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“Princípio de Karenina” é o novo romance de Afonso Cruz

A cronista da NiT, Filipa Martins, lê o seu excerto favorito do livro do escritor português.
A cronista da NiT.

“Princípio de Karenina” (Companhia das Letras, 2018), o novo romance de Afonso Cruz, é uma meada que se puxa e o que nos fica na mão é, aparentemente, um fio único sem interrupções: a história, quase cronológica, de uma personagem.

Afonso Cruz interpela a obra magistral Ana Karenina , de Tolstoi, que arranca com a célebre frase: “Todas as famílias felizes se parecem, todas as infelizes são infelizes à sua maneira”. O escritor português acrescenta o ingrediente da dor à felicidade e desassemelha a pena apolínea das histórias familiares, que ganham humanismo, verosimilhança e textura nas suas imperfeições e solavancos.

Este é também um livro de aceitação do outro, a começar pelo protagonista nunca condenado por não conhecer a filha cuja existência tem por certa. E é, sobretudo, um livro de relativização de distâncias e construção de pontes emocionais na diferença.

Apesar da aparente linearidade narrativa, atentamente encontramos pequenos atritos, que nos fazem volver em laço sobre nós mesmos, e pontas soltas que nos levam a flutuar para outros domínios do saber, verdadeiras pontas de hélio.  Como a passagem que se segue, que parece remeter para o calendário cósmico do cientista astrofísico Carl Sagan:

“Assim como nós, em tudo o que fazemos, consumimos a distância: ingredientes que encerram em si milhares de quilómetros, pessoas e olhares de outro lado do mundo; (…) respiramos átomos com milhares de milhões de anos, somos tão absolutamente recentes como absolutamente velhos. Por mais distantes que estejam acontecimentos ou objectos ou seres vivos, estão unidos pelos arcos invisíveis das costuras do Universo”.

Porque, afinal, “somos todos feitos de poeira estelar” (Carl Sagan).