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Mia Couto e José Eduardo Agualusa dançam a quatro mãos em novo livro

A cronista da NiT, Filipa Martins, fala sobre "O Terrorista Elegante e outras histórias".
O livro teve origem em três peças de teatro.

Festejava o Teatro da Comuna 45 anos de existência, quando João Mota desafiou os escritores José Eduardo Agualusa e Mia Couto a esboçarem a quatro mãos uma peça de teatro. O resultado foi “O Terrorista Elegante”, no pico da crise dos migrantes na Europa e quando o medo em relação ao outro se agudizava. A temática violenta da peça com roupagem humorística atinge-nos como uma bala. Em causa, está um cidadão angolano erradamente preso sob suspeita de terrorismo. Porém, a personagem irá, com mestria, confundir os investigadores e a força do texto, marcada por diálogos libertadores, trocadilhos e embaraços, torna a temática próxima e leva à reflexão entre o riso.

Esta peça, agora transposta para livro, dá o título a uma coletânea de três contos escritos em conjunto. “O Terrorista Elegante e outras histórias” (Quetzal, 2019) resulta da adaptação de três peças de teatro ao universo contista e da fusão de ideias e vozes dos dois autores.

“Às vezes algumas pessoas dizem, ‘Isto foi o Mia’, mas nós próprios não sabemos quem escreveu o quê. A primeira peça que fizemos foi a partir de uma ideia do Mia, e eu tentei, de alguma maneira, aproximar-me da escrita dele. A segunda foi o contrário, foi a partir de um conto meu que já estava escrito. E a terceira foi a partir de uma notícia de jornal, que foi construída em Maputo, estávamos juntos e escrevemos em casa do Mia. Um dizia uma frase e outro dizia outra”, esclareceu José Eduardo Agualusa numa entrevista recente à agência Lusa.

Os escritores, que publicamente não escondem a amizade que os une, souberam tirar partido da cumplicidade, da musicalidade crioula e poética e do humor para criarem universos comuns.  

“Chovem Amores na Rua do Matador” e “Caixa Preta” são os outros dois contos apresentados na obra. Em ambos, há um forasteiro que surge inesperadamente ou que retorna para criar descontinuidade nas vidas daqueles com quem contacta. 

No final da leitura, e apropriando-me da expressão, há que dizer: thanks for the dance.