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“Quem Quer Namorar com o Agricultor”: cinco gatos borralheiros à procura de princesa

O reality show volta para a segunda ronda. O humorista e cronista Miguel Lambertini analisa o programa da SIC.
Acaba uma, começa logo outra.

A SIC continua a apostar nos dating shows como um asiático às quatro da tarde no Casino de Lisboa. A fórmula é ganhadora e, por isso, basta fazer como em todos os casos em que há um produto de sucesso para explorar: repetir até à exaustão e esmifrar o conteúdo ao máximo até o público se fartar. Quando o público se fartar, aí então, sim… ainda dá para fazer uma última versão que normalmente tem um subtítulo impactante para mostrar que desta é que vai mesmo acabar. Designativos como por exemplo: “último confronto”, “desafio final”, “o reencontro”, “mais uma moeda, mais uma voltinha, menina bonita não paga, mas também não anda” são os mais recorrentes. No caso de “Quem Quer Namorar com o Agricultor”, o provável subtítulo da temporada final “desta é que é, ele vai mesmo encontrar um amor para a vida e não é daqueles que é preciso tosquiar ou ordenhar!” ainda é capaz de estar longe de ver a luz do dia. Ainda agora terminou a primeira temporada e já estreou este domingo, 9 de junho, a segunda versão do programa.

Embora no que toca a namoro propriamente dito tenha havido muito pouco, ao que parece as audiências são suficientemente atrativas para avançar para a sequela. A verdade é que “Quem Quer Namorar com o Agricultor” podia chamar-se “Quem quer sair do stress da cidade e ir para o campo aprender o que é uma alcagoita”. Então qual é o ingrediente que fez com que este programa tenha conseguido atrair a preferência dos espectadores? Provavelmente o facto de toda a gente gostar de um bom conto de fadas, no fundo de um remake da história do Príncipe e da Cinderela, sendo que neste caso os papéis invertem-se, porque estamos perante cinco gatos borralheiros, que procuram encontrar a sua princesa. De resto, é com pena que constato que ainda não foi desta que tivemos uma agricultora à procura do amor, mas seguramente que lá para a temporada 23 é capaz de aparecer. Tal como na primeira edição, desta vez os cinco agricultores têm um perfil muito semelhante entre si, essencialmente matam-se a trabalhar durante o dia, só têm os animais para partilhar as suas angústias e gostavam de poder chegar a casa e ter à sua espera uma companheira que consiga articular um pouco mais do que apenas “muuuuuuu”. “Como é que se descreve? pergunta Andreia Rodrigues. A resposta é exatamente igual para todos, substituindo cada um dos seguintes adjetivos pelos seus sinónimos: “Simples, trabalhador, romântico, honesto”. “E o que procura nas candidatas?” Todos respondem: “Uma mulher que seja fiel, que queira partilhar esta aventura comigo… que seja  bonita se possível (risos).” Já enjoa um bocadinho, é sempre mais do mesmo. Anseio pelo dia em que alguém diga num destes programas: “Sou uma besta, por isso é que tenho 41 anos e ainda nenhuma mulher aguentou ficar comigo mais do que seis meses, tirando a minha santa mãe. Além disso, tomo banho uma vez por semana para não gastar muita água e não contem comigo para ser romântico e carinhoso que eu não tenho cara de Tony Carreira. Se o vosso sonho sempre foi encontrar um gajo como eu, não percam esta oportunidade única de, quem sabe um dia, vir a ser a Srª Besta.” Infelizmente nenhum dos candidatos optou por usar esta estratégia infalível de sedução, depois admiram-se que as coisas não correm bem e há drama nas capas das revistas…

Os agricultores são todos iguais, mas fica aqui uma descrição de cada, para os conhecerem melhor.

Francisco Martins tem 37 anos e procura um amor “para a vida toda”. Talvez seja melhor avisar o Francisco que esse já foi reclamado pela Carolina Deslandes e, a avaliar pela frequência com que ela faz bebés, talvez seja difícil conseguir um amor desses tão cedo. Francisco assume que “namoro mesmo não tenho, por opção própria, há não sei quantos anos”. “Uma mulher que me conquistar o coração sai-lhe o Euromilhões. Eu hei-de fazer tudo para que ela se sinta bem”, diz o concorrente. Sendo que no seu vídeo de apresentação Francisco canta uma bela canção popular com o verso “Minha mãe para eu casar / Prometeu-me 3 ovelhas/ Uma cega, outra mona /Ai a outra sem orelhas.” Lá está, péssima gestão de expectativas, não namora há não sei quantos anos, tem três ovelhas deficientes mas apresenta-se como o próximo prémio do Euromilhões? Humm, vai-se a ver e é daqueles terceiros prémios que, divididos por 50 apostadores, no final dá 5€ a cada um… Francisco escolheu três candidatas que irão para sua casa: Rita Cenoura, Letícia e a Elisa que já participou na primeira temporada do programa.

Miguel Pereira tem 26 anos e descreve-se como uma pessoa simples. “Nasci nos Estados Unidos, estive lá quase a minha vida toda.” Miguel é o mais novo dos candidatos e deixou a cidade de Orlando onde trabalhava na área de gestão financeira para vir para Portugal plantar castanheiros. Com um sotaquezinho americano, estilo Nelly Furtado, Miguel achou as “interviews” e “flash dates” interessantes, como lhes chamou, e escolheu Vera e Cátia Lopes para levar para a sua quinta e iniciar assim a sua “love story”. 

António Hipólito tem 32 anos e inscreveu-se no programa para “procurar uma mulher que saiba amar e que seja carinhosa e atenciosa”. Descreve-se como trabalhador e honesto mas também tímido. O seu maior sonho é ser pai. António escolheu Soraia e Rita Ferreira para levar consigo para as margens do Alqueva, onde tem 800 hectares de terra. Ou seja, o único que efetivamente pode ser o próximo prémio do Euromilhões e não publicitou… Esperto.

Miguel Carvalho tem 55 anos e é o chamado concorrente “nunca é tarde para amar”, tem de haver sempre um, não é? “Nunca tive amores profundos mas gostava de me apaixonar”, diz o concorrente mais velho dos cinco. A idade, no entanto, não o impede de querer apaixonar-se e, por isso, está no programa à procura de um verdadeiro amor. Quer uma mulher com quem possa partilhar o ar puro e saudável do campo. As suas pretendentes serão as candidatas Isabel, Sandra e Fátima.

Emanuel Costa é de Nelas e o seu passado é marcado pela morte do pai. O jovem de 31 anos dedica-se à produção de leite de ovelha. “Uma mulher pode esperar de mim um homem como há poucos», diz o agricultor. Ora aí está uma versão alternativa ao “sou o próximo Euromilhões”, mas igualmente exagerada. Emanuel escolheu Inês , Débora e Wennia Emannuelly  (será por afinidade com o nome?), uma candidata brasileira que tem aquele sotaque divertido de “Tieta do Agreste”. Só faltou mesmo começar as frases por “óxênti, se há coisa que eu mais quero, mas de querer mermo nessa vida, é encontrar o amor, vissi?”.