Opinião

O lado negro do Record Store Day

O Record Store Day faz 10 anos e já está cheio de vícios.

O evento começou em 2017 nos Estados Unidos.

Vem aí mais um Record Store Day. Para quem não conhece, o RSD é um evento anual que começou em 2007 nos EUA, entretanto difundido por todo o mundo e que acontece num Sábado de Abril com o objectivo de celebrar a cultura das lojas de discos independentes. Para tal, as editoras, em comunhão com os artistas, lançam uma série de discos especificamente para esta iniciativa. Estas prensagens são produzidas em quantidades limitadas, muitas delas exclusivas a determinados países, para serem vendidos nas pequenas lojas de rua ou, como nós chamamos, no comércio tradicional.

Antes de voltar ao RSD e porque esta crónica já vai demasiado solenizada e tudo é que demasiado polido me faz comichão, tenho que assumir que sou o maior fã de lojas de discos. Uma das minhas actividades preferidas, logo a seguir ao sexo e a festejar um golo do Benfica, é ir a lojas de discos. Ficar lá horas, mergulhar a fundo nas caixas e prateleiras de discos. Ir à procura de um álbum dos Tears For Fears e sair de lá com cinco discos diferentes do que queria. Quando viajo para o estrangeiro, a minha primeira prioridade não é procurar museus, restaurantes, ou miradouros, é ir a lojas de discos. Um dos meus sonhos é abrir uma loja de discos e se me saísse o Euromilhões (se eu jogasse), abria uma. Acho que já perceberam a ideia.

No papel, o Record Store Day parece o paraíso de qualquer aficionado do vinil como eu. O problema é que, chegado ao seu décimo aniversário, o RSD já não é nada do que se propôs inicialmente. Na realidade, parece-se mais com um pesadelo de frustração. A lista de lançamentos exclusivos do RSD é apetitosa, não há dúvida. Mas como pôr a mão num destes discos extremamente limitados? Em Portugal, é virtualmente impossível agarrar uma cópia dos discos mais procurados. Mesmo nos EUA, para onde é escoada a maior fatia do stock, as queixas de como é impossível encontrar os discos desejados são mais frequentes que o feedback de quem realmente os encontra. No fim, fica a frustração para a maior parte dos fãs, de mãos a abanar com notas, numa indústria que se queixa de falta de clientes. Estranho, não é?

E quando por algum milagre se encontra mesmo o disco, o melhor é proceder com cuidado a olhar para o preço porque o número pode provocar náuseas. As editoras ainda não chegaram à conclusão que os preços proibitivos pouco promovem a música e mais promovem aquela noção de que as editoras exploram os fãs e que só se podem queixar de si próprias pelo advento do download e do streaming.

Para onde vão estes discos, então? Vão para as mãos dos revendedores, “compradores profissionais” de raridades, que não querem os discos para usufruto próprio da música, mas sim para cobrar balúrdios aos fãs no eBay e no Discogs. São eles quem mais beneficia da raridade das prensagens e quem mais lucra com o Record Store Day, subvertendo todo o espírito da iniciativa.

A melhor chance de se apanhar um destes discos é mesmo a Amazon ou a Fnac, a quem são atribuídos stocks significativos dos lançamentos exclusivos do Record Store Day. Mas espera aí. Amazon e Fnac, lojas de discos independentes? Também não me parece que isto seja a melhor forma de hastear a bandeira do comércio tradicional.

Na prática, as lojas independentes beneficiam dos clientes que a marca do Record Store Day – sempre a crescer – atrai durante este dia. E se esses clientes não encontrarem o novo e exclusivo álbum ao vivo do David Bowie, “Cracked Actor” (que devia ter sido incluído na última e muito cara caixa “Who Can I Be Now?“, mas esse é só mais um exemplo de como as editoras sodomizam a carteira dos fãs), então compram outra coisa qualquer, só para justificarem a viagem à loja. Será este muito provavelmente o meu caso. A propósito, não há aí nenhum “Cracked Actor” numa loja independente para este cronista? Prometo que será para usufruto próprio.

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