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opinião

Ouvir Coldplay é uma espécie de crucificação prolongada

A banda britânica tem um novo álbum. Será que vale a pena o sacrifício? O cronista da NiT responde.
Coldplay já foi fixe.

Tal como Jesus Cristo se sacrificou pelos vossos pecados, também eu ouvi as novas músicas dos Coldplay. Tudo para vos trazer aqui esta review. Não sei, só posso imaginar o quão dolorosa foi a crucificação, mas ouvir as músicas novas dos Coldplay também me fez sentir um mártir. Será que valeu a pena o sacrifício?

Perguntam vocês por que raio eu me dou ainda ao trabalho. Pois, é que os Coldplay eram, há aproximadamente 20 anos, quando ainda andava no liceu (estou mesmo a ficar velho), a minha grande aposta para a melhor banda da nova década que se avizinhava. Tal afirmação arriscada baseava-se na excelência de “Parachutes”, um álbum a abarrotar de sentimentos e melodias, que provou que se pode fazer Rock ‘n’ Roll no sótão, sem incomodar os vizinhos. Os Coldplay criaram uma obra perene, ao mesmo tempo emocionalmente densa, sublinhando as tensões da pós-adolescência, mas suficientemente simples na forma, de modo a chegar às grande massas. Preguei durante anos a chegada da banda que ia salvar o Rock no mainstream. Fui enganado. Andei eu a defendê-los no liceu para depois me fazerem isto.

Nos anos seguintes vi os Coldplay desintegrarem a sua sonoridade num bafio de IMAX balofo e insuportável. Ainda me dou ao trabalho de os ouvir porque ainda espero que dali saia uma brisa de brilhantismo. (Quase) sempre em vão. Na verdade, o álbum “Viva la Vida or Death and All His Friends” (2008) capitalizou a colaboração com Brian Eno para trazer algo de refrescante em parte do disco, caso do multi-parte “Yes”. A outra parte (“Viva La Vida” à cabeça) já adivinhava o descalabro que aí vinha. O álbum “Mylo Xyloto” é um atentado aos ouvidos de quem um dia ouviu “Parachutes”. A não ser que gaguejem. Nesse caso, “Paradise” será útil numa noite de karaoke.

O hype desta feita era promissor. O novo álbum “Everyday Life” foi anunciado (de forma extremamente cool, diga-se) nas secções de classificados de vários jornais um pouco por todo o mundo, incluindo um jornal do Norte de Gales onde o guitarrista Jonny Buckland trabalhou nas férias enquanto miúdo (ainda tenho um soft spot pelos Coldplay). O press release prometia uma sonoridade experimental e um novo capítulo no arco discográfico da banda britânica, na forma de um álbum duplo conceptual, dividido nos discos “Sunrise” e “Sunset”. Julgando pelas primeiras amostras, a mim, soa-me à mesma treta dos últimos dez anos. Até uma música doce e potencialmente tocante como o tema-título “Everyday Life” tem que levar com aquele perfume EDM nauseante que soterrou os Coldplay da última década. O mesmo bafio que torna a audição de qualquer música da banda num martírio que devia estar previsto como um dos sacramentos de penitência para a absolvição dos pecados.