Opinião

Os melhores filmes de Stephen King

Antecipando a estreia de “It”, vou falar sobre o autor vivo mais adaptado ao cinema. 

"It" tem ante-estreia marcada para este domingo no MOTELx.

Uma das conclusões mais rápidas que alguém pode tirar ao ver os livros que tenho nas estantes de casa é que sofro de uma pequena obsessão pelo Stephen King. Não é um fascínio recente, visto que 80% desses livros foram comprados há mais de dez anos, mas que ainda hoje continua. De forma mais comedida, claro. Mas vá, admito que ainda sou um grande fã, apesar de me desiludir mais vezes que um sportinguista no século XXI.

É desta perspetiva que sempre vi as muitas dezenas de adaptações das histórias do escritor ao cinema. Umas vezes sem o mínimo de esperança que a coisa corresse bem, e noutras com certeza que seria difícil não sair um bom filme dali. Mas o rácio de boas adaptações cinematográficas acaba por não ser positivo. O que é normal, visto que a própria bibliografia de King tem tanto de medíocre como de muito bom.

Em retrospetiva, acabei por ler alguns livros fracos enquanto procurava pelos bons que faziam a tal obsessão valer a pena. Por cada “Misery” ou “Pet Sematary” (talvez o mais assustador deles todos), tive que ultrapassar “A Rapariga Amava Tom Gordon” ou “O Retrato de Rose Madder”. E no cinema ainda pior: até os bons livros se podem transformar em filmes fracos. 

Depois de uma rápida pesquisa para reavivar a memória, estimo (pouco) cientificamente que a cada cinco filmes baseados em livros de Stephen King aparece um muito bom. Pode parecer pouco, mas se tivermos em conta que falamos de um dos autores mais adaptados ao cinema de sempre, acaba por não ser assim tão mau.

O curioso é que a toda a sua carreira foi também definida por essa relação constante com a sétima arte, a começar com “Carrie” (1976) de Brian DePalma, que fez do primeiro livro de Stephen King num sucesso de bilheteira e que o catapultou para a fama instantânea. Depois, Tobe Hooper (RIP) fez de “Salem’s Lot” (1979) um filme televisivo melhor do que era suposto, e o culto fixou-se com o extraordinário “The Shining”, do génio maior Stanley Kubrick. Um filme que, curiosamente, Stephen King sempre desprezou, por achar que Kubrick desvirtuou o livro ao não capturar devidamente a ideia de alcoolismo e que Jack Nicholson já parecia insano desde a primeira cena. Ainda hoje, é comum encontrar vídeos e entrevistas onde King maldiz a adaptação.

Seja como for, o escritor deve muito a esse filme, que completou o princípio auspicioso: de uma assentada, três realizadores talentosos atiraram-se aos seus primeiros três livros e alavancaram uma das carreiras mais profícuas da cultura moderna. 

O sucesso do final dos anos 70 e inícios de 80 fez de Stephen King um dos autores mais vendidos no mundo. E dos mais ricos, por consequência, o que lhe possibilitou uma miríade de vícios, como cocaína, álcool, Xanax e Valium. A situação agravou-se a ponto de King não se lembrar de ter escrito o livro “Cujo”, o que eleva o velho conceito de “não me lembro como voltei para casa” para níveis estratosféricos. Recorde o artigo da NiT sobre a vida de Stephen King. 

Enquanto isso, as adaptações continuaram a aparecer e entre 1982 e 1984 surgiram mais seis filmes baseados em histórias suas, com dois deles a destacarem-se: “Christine – O Carro Assassino” (1983), realizado por John Carpenter, talvez o seu filme mais subvalorizado, e “Zona de Perigo”, que teve a mão artística de David Cronenberg e um Christopher Walken em grande forma. Novamente, grandes realizadores a confirmar a visão do escritor no grande ecrã e a fazer crescer a sua reputação.

