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opinião

Os três novos discos a solo de Freddie Mercury, esse grande fingidor

Sobre a vida e a música do eterno vocalista dos Queen, na semana da reedição da sua discografia sem os Queen.
Oh yes, ele era o grande fingidor

Em novembro de 1986, com os Queen ainda a recuperarem de uma mega-digressão que enchera Knebworth, Wembley (duas vezes) e mais de 20 estádios por toda a Europa, Freddie Mercury dava entrada nos estúdios Townhouse, em Londres, para gravar um cover. Parecia ser mais uma bizarra decisão na errática carreira a solo de Freddie. Mas para mim, a escolha de “The Great Pretender”, originalmente gravado pelos The Platters em 1965, foi tudo menos um ato aleatório. Freddie começou aqui uma série de mensagens subliminares para os seus fãs, preparando-os para o que aí vinha. O que ele queria dizer, a quem estivesse com atenção, é que era ele o grande fingidor. Ele sim era o “The Great Pretender”. Ninguém o levou a sério.

Freddie era um homem frágil. Vendo-o em cima do palco, ninguém diria. Ali, ele usava a máscara de macho dominante, uma força da natureza que aliava uma voz divina a uma presença em palco nunca vista antes ou depois. Ali, ele podia fingir. Mas fora das luzes e dos decibéis, onde não podia fugir à realidade, Freddie era extremamente inseguro. O seu alter-ego artístico era a bolha que o distanciava dos demais e o protegia do mundo lá fora, mas ao mesmo tempo era a prisão que o sufocava. Freddie aparentava ter muito amor à sua volta, mas sentia-se terrivelmente sozinho, lamentando não ter ninguém que o compreendesse: “People have a hard time to accept me as a normal person. I’d like to share my life with someone, but nobody wants to share their life with me. The more I open up, the more I get hurt. I’m riddled with scars and I just don’t want it anymore.”

Freddie tinha criado uma projeção monstruosa de si mesmo que se tornara impenetrável, mesmo na sua vida pessoal. O seu alter-ego alienava toda a gente do seu verdadeiro “eu” — um homem que era por um lado extremamente intenso, perigosamente volátil e de temperamento difícil, mas que no seu downtime era, segundo o próprio, apenas “aborrecido”. No fim de contas, era apenas um homem à procura de aceitação. E não somos todos? Como diria o David Bowie, “apenas um mortal com o potencial de um super-homem”. A única forma de Freddie fugir a este novelo que atara com a sua própria imagem era, claro está, fingindo. Através da sua música.

Não é por acaso que a música de Freddie Mercury aborda tantas vezes o tópico da solidão. E se nos Queen ele tinha algum freio, talvez devido à sua timidez ou à proteção da sua máscara (“It’s A Hard Life”, ou “My Melancholy Blues” são raros exemplos), quando chegou a altura de gravar o seu primeiro álbum a solo em 1983 — “Mr. Bad Guy” —, Freddie foi a todo gás para dentro da sua mente: “Living On My Own” é auto-explicativo; “Man Made Paradise” pinta o cenário da sua vida — “History repeats itself, I seem to be all by myself again”; “Mr. Bad Guy” e “My Love Is Dangerous” são um auto-retrato de um vilão — “everyone’s afraid of me” / “step carefully”; “Love Me Like There’s No Tomorrow” fecha o álbum confessionalmente — “God knows I learnt to play the lonely man, I’ve never felt so alone in all my life”. É tudo extremamente pessoal. Quase incomodamente pessoal.

Por outro lado, de uma forma perversa, os temas de “Mr. Bad Guy” aliam estas letras extremamente sombrias, profundas e pessoais, a música tentativamente Gay Disco, feita com sintetizadores low budget que parecem ter vindo do Toys R Us e a uma produção barata, indigna de um disco com a assinatura do mesmo homem que em tempos escreveu “Bohemian Rhapsody”. Deve ter sido estarrecedor para quem foi comprar o álbum a solo de Freddie em 1985 e se deparou com isto. É quase como que Freddie não quisesse que o público dos Queen ouvisse o seu álbum; como se ele a meio ficasse tímido ou inseguro com a forma como se estava a expor e decidisse sabotar intencionalmente o seu próprio disco. Até o título do álbum, que esteve até à ultima hora para se chamar “Made In Heaven”, foi violentado. Parece ridículo, eu sei. Mas como explicar que as faixas vocais de Freddie, que deveriam ser o pano frontal da sua musica A SOLO, foram colocadas debaixo de um papel vegetal, como se Freddie estivesse a cantar na sala ao lado?

