é o melhor musical que eu já vi. E é tudo aquilo que “Bohemian Rhapsody” não conseguiu ser — honesto, infame e explícito. Elton quer contar a sua história, mas fá-lo à sua maneira — sem filtros. Com sexo homossexual e cocaína em barda, Elton não deixa nada por dizer, nem nada para mostrar. E continua sem se importar muito se acham isso mal.