Mas o pior veio a seguir: muitas adaptações anémicas, feitas por gente pouco talentosa, mais interessados no dinheiro expedito que a marca “Stephen King” já garantia que em fazer bons filmes. E o próprio interesse do autor na sétima arte, que se viria a traduzir em algumas mini-séries pobres, também não trouxe boas coisas. Apesar de ser certo que King devia ter continuado no seu galho, tenho que confessar um carinho infantil pelo filme que realizou em 1986, no auge da sua fase “acelerada” — passe o eufemismo — chamado “Potência Máxima”. É uma patetice sobre camiões que ganham consciência e tentam matar Emílio Estevez e amigos, que se barricam num restaurante isolado. Tem música dos AC/DC, a banda favorita do escritor, e pareceu-me a coisa mais fixe do mundo quando tinha 8 ou 9 anos e o vi na televisão.

Ao mesmo tempo que os filmes de série B se multiplicavam, continuaram também a sair bons filmes para equilibrar a equação. Bem mais importante que os camiões sencientes desse ano, “Conta Comigo” (1986), de Rob Reiner, é hoje recordado como um clássico dos anos 80, um filme que teve o bom senso de ser fiel à história original (e quase autobiográfica), que apareceu na coleção “Estações Diferentes”. E, igualmente importante, o casting dos atores foi perfeito, com River Phoenix a liderar a matilha. O sucesso deste filme nostálgico atestou King como mais que um mestre do terror, o que se viria a confirmar pouco depois, já nos anos 90. 

A ironia dos noventas foi ter começado com um filme sobre um escritor que tem um acidente de carro quase fatal e acabado com o próprio Stephen King a ter um acidente de carro quase fatal, no verão de 1999. Fora esse acidente dramático, os anos 90 foram simpáticos para com o escritor, que conseguiu libertar-se das suas dependências e cujo trabalho mereceu um novo respeito em Hollywood. Kathy Bates ganhou um Oscar de melhor atriz pela adaptação de “Misery — O Capítulo Final” (1990), de Rob Reiner (novamente), onde James Caan antecipou as agruras físicas do autor, e os dois filmes de Frank Darabont excederam as expectativas: “Os Condenados de Shawshank” (1994) elevou-se como um dos filmes preferidos do grande público, talvez o maior fenómeno de popularidade consensual dos últimos 30 anos (está neste momento em primeiro lugar no site IMDb), e “À Espera de um Milagre” também valeu várias nomeações para os prémios da academia em 1999. 

Infelizmente, no meio disto, algo se perdeu na escrita de Stephen King, outrora feroz e ousada. Apesar do novo século ter sido ainda mais produtivo para o escritor, não aconteceu nenhum clássico intemporal, com possível exceção dos seus livros de novelas e histórias curtas, um meio que sempre dominou. Apesar deste pequeno declínio crepuscular – já tem quase setenta anos – as adaptações nunca pararam, embora não se encontre um grande filme (ou série televisiva) entre eles. Mesmo entre os melhores, como “O Nevoeiro” ou “1408”, não há comparação possível ao que já tinha aparecido antes.

Chegamos assim a 2017, um ano especialmente relevante para Stephen King por ter tido a estreia do muito esperado “The Dark Tower”, que acabou por enterrar a grande saga do escritor num filme medíocre. Podem culpar o argumentista Akiva Goldsman, que faz carreira a parir guiões fraquinhos para blockbusters fraquinhos. Decorem o nome e mantenham-se longe. 

A verdadeira esperança está em “It”, de Andy Muschietti, que tem ante-estreia marcada (e já esgotada) no festival MOTELx e estreia geral no dia 14 de Setembro. É possivelmente o livro mais icónico da sua bibliografia, e o mais monumental, a par de “The Stand”. A história, contada em dois níveis no livro – passado e presente — foi dividida naturalmente em dois filmes. E, até agora, as reações a esta primeira metade, que adapta a narrativa passada nos anos 80, onde as personagens são crianças, foram muito positivas. O que faz crer que 2017 pode, afinal, acabar por ser um ano bem positivo para Stephen King. 

E como não resisto a um top 10 de filmes do Stephen King, aqui vai:

10. “Eclipse Total” (1995)
9. “À Espera de um Milagre” (1999)
8. “Cemitério Vivo” (1989)
7. “Misery — O Capítulo Final” (1990)
6. “Conta Comigo”(1986)
5. “Carrie” (1976)
4. “Zona de Perigo” (1983)
3. “Christine” (1983)
2. “Os Condenados de Shawshank” (1994)
1. “Shining” (1980)

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