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“Naked Attraction”: o tamanho não importa mas os homens altos têm pénis maiores

O cronista e humorista Miguel Lambertini escreve sobre o programa que é transmitido na SIC Radical.
É um programa de encontros — com um twist.

“Naked Attraction” é um dating show semelhante a tantos outros, embora a principal diferença seja a de que, em vez de acabarem nus, os concorrentes começam nus. É um género de versão 2.0 do Jardim do Éden, sendo que se Adão e Eva imaginassem ao ponto a que chegaria a programação dos canais televisivos, nunca teriam saído do paraíso. Deixavam-se estar quietinhos e faziam uma mala de pele de cobra, para poderem guardar as chaves dos portões, por exemplo, porque andar nu no dia a dia realmente não deve dar jeito nenhum para guardar coisas. 

Atualmente o programa está a ser transmitido na SIC Radical, mas na versão alemã, com o subtítulo “Dating Hautnah”, o que lhe dá logo um sotaque muito mais maroto. Fez-me lembrar os anúncios às linhas eróticas que passavam depois da meia-noite no canal alemão RTL, onde algumas senhoras de busto proeminente convidavam os telespectadores — entre gemidos e palavras sensuais com 14 consoantes seguidas — a ligar para o número que viam no ecrã por apenas um balúrdio por minuto.

E como é que eu sei isto? Porque quando eu tinha 15 anos, já era muito alto, mas ainda não havia Internet. Mas graças a Deus — e a um executivo alemão rebarbado que dirigia a RTL nessa época —, todas as noites havia filmes com bolinha vermelha naquele canal alemão. Ora, os intervalos eram preenchidos com os ditos anúncios e, por isso, irei para sempre lembrar-me da clássica frase: “ruf mich an! (liga-me!)”, tal foi a quantidade de vezes que me interessei por conhecer melhor a cultura cinematográfica germânica. 

A premissa do programa é muito simples: seis concorrentes estão completamente despidos em cápsulas de vidro opaco colorido e o seu corpo vai sendo desvendado aos poucos para que a pessoa que está de fora escolha o seu futuro encontro. Essa pessoa vai eliminando candidatos apenas com base no seu corpo, tal como Harvey Weinstein quando fazia castings. A cara é a última coisa a aparecer e há corpos para todos os gostos: magros, fortes, atléticos, baixos, altos (como eu que tenho 1,92 metros), o menu é bastante completo.

O programa é conduzido por uma apresentadora que vai colocando questões aos participantes e também comentando os seus corpos e quaisquer características que sejam mais visíveis. No último episódio que vi, Anna Steinbauer, uma jovem bailarina, avaliava os seis homens que estavam nus dentro de cada biombo. Primeiro problema, close ups… Há muito rabo peludo e borbulhento a ocupar todo o ecrã do nosso televisor, para não falar em alguns pénis e escrotos que só deveriam poder aparecer em televisão numa série do Syfy ou naqueles programas de freak shows do TLC. Eu não tenho nada contra pénis e escrotos, até porque possuo ambos, mas dispenso ver pénis em HD, já me basta os que me aparecem de repente ao nível da minha cara, quando estou a descalçar-me no balneário do ginásio. O que vale é que sou muito alto, por isso ainda consigo evitar alguns destes encontros imediatos.

Na primeira ronda em que todos ficam destapados até à cintura, a apresentadora dirige-se a um dos participantes, aponta para o seu pénis e diz sem rodeios: “O que achas do tamanho deste da primeira cápsula?“ E a senhora responde: “Penso que quando chegar a altura de ficar excitado, vai estar muito diferente.” Uma forma simpática de dizer “tem um pénis ridículo de pequeno, mas pode ser que com a excitação deixe de parecer uma lagarta encolhida.” 

Já o participante da cápsula amarela “tem um pénis enorme e além disso também é grosso”, constata a apresentadora. Ao que a participante responde: “Sim, mas devo dizer que gosto bastante das mãos.” A apresentadora ainda em semi-transe pela visão que tem à sua frente faz uma cara de estranheza, como se estivesse a perguntar o que são mãos e diz: “o quê? Ah sim… também tem mãos.” Maravilhoso.  

Os candidatos vão sendo eliminados até que finalmente chega o momento em que são desvendadas as caras. Ao observar um dos três homens que restam, a apresentadora diz: “O nariz não corresponde àquele ditado de que conseguimos ter uma ideia do tamanho do pénis”, olhando para o nariz. É aqui que surge outro dos momentos do programa, uma curta animação em motion graphics que serve para tirar algumas dúvidas e repor a verdade científica sobre o tema do sexo. Diz esta animação em concreto que os estudos já provaram que nem o comprimento do nariz, nem dos pés, nem das mãos nos dizem nada sobre o tamanho do pénis. A única característica com validade científica é a altura: homens altos tendem a ter pénis mais compridos. Sinceramente não vejo qual é a ligação mas, pronto, se calhar é porque tenho 1,92 metros e nós, os altos, somos um pouco desconfiados. 

Entretanto sai mais um homem de rabiosque ao léu descontraidamente, como se estivesse a ir para a estação de metro do Jardim do Éden, e é altura de ouvir pela primeira vez como soam cada um dos concorrentes. “Gosto bastante do corpo, mas a voz não é assim tão boa”, diz Anna. Era nesta fase que provavelmente o comissário Carlos Moedas perdia para outros candidatos. Quer dizer, a senhora esteve o programa inteiro a comentar tamanhos de pirocas e abdominais mas agora de repente o homem fala e o programa passa a ser o “The Voice”, queres ver. Só faltava dizer: “Ai, esta voz não me atrai, eu gosto mesmo delas é circuncidadas.”

Na última parte do programa, Anna tem de se despir e apresentar-se junto dos dois candidatos que restam, para que também ela seja avaliada e então possa escolher o seu candidato favorito. Curiosamente, nesta situação, os homens são normalmente muito gentis e todos eles, apesar de estarem focados apenas em duas zonas do corpo feminino, dizem sempre que elas têm uns olhos ou um sorriso lindo. Eu também sou um grande mentiroso. Além disso, tenho 1,92 metros, já tinha dito?