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“Prémio de Sonho” é mesmo fraquinho — e não merece Cristina Ferreira

O humorista Miguel Lambertini escreve sobre o novo programa da tarde na SIC.
Cristina Ferreira apresenta o formato.

Estou de férias no Algarve e aqui a box não tem a funcionalidade de andar para trás ou gravar, por isso senti-me como naqueles velhos tempos em que “box” era só a tradução inglesa para caixa — e para ver um determinado programa de televisão, tínhamos de estar em frente ao televisor à hora certa. Como a praia está com mais vento do que um anúncio do Griponal, nem foi preciso apressar as saídas porque às 16 horas já estava tudo a querer vestir os capotes alentejanos da Cantê e as mantas de lã da Futah.

Pelo que, às 19 horas em ponto lá estava preparado para ver a estreia do novo programa das tardes da SIC, com apresentação de Cristina Ferreira: “Prémio de Sonho” — uma adaptação portuguesa do formato britânico “Win Your Wish List”. Na promoção do programa, Cristina comentou: “Este é o meu parque de diversões. Vi 30 segundos e disse: é este que eu quero, isto vai ser o meu recreio”. Por acaso fiquei mais com a sensação de que a SIC é que montou um campo de férias e que Cristina Ferreira é a monitora que tem a obrigação de animar um bando de catraios. Desde logo porque a apresentadora aproveitou para estrear o seu novo grito de guerra, que seria perfeito para dar a alvorada no Campo: “Prémio de Sonhoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo”. Eu sei do que falo porque fui monitor num campo de férias e há demasiados elementos em que encontrei semelhanças, mas já lá vamos.

Cada episódio conta com uma equipa composta por cinco elementos. Para ganhar o jogo, a equipa terá de completar diversos desafios e responder corretamente a questões de cultura geral. Os concorrentes escolhem antecipadamente um conjunto de cinco prémios de sonho e um prémio final que será atribuído a todos (neste primeiro episódio foi uma viagem à Austrália, que não ganharam). Depois de uma breve apresentação, Cristina chamou os candidatos, que surgem sentados num sofá, em cima de uma plataforma giratória.

A equipa era constituída por enfermeiros de psiquiatria, que decidiram auto denominar-se, de forma bastante original, “Os Seringas”. Cá está a primeira amostra de que o programa tem de ser muito divertido e alegre, como um campo de férias: as equipas têm nomes que crianças de 12 anos escolheriam.

Da lista de prémios de sonho dos “seringas” constava um bilhete para o jogo Real Madrid-Barcelona; uma estadia em família num turismo rural; um dia num spa; um passeio em iate no rio Tejo; uma remodelação de um escritório; e aquele que será talvez o prémio de sonho da maioria dos portugueses: uma suspensão automóvel, pedido do Diogo que, além de ser enfermeiro, está visto que é adepto do tunning. Aposto que tem uns crocs rebaixados com luzes negras na sola.

Como em todos os campos de férias, há sempre um monitor super animado que faz coreografias “muita malucas”. No meu caso era o Felisberto, que era um show a dançar kizomba. Neste caso é o Ben, um assistente de realização que foi demonstrar como se anima uma plateia que está desde as sete da manhã a gravar programas e às seis da tarde já não sabe se está no “Programa da Cristina”, no Goucha ou no casamento da prima Melanie que veio ontem de França. Agora que a D. Elvira da segunda fila já acordou e até deu um pézinho de dança ao som de “Sexy and I Know it”, está na altura de avançar com o programa para os “Seringas” poderem levar para casa os seus prémios de sonho, e uma suspensão para o carro. 

“Prémio de Sonho” também tem momentos inusitados, como aquele em que um dos concorrentes dança forró com a mulher, que estava na plateia. É ritmo, é animação, é televisão em movimento, é tudo o que for preciso para não se perceber que este concurso é mesmo fraquinho. Tal como um campo de férias que se preze, os desafios têm perguntas de cultura geral e jogos físicos que normalmente envolvem figuras tristes.

É o caso de “Abanar o Esqueleto”, o desafio no qual o concorrente tem uma caixa cheia de bolas de ping-pong agarrada às costas e tem de abanar o corpo para fazer as bolas caírem. Ou outro jogo, em que um concorrente coloca um strap-on em forma de cauda de leopardo com um íman na ponta e tenta apanhar peças colocando-se de cócoras. Tudo provas de alto nível de dificuldade e de grande produção, que metem o “Game of Games” da Ellen DeGeneres a um canto.

Fiquei só a sentir falta daquela gincana boa, que termina com um alguidar de água e outro cheio de farinha e rebuçados de mentol. Dá a sensação de que a SIC gastou o orçamento todo no ordenado da Cristina Ferreira e ficou sem moedas para investir na produção deste conteúdo. Resumindo: “Prémio de Sonho” não merece ter uma apresentadora de sonho. Mas se há alguém que faz omeletes sem ovos é Cristina, e como em todos os campos de férias, só tem de usar o truque para cativar a audiência: sorrir, dançar e gritar bem alto “alabum e xicabum!”