Mas tudo isto era Freddie. Uma soma de contradições explosiva e por demais fascinante. É por isto que “Mr. Bad Guy” é um álbum tão importante para perceber quem era o verdadeiro Freddie Mercury. O outro lado de “Don’t Stop Me Know” é este. Nesta altura faltava-lhe o Dr. Brian May para lhe pôr o freio e Freddie deixou-se descarrilar.

Não é por isso difícil perceber que “Mr. Bad Guy” seja o patinho feio da discografia de Freddie Mercury (juntamente com “Hot Space” dos Queen, mas esse ainda foi calibrado pelo nosso astrofísico favorito). No filme “Bohemian Rhapsody”, o álbum é demonizado como o disco terrível que separou os Queen. Desde o seu lançamento original em 1985, “Mr. Bad Guy” nunca mais foi revisitado. Até agora.

Uma vez que os Queen, os verdadeiros, foram votados ao esquecimento pelo Dr. Brian May e pelo Sr. Roger Taylor, demasiado ocupados a viver o sonho americano com um cantor de cabaret nas asas do filme, abriu-se a janela natalícia para um lançamento de Freddie Mercury a solo. E Jim Beach, manager dos Queen, aproveitou para revelar a muito adiada remistura de “Mr. Bad Guy”. E em boa hora o fez. Numa altura em que a imagem de Freddie é progressivamente saneada, nada melhor que recordar que para além do Bom, Freddie também tinha o Mau e o Vilão. E que era nestas linhas turvas que se desenhava a personagem mais apaixonante da história da música.

Para além da nova remistura de “Mr. Bad Guy”, chegou uma reedição da versão 2012 de “Barcelona”, quando foi totalmente regravado com uma orquestra real, substituindo os sintetizadores do álbum original. E para fechar a quadra dedicada a Freddie, veio também a nova compilação “Never Boring”, cujo nome foi retirado do famoso pedido que Freddie fez a Jim Beach, quando o nomeou como o seu executor testamentário e representante legal nos Queen: “Do whatever you want with my music, just never make me boring”. Foi um pedido que nem sempre foi satisfeito, mas certamente que tal não foi por falta de vontade do “Miami” Beach.

Os três discos foram lançados na sexta-feira e eu passei o fim de semana a ouvir estas reedições, a reconectar-me com a discografia a solo do Freddie e a relembrar-me de como o amo. A nova remistura de “Mr. Bad Guy” é absolutamente essencial. Pela primeira vez, não parece que Freddie está a cantar noutra sala. Os sintetizadores baratos continuam lá, como sempre feios que dói, mas a composição de Freddie continua intocável e beneficia agora de uma produção mais afinada, que faz o álbum ganhar uma nova vida. Estou há 4 dias a ouvir isto num loop compulsivo.

Também a colectânea “Never Boring” traz novas remisturas das faixas avulsas de Freddie, caso de “The Great Pretender”. Este é o caso de um tema que não precisava de uma remistura, mas a nova versão vale por fazer sobressair outros detalhes que antes estavam escondidos. Já a regravação de “Barcelona” datada de 2012 é exactamente isso. Datada de 2012. A gravação original, provavelmente a gravação mais próxima do divino de toda a História da música, essa é intemporal.

Freddie era o grande fingidor, mas fingia menos nos seus discos a solo. Era ali que ele deixava escapar tudo o que não conseguia dizer nos muito mais expostos discos dos Queen. É ali que podemos perceber que grande parte da grandeza deste homem vem da sua própria escuridão. E é por isso que todos estes 3 discos são documentos essenciais para a compreensão do verdadeiro Freddie Mercury. Se pelo menos o tivéssemos ouvido.

P.S.: Se não conhecem a fundo os trabalhos a solo de Freddie Mercury, aconselho-vos vivamente ouvirem esta playlist.