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Os piores filmes que felizmente nunca foram feitos

“Gladiador 2” ou “E.T. 2” são alguns dos exemplos das tragédias que podiam ter acontecido. Mas também há exemplos tristes, como o fabuloso “Dune”, de Jodorowsky.

Nicolas Cage quase foi Superman, num filme de Tim Burton.

É fácil dizer mal dos estúdios. Afinal, são eles que nos enfiam pela goela abaixo as sequelas intermináveis, remakes desnecessários e filmes que se limitam a seguir as mesmas fórmulas batidas. Mas, enfim, é um negócio e a máquina de produção serve um objetivo muito simples e transparente: fazer dinheiro. Se algum executivo ou produtor entende que, por alguma razão, determinado projecto não tem potencial para superar os mágicos 200% do orçamento inicial (a suposta linha onde os filmes se tornam de facto rentáveis) então é quase certo que este não vai acontecer. É assim que tantos filmes ficam retidos no chamado “development hell”, que é a fase onde até já se fez algum trabalho de pré-produção como argumento, casting ou guarda-roupa, mas onde não se gastou dinheiro a sério. Pensemos nesta fase como as águas de bacalhau de Hollywood. É provavelmente o processo mais frustrante na indústria cinematográfica, porque pode demorar anos até um filme ser repescado ou enterrado definitivamente num buraco escuro. Assim se perderam alguns grandes filmes, como o famoso Dune, de Jodorowsky (vejam o documentário que conta a história da produção, é óptimo) ou o Napoleão, de Stanley Kubrick. Mas há vezes onde o tal abismo é a única resposta racional para filmes que não deviam existir. Às vezes, a máquina faz sentido.

Há dezenas de artigos sobre os grandes filmes que se perderam. Mas não vou falar desses. Depois de uma exaustiva pesquisa (que foram só duas horas, na verdade), elaborei uma pequena lista com os piores filmes que não foram feitos. Ou, pelo menos, os mais estranhos.

“Gladiador 2: The Christ Killer”

Depois do enorme sucesso de “Gladiador”, em 2000, o Russell Crowe pediu ao amigo Nick Cave para escrever uma sequela. O músico escreveu um guião onde Maximus Décimus Meridius é ressuscitado pelos deuses romanos que lhe prometem vida eterna se ele se comprometer a matar cristãos e extinguir essa nova religião. Eventualmente, o filho do Maximus convence-o que os deuses estão errados, e ele vira-se contra eles. Já seria um filme bizarro se fosse só isto, mas o guião não se fica por aí. Porque, afinal, o Maximus é imortal. Na sequência final do filme acompanhamo-lo pela história até ao século XX onde ele combate na II Guerra Mundial, passa pelo conflito no Vietname e acaba a trabalhar como político no Pentágono.

O argumento não foi bem recebido, compreensivelmente. O Russell Crowe terá dito “Don’t like it, mate.” ao compatriota australiano, o Ridley Scott assobiou para o lado e assim morreu a sequela. Terá sido pelo melhor, apesar de Nick Cave ter defendido o seu trabalho numa entrevista de 2013, chamando-o de “stone-cold masterpiece”.

“E.T. 2: Nocturnal Fears”

Um facto pouco conhecido de “E.T. – O Extra-Terrestre” é que ele teve origem num filme de terror, com efeitos especiais do extraordinário Rick Baker, chamado “Night Skies”. Depois desse projecto se ter afundado, Spielberg reinventou o argumento e saiu-se com um dos filmes mais bem sucedidos de sempre, que chegou a ter uma sequela planeada. Apesar de não ter passado do esboço, a história proposta em 1982 pela argumentista Melissa Mathison a Steven Spielberg para o “E.T. 2” tinha uma abordagem controversa, que consistia em pegar na inocência mágica do filme original e transformar isso num filme de terror série B. O filme iria começar com um grupo de extra-terrestres parecidos com o do original mas maus, com olhos vermelhos e dentes afiados que procuram o E.T. original no planeta Terra. Depois de dizimarem umas vacas, os extra-terrestres maus raptam a família do filme original e torturam-nos em procura de informação. No final, o E.T. amigável aparece, salva todos, tem mais uma despedida emocional e pira-se de novo.

À semelhança de E.T., também Spielberg nos salvou a todos quando decidiu que era melhor deixar as coisas como estavam e não traumatizar toda uma geração com isto.

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